Finalmente é possível reabilitar a dissidência na Igreja? Artigo de Alessandro Santagata

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15 Julho 2017

“Diante daqueles que escolheram o caminho da contestação aberta, da desobediência consciente das consequências disciplinares que isso envolveria, logo vem à mente o caso de Franzoni, o ‘abade vermelho’.”

A opinião é do historiador italiano Alessandro Santagata, professor da Universidade de Roma Tor Vergata, em artigo publicado por Il Manifesto, 14-07-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Depois da visita do Papa Francisco a Bozzolo e Barbiana, a triste notícia da morte de Giovanni Franzoni põe diante da Igreja uma pergunta que, em certa medida, diz respeito à própria natureza da operação de recuperação da memória que o pontífice está fazendo desde a sua posse.

Finalmente chegou a hora de reabilitar a dissidência? É possível, hoje, que a Igreja faça uma reflexão sincera sobre os seus anos 1970 e sobre a repressão que atingiu as pontas mais avançadas da renovação pós-conciliar?

Como também foi apontado nas páginas deste jornal, no caso do Pe. Milani, seria equivocado falar de uma “reabilitação”, já que a sua ortodoxia nunca esteve em dúvida.

O problema surge, ao contrário, diante daqueles que escolheram o caminho da contestação aberta, da desobediência consciente das consequências disciplinares que isso envolveria.

Logo vem à mente o caso do Pe. Enzo Mazzi, arrancado com violência da sua comunidade. E, depois, o Pe. Marco Bisceglia, fundador, nos anos 1980, da Arcigay, mas, antigamente, à frente da comunidade de Lavello, da qual foi mandado embora em 1974 por ter defendido o divórcio antes de ser suspenso a divinis.

E, naturalmente, Franzoni, o “abade vermelho” da Basílica de São Paulo Fora dos Muros, no bairro Ostiense, ele também vítima da repressão por ter se distanciado da campanha pelo referendo antidivórcio e que ficou famoso na Itália pela sua adesão (não inscrição) no Partido Comunista Italiano naquele candente ano eleitoral que foi 1976.

Mas há muito mais na biografia de Franzoni... Há as principais contradições da Igreja do século XX, começando pelas geradas pelo Concílio Vaticano II, do qual Franzoni participou ativamente como um dos Padres próximos a Paulo VI, embora, depois, tendo sido expulso de todas as celebrações subsequentes do evento.

Há, sobretudo, a história da comunidade de São Paulo, organizada de maneira “horizontal” por leigos, mulheres e homens, que estavam imersos nas questões sociais e políticas da sociedade, da cidade e do bairro.

São Paulo foi um modelo para a rede das comunidades de base, que tentou não fundar outra Igreja, mas realizar, a partir de baixo, uma “Igreja outra”, na qual a liturgia é gesto coletivo de debate e se redescobre o sentido da palavra ecclesia.

Depois, chegaram os anos 1980, e Franzoni e a sua comunidade se encontraram sempre na vanguarda da defesa da lei 194 [sobre o aborto], nas controvérsias do movimento operário e, mais recentemente, contra as guerras no Iraque e no Afeganistão.

Apesar daquela que era considerada como uma involução do caminho conciliar, nunca faltou o compromisso em testemunhar a existência de um catolicismo diferente daquele que negava a Piergiorgio Welby o funeral religioso e que coloca as mulheres às margens da Igreja.

Sabemos que, nos últimos anos, Franzoni havia manifestado a sua simpatia pela atualização iniciada pelo Papa Francisco, mas sem conseguir obter um contato direto.

Neste ponto, só resta saber se o papa está disposto a fazer as contas até o fim com um passado incômodo que põe em causa as grandes questões que ele se propôs a desfazer. Aos herdeiros daquela temporada de desobediência, ao contrário, cabe o fato de se perguntar se uma conciliação da memória é necessária ou mesmo desejável.

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