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08 Setembro 2017

Em 2015, o cardeal Murphy O'Connor, arcebispo emérito de Westminster, falecido recentemente, publicou suas memórias ‘Memorie: An English Spring’, um relato muito interessante e bastante saboroso da sua vida. O'Connor é considerado pela imprensa britânica (e não só) um dos líderes mais amados da Igreja nos últimos cinquenta anos. O livro reflete a humildade, o calor, a coragem de um homem que, na esteira do grande e lendário cardeal Hume, seu antecessor em Westminster, permitiu que soprassem os ventos da mudança, como conta no último capítulo das Memórias, que publicamos a seguir.

O texto a seguir é de Cormac Murphy O'Connor, cardeal-arcebispo de Londres, recentemente falecido, publicado por Settimana News, 05-09-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.


Eis o texto.

O papa Francisco começa com as pessoas, seu ponto de partida são as pessoas e onde elas estão. No coração do discipulado cristão existe a fé de que Jesus Cristo, em sua vida, morte e ressurreição, está sempre presente entre aqueles que o seguem. Francisco é muito incisivo no diálogo com os pentecostais e outros cristãos evangélicos, que durante muito tempo, em algumas partes do mundo, foram tratados como uma espécie de inimigo da Igreja Católica. Francisco fica visivelmente relaxado e à vontade com os cristãos evangélicos. Eles são, afirma, "nossos irmãos e irmãs e discípulos que seguem Jesus".

Na noite do início solene do ministério de Francisco, voltei para a Inglaterra para participar da entronização, em 21 de março, do novo arcebispo de Canterbury, Justin Welby, que também estivera em Roma, na Missa que o Papa Francisco havia celebrado para a inauguração de seu pontificado.

Era bom que eu estivesse em Canterbury para a ocasião solene, lembrando meus fortes vínculos e minha amizade com os antecessores de Justin: Robert Runcie, George Carey e Rowan Williams. Ele tem todo o nosso apoio e as nossas orações que seu importante papel necessita. Tenho certeza de que, se Francisco convidasse os líderes de todas as Igrejas e comunidades cristãs juntas, não em Roma, mas em algum lugar neutro, e não com a ideia de produzir um documento, mas apenas para estarem juntos, para rezar e para uma celebração conjunta, poderia acontecer algo interessante.

Francisco atrai as pessoas, sejam elas cristãs ou não. Ele se aproxima dos pobres e de todos aqueles que estão na periferia da sociedade, porque é lá onde se encontra Jesus. Como cardeal arcebispo de Buenos Aires vivia com simplicidade, cozinhando sua própria comida e viajando com os transportes públicos. Como papa, em vez de viver nos aposentos papais no Vaticano, ele ocupou uma modesta suíte em Santa Marta, a casa dos hóspedes, em que havia se hospedado durante o conclave de 2005.

Ele nos incentiva não só a sermos uma Igreja para os pobres, mas uma Igreja de pobres. Aqueles à margem da Igreja, e até mesmo fora dela, entendem que ele tem uma palavra para eles, uma palavra de conversão, uma palavra para buscar o que é bom e o que é verdadeiro em suas vidas, apesar de alquebradas ou afastadas de Deus como eles supõem.

A Igreja do Papa Francisco, eu acredito, começará a mudar um pouco quando se refletirem seu carisma pessoal e seu estilo. O Concílio Vaticano II falava do colégio dos bispos em comunhão com o papa, que exerce autoridade na Igreja. Em outras palavras, um bispo, em virtude de ser o sucessor dos apóstolos de Jesus, compartilha a tomada de decisões na igreja com Pedro. Isso é o que significa "colegialidade". Esse ensinamento é um dos maiores legados do Concílio. Seria difícil argumentar que foi implementado.

Mas Francisco, penso eu, colocará essa questão não resolvida no topo da sua agenda.

O primeiro sinal da determinação de Francisco em exercer o papado de uma maneira muito diferente de seus antecessores, foi a criação de um pequeno grupo de oito, depois de nove cardeais, para ajudá-lo no governo da Igreja e no planejamento da reforma da Cúria, algumas semanas após a sua eleição. Depois vimos o Sínodo Extraordinário dos Bispos sobre a família, em outubro de 2013, com Francisco incentivando um debate aberto e franco entre os participantes. Vimos a colegialidade aparecendo. Não estávamos acostumados a isso. Talvez tenha sido uma pequena reviravolta.

O segundo Sínodo dos Bispos sobre a família, em outubro de 2015 (o livro das Memórias foi publicado antes do sínodo, nde) será um evento importante na vida da Igreja. Começamos a ver bispos que estão se preparando consultando seus sacerdotes e ouvindo as vozes dos leigos em suas dioceses.

A Igreja tinha se tornado supercentralizada ao longo dos séculos. Ao olhar para a história da Igreja, percebemos que os concílios diocesanos e os sínodos dos bispos locais que se reuniam para discutir e decidir sobre todas as questões, eram a forma usual de a Igreja governar a si mesma. Acredito que exista uma necessidade real de descentralizar a autoridade na Igreja trazendo a periferia para o centro. Precisamos ser devotos e atentos ao Espírito de Deus e ao Espírito de Jesus presente em todos os fiéis, e precisamos nos deixar guiar e instruir na forma determinada pelos bispos com o Papa.

Não será nem fácil, nem simples. Vai exigir paciência e persistência, mas vejo que a melhor expectativa para nós é enfrentar os desafios que temos pela frente em matéria de dogma e moral pelos ditames do "colegiado" e do sistema "sinodal”, e – gostaria de acrescentar – da “subsidiariedade", porque muitas questões que afetam a vida da Igreja poderiam ser deixadas para a decisão dos bispos locais.

O papa tem um papel crucial a desempenhar na manutenção da unidade e da verdade na comunhão universal. Precisa garantir que os ensinamentos essenciais da Igreja sejam apoiados pelos bispos que o seguem e que todos sejam mantidos em unidade junto com o papa.

Parece-me que o futuro da Igreja em Roma não esteja mais no fato de que os bispos, padres e leigos trabalhem na cúria, mas sim que eles venham a garantir condições que permitam ao papa desempenhar o seu papel. A tarefa dos departamentos e dos escritórios da Cúria - valiosos e importantes - é de assistir e apoiar os bispos, sempre em comunhão com o papa, no governo e na orientação da vida da Igreja.

Lembro-me certa vez, em uma reunião de cardeais, ter sugerido que talvez fosse melhor ter poucas pessoas trabalhando na cúria: poucos cardeais e bispos, um número limitado de especialistas e de bons sacerdotes e leigos - homens e mulheres - a serviço do Papa em seu ministério. As minhas sugestões não foram recebidas com grande entusiasmo. Um cardeal me disse quando saímos da sala de reunião: "Então, está tentando se livrar de mim?".

Os ventos da renovação estão soprando sobre Roma. A grande maioria dos cardeais e bispos do mundo tem uma sensação de alívio e satisfação; alguns, especialmente em Roma, estão menos felizes. Há sempre resistência a mudanças.

Lembro-me a sensação que senti quando, ainda jovem padre, eu li as Cartas do Vaticano de Xavier Rynners, e estava ansioso para acessar os últimos documentos do Concílio Vaticano II. Quando ouço o Papa Francisco falar em ir para as periferias, quando ouço que é preciso atender as pessoas onde elas estão, penso aos livros de Yves Congar que me inspiraram como jovem sacerdote, e penso nos primeiros pequenos grupos que começamos em Portsmouth e Fareham. Diz-se frequentemente que os concílios da igreja levam muitos anos para se desenvolver e dar frutos. Acredito que é somente agora que o Concílio Vaticano II está apresentando plenamente os frutos contidos no seu ensinamento.

Devo chegar ao final dessa memória. Estou muito consciente das minhas várias inadequações e omissões. Serei cobrado justamente por minha incapacidade para enfrentar muitas questões com uma maior profundidade. Os historiadores da Igreja terão algo a me recriminar em relação aos detalhes sobre os fatos e os teólogos pela falta de profundidade nas análises.

Durante a minha narrativa, contei como fiquei impressionado pelo último discurso de Bento XVI como Papa. Quando falou da sensação de Pedro e dos outros apóstolos no barco no Mar da Galileia, apreciando os dias em que a pesca era abundante e sofrendo dos dias em que "o Senhor aparecia estar dormindo", sensibilizou-me profundamente. No entanto, como Bento, "sempre soube que o Senhor está no barco, e o barco da Igreja não é meu, não é nosso, mas é dele - e ele não vai deixá-lo afundar".

Eu confio em Deus porque sei que ele vive na sua Igreja, que está sempre viva, que a palavra da verdade do Evangelho é a força da Igreja. Diz-se frequentemente que a Igreja está sempre em um estado de reforma, porque o Espírito de Deus está na comunidade dos crentes, que acolhem a graça de Deus na verdade e vivem na caridade. Gosto muito quando dizemos na época da Páscoa: "Esta é a nossa fé, esta é a fé da Igreja, e nos glorificamos de professá-la em Cristo Jesus nosso Senhor".

Eu sempre gosto da Missa Crismal, da Semana Santa. O bispo celebra o mistério de Cristo com os seus sacerdotes, religiosos e fiéis. Temos o pleno mistério e dom da Igreja que a liturgia nos apresenta, na Palavra de Deus que é proclamada; nos óleos para os sacramentos que recebem bênção; na reafirmação do compromisso dos sacerdotes no seu ministério até a comunhão que é evidente entre os fiéis. É sempre um evento comovente e santo.

Meu irmão mais velho, Jim, morreu no ano passado. Ele era médico, como George, nosso pai. Há algo do padre em um médico. Estão presentes nos grandes momentos: nascimentos, doenças e mortes. Estão envolvidos, mas precisam manter certo distanciamento. Como sacerdote, você está perto das pessoas de sua paróquia, você vive com eles, compartilha seus interesses e acontecimentos, mas não pode também estar envolvido em todas as tristezas e em todas as alegrias. Toda semana, há outra tragédia, outra morte. Todo tempo, você precisa estar em movimento. É a natureza do ofício. É a maneira de amar e ter compaixão que fazem com que mantenhas certa distância. Jim era gentil e cortês, um bom homem. Fiquei feliz de ter estado presente ao seu enterro. Agora sou o último dos irmãos e isso é um pouco diferente.

Poucos dias antes de ir para o seminário, com a idade de 18 anos, fui me despedir do meu pároco em Reading, um velho sacerdote da diocese. Disse a ele: "Cônego, eu estou partindo para Roma para estudar para o sacerdócio. O senhor tem algum conselho para me dar?". Esperava que ele dissesse alguma coisa a respeito, do tipo: "O trabalho é árduo e você vai fazer uma grande obra para a Igreja e sua missão será importante e vital". Pensei que o jovem Murphy O'Connor poderia ser louvado pelo grande sacrifício que estava prestes a fazer. Em vez disso, tudo o que o padre teve a dizer foi: "Jovem, reze para ser perseverante". Lembro-me de ter ficado um tanto decepcionado. Estava esperando algo mais estimulante. Sempre me lembrei das palavras de cônego e agora que me aproximo dos últimos dias da minha vida percebo que é justamente a perseverança que invoco. Estou muito consciente das minhas faltas e fraquezas, dos meus erros e de muitos insucessos na minha vida de padre e bispo. Todos os dias peço o perdão de Deus e dos meus irmãos e irmãs.

Toda vez que vou a um funeral, eu estou inclinado a pensar que o próximo será o meu. Já existe uma pequena comissão para coordenar o evento. Não sei o que eles têm em mente. Padres gostam de discutir sobre funerais. Já tenho um lugar na catedral destinado à minha sepultura. Basil Hume e John Carmel Heenan, como Arthur Hinsley, estão enterrados na catedral e não na cripta ao lado Manning, Wiseman, Griffin e Godfrey. Falou-se em arrumar a capela St. Patrick e dos santos irlandeses para colocar-me lá, mas não tenho certeza se as pessoas visitam muito a capela. Eu gostaria mais da nave, onde mais pessoas irão passar e, com a graças de Deus, poderão dizer uma oração por mim.

Aconteceu-me recentemente de ler algumas orações e meditações de John Henry Newman. Deparei-me com uma bela oração para uma morte feliz. Eu adoraria usá-la para mim.

"Ó meu Senhor e Salvador,
dê-me sustento na hora final
nos braços fortes dos teus sacramentos
e na fragrância fresca de tuas consolações.
Absolve as palavras ditas sobre mim,
e o óleo santo possa ungir e selar o meu corpo,
e o teu Corpo seja o meu alimento e o teu Sangue minha aspersão;
e fazes com que eu sinta em mim o sopro de Maria, minha doce Mãe,
e meu anjo sussurre-me paz,
e meus gloriosos santos sorriam para mim;
permitas que neles e por eles
possa receber o dom da perseverança, e morrer,
como desejo viver,
na tua fé, na Igreja, ao teu serviço, e no teu amor.
Amém”

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