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28 Julho 2017

"Existe um círculo hermenêutico infernal: os medos legitimam a repressão, que cria o extremismo, que justifica os medos".

Escrita em 2013, poucos meses antes de seu sequestro, esta frase sozinha poderia indicar toda a força e relevância da pregação do padre Paolo Dall'Oglio, o jesuíta sequestrado há quatro anos em Raqqa. Falamos sequestrado, embora jamais ninguém tenha reivindicado o seu sequestro. O que poderia ter acontecido com ele? Não sabemos. Mas nós sabemos que a sua presença na Síria, para onde ele voltou clandestinamente após sua expulsão decretada em 2012 pelo regime de Bashar al Assad, foi um desafio, insuportável. Um desafio para todos aqueles poderes fundamentados na barbárie e que pretendem transformar a Síria em um estado confessional ou familiar. E ele, Paolo, sabia disso. Sabia que estava encarnando um desafio ao entrar em um conflito onde os medos legitimam a repressão, que cria o extremismo, que justifica os medos. E porque ele acreditava na amizade, a fraternidade entre muçulmanos e cristãos, queria desafiar esse conflito que usava e usa as religiões uma contra a outra.

A reportagem é de Riccardo Cristiano, jornalista e escritor, publicada por Repubblica, 27-07-2017.

Padre Paolo | Foto: RaiNews

Até aquele dia, Paolo foi a voz mais fidedigna de uma história que devia permanecer desconhecida, apagada; a história de uma revolução não-violenta na terra árabe, em terra islâmica. E a conjugação de não-violência, mundo árabe e Islã é a mais importante para o futuro. Pará-la poderia deixar todo o Mediterrâneo impermeável à não-violência: basta observar como mudaram as nossas sociedades, quanto ódio penetrou em nossas vidas, em nossa realidade política, cultural e social. Paolo foi, e seria, a voz mais forte daquela história que precisava ser apagada, negada.

A história que ele trouxe à tona através, por exemplo, de Ghiyat e Caroline. "Em março de 2011 - escrevia Paolo - Ghiyat Matar foi oferecer água fresca para os soldados e entregou-lhes flores. Ele foi torturado e morto. Uma jovem mulher, Caroline Ayoub, foi distribuir para os filhos dos refugiados ovos de chocolate que mostravam um versículo do Alcorão e palavras do Evangelho. Foi presa e torturada. As pessoas eram torturadas porque o governo não podia conceber, e muito menos aceitar, a não-violência”.

Escrevemos muito, na Europa, sobre a descristianização soviética, os lagers, os patriarcas afogados, os valores vilipendiados. Muitos chamaram isso de a última investida "asiática" levada ao solo russo pelos filhos de Gengis Khan. Mas, a influência do peso desses filhos sobre o corpo político árabe contemporâneo tem sido bastante subestimada. "Quando você consegue superar o medo, a primeira vez que sai à rua, que solta a voz e grita liberdade, você torna-se outra pessoa. Passa da condição de escravo para a de cidadão. Quando você consegue duvidar que o Presidente seja um deus, depois que lhe ensinaram isso desde o jardim da infância, quando você consegue separar verdade e autoridade, distinguir objetividade e poder, e sai à rua para pedir dignidade, então você sente que está vivendo um momento de liberdade, de verdade, de autenticidade. E a coisa mais incrível é que eles prendem e torturam você por causa isso, mas no dia seguinte você volta às ruas novamente. Porque eles não podem mais atingir você no coração de sua dignidade recém-descoberta, de homem livre. Mesmo que batam em você, que o obriguem a repetir que Bashar é o seu deus. A tortura não afeta essa dignidade readquirida".

Ler Dall'Oglio é quase como ler Camus, e o seu Homem Revoltado é profundamente mediterrâneo, uma revolta camusiana, nem revolta metafísica nem revolução destinada a se revelar inimiga dos seus filhos, mas uma revolta humana, e em Dall'Oglio islâmico-cristã, como sua hermenêutica do texto sagrado explica perfeitamente.

A leitura da Sagrada Escritura, padre Paolo repetidamente salientava, força a Igreja a uma autoidentificação com o povo eleito, reconhece-se em Sara, em Jacó. Essa leitura, em sua opinião, faz com que se perda parte do pathos do texto, do drama moral. Em um texto fundamental de 2007, publicado na revista on-line dos jesuítas, "Popoli",

Dall'Oglio escrevia: "Um dos textos que mais dramaticamente representa esse discurso é a história de Abraão e Ismael, o filho que ele teve com Agar, a criada de Sara (cfr. Gn 21, 8-21). É o drama em que Abraão deve sacrificar o seu primogênito. De acordo com os muçulmanos, o Alcorão parece dizer que o sacrificado na verdade é Ismael. Evidentemente, não se trata de cortar o pescoço de Ismael, mas há uma obediência pungente, dolorosa, de Abraão frente aos ciúmes de Sara. Por instrução de Deus, Abraão, expulsa Ismael e sua mãe Agar. Assim, quando Deus pede a Abraão para oferecer seu filho Isaque, Abraão de fato já ofereceu Ismael. Ismael é o primogênito. Se aprendêssemos a ler o mistério da Igreja na exclusão e não só na eleição, então as coisas se iluminariam com outra luz. Abraão obedece à lógica da eleição e expulsa a sua criada. Mas na lógica evangélica é justamente o excluído que se torna o eleito".

O discurso torna-se sedutor e os símbolos narrados cuidadosamente pelo padre Paolo realmente falam: Abraão dá para Agar pão e água, símbolos sacramentais. Ismael largado sob um arbusto no deserto lembra a Dall'Oglio a cruz, Agar escondida por trás de seu véu de sofrimento, sofrendo pelo filho, lembra-lhe Maria sob a Cruz, as primeiras lágrimas da Bíblia são as lágrimas de Agar, lágrimas maternas. Depois, no deserto, brota salvífica a água (como ainda hoje se rememora na peregrinação), e isso para o padre Paolo lembra o grito de Jesus: "Tenho sede!". "Identifica-se assim uma interpretação desse episódio do Antigo Testamento que, embora reconhecendo os sinais da eleição, ainda assim trata de uma exclusão" e isso, em sua opinião, confere um valor cristológico e eclesiológico ao grito dos excluídos, eventualmente aterrorizante, "mas pertinente com a história da salvação”.

Aqui a hermenêutica do padre Paolo torna-se parte integrante da teologia dos pobres que o Papa Francisco vem desenvolvendo desde que falou da Igreja pobre e para os pobres. Ver nas feridas e sofrimentos dos pobres as feridas e os sofrimentos de Cristo pertence à teologia, à eclesiologia dos excluídos de Dall'Oglio.

Então, hoje, enquanto fechamos os olhos para o verdadeiro significado do "pedido da Líbia" para combater em suas águas os "traficantes" de homens, enquanto omitimos os horrores contra os civis de Raqqa, enquanto omitimos os horrores de Mossul, ou seja, enquanto nos recusamos a ver os excluídos, os marginalizados, as vítimas, a voz de padre Paolo volta com toda a força, muito clara, como a mensagem de Ghyiat e de Caroline, que muitos teriam gostado que ficasse calada para sempre.

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