Meeting do movimento Comunhão e Libertação apaga Pe. Giussani

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22 Agosto 2017

O Meeting de número 38, que começou nesse domingo, em Rimini, Itália, finalmente mostrará desdobrado o novo Comunhão e Libertação pós-Roberto Formigoni. Era uma vez a Fraternidade liderada pelo fundador, Pe. Luigi Giussani, que, a cada fim de agosto, celebrava a abertura do novo ano da política e dos negócios, convidando – sob o guarda-chuva de títulos que parecem nascer da consultoria entre Jacques Lacan e o mago Otelma – um conjunto misto de ministros, parlamentares, administradores, empresários, pensadores, gerentes, poderosos de todos os campos, amigos sinceros ou companheiros de estrada interessados.

A reportagem é de Gianni Barbacetto, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 21-08-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Meeting sempre foi transversal: basta contar as vezes em que, entre os convidados, estava Pier Luigi Bersani. Robi Ronza, um dos fundadores do Comunhão e Libertação, pensou o encontro de Rimini, há 38 anos, como uma tribuna aberta a todos os amigos (ou aspirantes a amigos) dispostos a dialogar, de direita e de esquerda.

Mas, depois, quando se tratava de votar, o Comunhão e Libertação era uma falange que premiava os seus homens e os seus aliados, nas listas de centro-direita. No início, foram Andreotti, Sbardella, depois Berlusconi. E os poderes econômicos e financeiros que giravam em torno deles.

Em uma segunda fase, o Comunhão e Libertação se partiu e votou nos homens da nova centro-direita capitaneados por Roberto Formigoni. Agora – atenção – estamos na fase três.

Julián Carrón, o sucessor do Pe. Giussani, tinha escrito palavras claras ainda em maio de 2012, no início do escândalo que envolveu Formigoni e o inquérito judicial que, depois, levou à condenação do ex-presidente da Região da Lombardia: seis anos em primeiro grau, por ter embolsado seis milhões de euros em viagens, férias e “outras utilidades” de empresários da saúde privada que forneciam serviços de cuidado e de assistência, pagos com o dinheiro público da região.

Carrón não foi suave: “Se o movimento de Comunhão e Libertação é continuamente identificado com a atratividade do poder, do dinheiro, de estilos de vida que não têm nada a ver com o que encontramos”, admitiu, “algum pretexto devemos ter dado”. E ainda: “Não bastou o fascínio do início para nos libertar da tentação de um sucesso puramente humano”.

A obsessão pela “presença” cristã – um dos traços distintivos da experiência do Comunhão e Libertação sobre as coisas do mundo – tinha se concretizado na ocupação dos postos de poder na política e na economia: o cristianismo não deve permanecer como um assunto privado, mas deve produzir fatos, ensinava o Pe. Giussani. Portanto, é preciso construir “presença” no mundo.

Carrón tenta corrigir e exorcizar essa obsessão: “Presença não é sinônimo de poder ou de hegemonia, mas de testemunho”. Agora, a reviravolta do sucessor de Giussani se completou. Mais distinção entre experiência religiosa e ativismo econômico.

A primeira se desdobra na Fraternidade de Comunhão e Libertação e nos Memores Domini. O segundo, na Companhia das Obras, liderada por Bernhard Scholz, mas também na rede de relações com as empresas públicas e privadas, as associações das categorias, as cooperativas.

Estão na política as novidades mais relevantes: agora, os ciellini [membros do Comunhão e Libertação] estão inclinados à direita e à esquerda, no Nuovo Centrodestra e nos seus derivados, mas também na Forza Italia e já abertamente também no Partido Democrático – preferivelmente, a ala de [Matteo] Renzi [ex-primeiro-ministro italiano], mas não só.

Hoje, os ciellini estão por toda a parte. Não são mais uma falange monolítica e reconhecível dentro de uma inclinação política, mas uma presença difusa e transversal.

Continua memorável o encontro organizado em 2015, justamente no Meeting de Rimini, por Marco Carrai, o empresário mais próximo de Matteo Renzi. Tema: “Tecnologia e infinito”, no qual Carrai citou, em ordem: Alan Turing, Hanna Arendt, Gunther Enders, Papa Francisco, Pe. Carrón, Pe. Giussani, Antígonas.

Para alguns da velha guarda do Comunhão e Libertação, a virada atual não agrada, tanto que Luigi Amicone (ex-diretor da revista Tempi, irredutível defensor de Formigoni, agora conselheiro municipal em Milão, pelo Forza Italia), não estará presente no Meeting de Rimini deste ano.

No entanto, estão presentes nomes importantes do poder econômico italiano. Com as suas marcas e com os seus financiamentos: Intesa Sanpaolo, Enel e Wind são main partners; Eni, Nestlé, Unipol-Sai, Gi Group, Ania, Poste Italiane e Autostrade per l’Italia são official partners. Há também um mobility partner: Arriva, a empresa italiana das ferrovias alemãs.

E, entre outros, estão presentes no Meeting as empresas Coca-Cola, Nestlé, BMW, Carrera Jeans, Inglesina, Folletto; as Regiões da Lombardia, Ligúria, Emília Romanha; e também Cisl, Unioncamere.

Particularmente generosa foi a Unipol-Sai, antigamente a companhia de seguros dos comunistas, que hoje patrocina a Arena de Espetáculos do Meeting; mas também a Intesa Sanpaolo, a quem foi dedicado um salão, e as Poste Italiane, que dão o nome a uma sala.

Aliás, a rede de poder das empresas próximas do Comunhão e Libertação (através do seu braço secular, a Companhia das Obras) continua forte. Ela também continua tenazmente envolvida em péssimos inquéritos judiciais. Já faz parte da história da Expo a presença entre as empresas que nela trabalharam, em consórcio com a Mantovani, da Ventura spa, que, no seu site, se apresenta assim: “Ventura spa é uma empresa associada à Companhia das Obras, nascida em 1986 para promover e proteger a presença digna das pessoas, favorecendo uma concepção do mercado e das suas regras capaz de compreender e respeitar a pessoa em todos os momentos da vida”.

É uma pena que os informativos dos carabinieri defendam que os Ventura estavam em contato com personagens sicilianos presos por terem “cheiro” de máfia, a máfia feroz de Barcelona Pozzo di Gotto.

Nas investigações sobre os bancos italianos, também aparecem homens da área do Comunhão e Libertação. Rossano Breno, empresário do setor da saúde, era presidente da Companhia das Obras de Bérgamo, quando foi chamado para o conselho de administração da Banca Popolare di Bergamo. Foi forçado a sair quando foi investigado por corrupção junto com Formigoni e o seu assessor Franco Nicoli Cristiani. Desta vez, a acusação era um montante de propina para um despejo.

Nicoli Cristiani fez um acordo, Breno foi absolvido. Mas, enquanto isso, a Companhia das Obras de Bérgamo, da qual Alberto Capitanio se tornou presidente, recolheu avalanches de delegações em vista da Assembleia Social do banco Ubi 2013: foi o que defendeu a Procuradoria de Bérgamo que acusou toda a cúpula do banco e o seu “nobre pai”, Giovanni Bazoli, por influência indevida sobre a assembleia.

O Comunhão e Libertação mudou, em suma, mas continua gerando homens comprometidos a assegurar a “presença” do “fato cristão” na sociedade, nos bancos, nos hospitais, nas empresas públicas, nas empresas privadas, nas cooperativas.

Quando tudo vai bem, são sinais e sementes do movimento no mundo. Quando tropeçam em algum escândalo, são cidadãos privados que erraram.

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