Colômbia. “A mensagem do Papa sobre a igualdade foi sumamente importante”

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13 Setembro 2017

O padre José Luis Foncillas, membro da Comissão para a Vida, Justiça e Paz da Diocese de Tumaco, na Colômbia, destaca o apoio que o Papa Francisco deu ao processo de paz. "Ele deixou claro para nós que a base é a reconciliação". Essa visita aconteceu em um momento de grande polarização no país.

A reportagem é de Katalina Vázquez Guzmán, publicada por Página/12, 11-09-2017. A tradução é de André Langer.

Foram seis dias de mensagens profundas, amor e bênçãos que sacudiram a consciência da Colômbia. No domingo, terminou a histórica visita do Papa Francisco ao país que conseguiu silenciar o fogo cruzado entre o governo e o ELN, e isso aconteceu no momento em que as vítimas e os mais excluídos tentaram girar o curso da história para a justiça social. Entre a quarta-feira e o domingo, Jorge Bergoglio teve dias repletos de mensagens de fraternidade e reconciliação oferecendo um apoio determinado, amoroso e otimista em face do fim da guerra com as guerrilhas na Colômbia.

De acordo com especialistas do Vaticano, o máximo líder religioso acredita nos processos e nas negociações, e suas horas, que pareciam transcorrer sem cansaço, foram luz para milhões de fiéis em Bogotá, Villavicencio, Medellín e Cartagena. Além da paz, a corrupção, a prostituição, o narcotráfico, a ambição, a escravidão, os migrantes e o meio ambiente foram temas da semana em seus discursos e orações que foram prestigiados inclusive pelos partidos e indivíduos que se opuseram ao acordo de paz que já conseguiu desarmar e transformar em partido político a guerrilha mais antiga do país, e está em diálogo com a segunda maior organização rebelde. Além disso, o grupo criminoso herdeiro do paramilitarismo, o Clã Úsuga, manifestou através do seu líder a intenção de participar também desse momento de transição, proporcionando verdades e compromissos de vida e verdade para o futuro.

O Sumo Pontífice veio enfatizar diante de uma audiência, que não consistiu apenas em católicos – jovens, idosos, mulheres –, que a base da paz que é construída na Colômbia não é feita apenas de documentos e apertos de mão entre figuras de poder. Ele insistiu na cultura do encontro, na necessidade de deixar o ódio para trás, conversar e alimentar a esperança, curar o coração e ajudar os idosos a não nos acostumarmos com a dor e a virar a página da violência com participação ativa e compromisso. Escravos da paz, disse Francisco, para convidar os colombianos a lutar pelo seu sonho mais precioso nos últimos anos.

Além disso, colorir a memória coletiva e o primado da razão sobre a vingança foram pontos-chave em sua mensagem ad portas da formação da Comissão da Verdade e do Tribunal de Paz. Suas palavras também foram para os membros da Igreja católica e seus religiosos, que foram protagonistas da reconstrução do tecido social na Colômbia profunda. Em Tumaco, por exemplo, onde a violência não dá trégua depois da assinatura da paz, juntamente com a resistência pacífica da sociedade civil, o padre José Luis Foncillas recebeu esta visita, transmitida ao vivo pela mídia nacional, como o momento mais importante da fé e da espiritualidade na Colômbia.

O seu convite mais importante foi para não nos deixar roubar a alegria e evitar a cizânia que os poderosos – políticos, empresários, latifundiários – tentam semear sobre as mudanças que estão ocorrendo na Colômbia com o abandono de armas das FARC (Força Alternativa Revolucionária do Comum), sua passagem para a política e as atuais conversações com o Exército de Libertação Nacional (ELN). Não se trata de apoiar Santos ou a oposição, nem de usar a paz como uma plataforma eleitoral, mas de sobrepor egos e a ambição diante de um mandato humano como é a paz, explicou em vários discursos o líder do Vaticano.

O padre José Luis Foncillas, membro da Comissão de Vida, Justiça e Paz da Diocese de Tumaco e coordenador da Casa da Memória do Pacífico Nariñense, disse ao Página/12 que ressalta, acima de tudo, o claro apoio ao processo de paz que Francisco deu, embora nunca se tenha referido a este de maneira literal. "Politicamente, foi muito suave para não provocar maiores controvérsias, mas falou de paz, de reconciliação, de abandonar o ódio, de dar uma nova oportunidade ao país. Isso me parece muito importante porque, neste momento, há uma grande polarização no país e o Papa deixou claro que a paz está acima de tudo e que a base é a reconciliação”.

Antes de deixar a Colômbia no domingo à noite, com cumbias e homenagens em Cartagena, Francisco insistiu que, se não houver uma preocupação com os marginalizados, não pode haver paz. Neste momento, ele já tinha no rosto a marca de uma batida em decorrência de uma freada brusca do papamóvel enquanto se deslocava por um humilde bairro de Cartagena. Ali recordou que a dignidade é a coisa mais importante entre os povos, e recordou o apelo que fez no seu primeiro dia de visita: não perder de vista a igualdade. "A Colômbia é o país mais desigual na distribuição de terras. Por isso, a sua mensagem sobre a igualdade foi sumamente importante", comenta Foncillas em conversa com este jornal.

Quanto à mensagem dirigida à Igreja católica propriamente dita, o sacerdote que realiza o seu apostolado em um dos lugares mais esquecidos da Colômbia, Tumaco, disse que essa foi muito interessante e necessária. "Ele nos disse que devemos nos concentrar no amor de Deus, não tanto nas leis. Em relação às mulheres, ele disse que não podemos reduzir as mulheres a um segundo plano com posturas clericalistas inaceitáveis, palavras fortes em uma Igreja que marginalizou as mulheres. Além disso, com sua mensagem disse que a missão dos sacerdotes, bispos, religiosas e religiosos é servir e servir os mais necessitados. E que se vençam as tentações de poder, riqueza e posições importantes, porque isso desvia da mensagem principal de Jesus que foi amar e servir os mais necessitados”.

Francisco também pediu aos hierarcas da Igreja para que se comprometam com a paz e a reconciliação. "E isso nunca é demais recordar em nosso país, porque aqui o apoio de algumas pessoas da Igreja, pessoas com poder, ao Processo de Paz não foi tão claro. Eles não têm mais nenhuma justificativa para se opor", disse José Luis, acrescentando que, graças ao Papa, agora está claro para milhões de pessoas que anteriormente não estavam convencidas da paz, que é necessário abandonar o ódio e a vingança. Somente se ajudarmos a desatar os nós da violência – disse o Papa –, vamos desenredar a complexa meada de desencontros.

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