“O problema central é este: sua vida, não o seu projeto filantrópico, está do lado correto na justiça?". Discurso do padre David Fernández

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17 Julho 2017

O padre jesuíta David Fernández, reitor da Universidade Iberoamericana da Cidade do México, conclama: “Não ficarmos na filantropia, mas, ao contrário, responder ao clamor da Justiça. Questionar e mudar, ao invés de reforçar ou de simplesmente nos acomodar ao sistema tão injusto”.

O discurso é publicado pela CPAL Social, 12-07-2017. A tradução é do Cepat.

Eis o discurso.

Agradeço aos organizadores desta cerimônia comemorativa do 60º aniversário da fundação do curso de Administração de Empresas, e mais amplamente à Sociedade de Egressos deste curso da Universidade Iberoamericana, que me convidaram para dizer algumas palavras por ocasião, também, da entrega da premiação “Xavier Sheifler, S. J.”, para aqueles que agora homenageamos. Dada a importância deste ato, vou abusar de sua generosidade para falar sobre a magnanimidade e a filantropia. O tema deu muitas voltas em minha cabeça e pensei muito tempo no que, verdadeiramente, eu gostaria de lhes dizer nesta ocasião. Nesse sentido, deparei-me com uma peça oratória de um autor indiano, Anand Giridharadas, que me disse o que realmente desejava lhes comunicar neste ambiente de festa e agradecimento.

Gostaria de refletir sobre a participação de nossa comunidade universitária e de seus egressos nas injustiças mais importantes e dolorosas de nosso tempo. E sugerirei, a propósito, que talvez nem sempre somos os líderes positivos ou simplesmente as pessoas que acreditamos ser.

No México e no mundo inteiro temos um gravíssimo problema de desigualdade. Neste momento de mudanças radicais e de novas definições sociais, ocorre que existem territórios onde as coisas florescem e outras mais onde murcham e morrem. Em uma outra ocasião, chamei esta desigualdade radical de “apartheid social”.

Em geral, os debates e deliberações acerca do que devemos fazer para diminuir a pobreza são auspiciadas e realizadas pelos grupos de pessoas exitosas, com alto bem-estar econômico. Nossa comunidade Universitária vive dos lucros obtidos pelo funcionamento deste sistema injusto. Nossas atividades são patrocinadas por Pepsi, Citibank, Liverpool, Samsung. Estamos profundamente comprometidos com o estabelecido e com o sistema que dizemos questionar. Mesmo assim, somos uma comunidade de crentes inacianos, com liderança social e empresarial que luta pela justiça. Estas duas identidades são verdadeiramente difíceis de reconciliar. Hoje, quero questionar a maneira como as reconciliamos. Quero questionar a ética que prevalece entre os triunfadores de hoje no mundo todo, nos negócios, no governo e, inclusive, em muitas organizações da sociedade civil.

O núcleo dessa ética e do propósito de nossa Universidade é desafiar os favorecidos do mundo para que façam o bem, cada vez um bem maior, mas nunca temos lhes dito, nem dizemos ainda, que façam um mal menor aos demais.

O pensamento comum entre nós sustenta que o capitalismo possui excessos e danos colaterais graves que precisam ser atenuados, ângulos que é preciso polir, e que os frutos imoderados devem ser compartilhados; mas sempre sem questionar o sistema subjacente.

A ética de nossas associações filantrópicas e de nossos egressos sustenta que é preciso devolver o que nos foi dado, o que, é claro, é algo nobre e compassivo. Mas, em meio a enorme pobreza que vivemos, da violência que nos corrói, é óbvio que “devolver o que nos foi dado” é colocar apenas um simples e pequeno curativo no sistema que privilegiou as elites as quais pertencemos, com a esperança consciente ou inconsciente de que isso evite a necessidade de uma cirurgia maior nesse sistema – cirurgia que talvez possa ameaçar nossos privilégios.

Nossa ética, acredito, quer propor a generosidade como substituta da justiça. O que na realidade dizemos é: faça dinheiro da forma como todo mundo faz, e depois retribua algo por meio de uma doação, ou mediante a criação de uma fundação, ou com alguma ação que tenha impacto social, ou acrescente alguns comentários compassivos ao pé de sua análise.

Nossa ética diz: “faça mais o bem”, mas nunca diz “provoque menos dano”

Quero iniciar com este breve discurso, já que hoje não há tempo para me estender, com uma conversa difícil entre nós sobre estas regras do jogo. Faço isto porque amo a nossa comunidade universitária, porque nós, jesuítas, somos corresponsáveis da formação de nossos egressos, porque temo que talvez não sejamos tão virtuosos e cristãos como pensamos; e porque acredito que a história não será tão generosa conosco como esperamos, e que em uma análise final nosso papel nas desigualdades de nossa época não será bem recordado. Por isso, faço isto.

Gostaria que falássemos honestamente sobre alguns dos danos que os “triunfadores” de hoje infligem aos demais, enquanto procuram o bem-estar para si mesmos, antes de buscarem compensá-lo fazendo o bem.

Muitos de nós não trabalhamos em negócios ou finanças. E, no entanto, vivemos em uma época na qual as suposições e os valores empresariais têm uma influência muito maior do que deveriam ter. Vemos isto em muitos outros setores da realidade. Nossa cultura converteu os empresários e homens de negócios em filósofos (“coloque uma startup em sua vida para que tenha sentido”), revolucionários (“a mudança começa em você mesmo”), ativistas sociais (“o melhor negócio hoje é investir nos pobres”), salvadores dos pobres (“é preciso ensinar a pescar”). Estamos com o risco sério de esquecer muitas outras linguagens para expressar o que significa o progresso humano: moralidade, democracia, solidariedade, decência, justiça.

Com frequência, sucumbimos ao dogma sedutor de Davos de que a aproximação empresarial é a única que pode mudar, frente à enorme evidência histórica do contrário.

E, então, quando os triunfadores de nossa época querem responder aos problemas da pobreza, da desigualdade e da injustiça, agem dentro da mesma lógica e no marco dos negócios e dos mercados. Desta maneira, falamos muito em retribuir, compartilhar lucros, de ganhar-ganhar, do investimento com impacto social, da responsabilidade social empresarial, etc.

Às vezes, pergunto-me se estas diversas formas de retribuir o recebido se converteram para nossa era no que foram as indulgências papais para a Idade Média: uma forma relativamente barata de estar aparentemente do lado correto da justiça, mas sem ter que, no fundamental, alterar a própria vida.

Estas estruturas e sistemas produzem vítimas, e corremos o risco de confundir a generosidade para com essas vítimas com a justiça para essas vítimas. A generosidade é ganhar-ganhar, mas a justiça com frequência não o é. Os ganhadores de nosso tempo não gostam da ideia de que, talvez, alguns deles tenham que perder, que fazer sacrifícios, para que a justiça prevaleça. Não escutamos muitos discursos que destaquem que os poderosos e privilegiados estão equivocados e que precisam descer de seus status e posições em favor da justiça.

Falamos muito de dar mais. Contudo, não falamos de tirar menos

Falamos muito a respeito do muito que precisamos fazer. No entanto, não falamos do muito que precisamos deixar de fazer.

Sou consciente de que esta intervenção que agora faço não me fará popular com ninguém. Mas, para mim, considero que isto que agora faço é um dever de consciência, em coerência com o Evangelho do Senhor Jesus.

Também não ignoro que muitos de vocês concordam comigo porque há vínculos surgidos do trabalho de anos da Companhia de Jesus em nossa Universidade e porque compartilhamos o sentimento de que existe algo que não funciona bem em nossa sociedade.

O problema central é este: sua vida – não o seu projeto filantrópico – está do lado correto na justiça? Como diria nossa última Congregação Geral: sua empresa, seu trabalho, ajuda a nos reconciliar com os demais e com a criação ou, ao contrário, aprofunda nossas distâncias e a crise social e ecológica que o Papa Francisco denunciou? O mundo precisa de mais magnatas chineses comprometidos com a filantropia ou, ao contrário, de menos magnatas chineses corruptos?

O mundo necessita de sócios do Goldman Sachs assessorando mulheres ou dando dinheiro às escolas de crianças pobres ou, ao contrário, de sócios do Goldman que arriscam tudo para dizer: a forma como minha companhia faz negócios não é correta, e brigarei para fazer do Goldman uma instituição social positiva, ao invés de um vampiro extrator de recursos, mesmo que isso me custe o trabalho?

Às vezes, pergunto-me se estamos aqui para mudar o sistema ou para que o sistema nos mude. Usamos nossa força coletiva para desafiar os poderosos ou estamos ajudando a fazer de um injusto e inaceitável sistema algo muito mais digerível por todos?

E, contudo, aqui estamos, comemorando ser egressos de uma instituição jesuíta. Por quê? Porque há algo maravilhoso nesta comunidade. E porque acreditamos que podemos ser muito mais do que fomos até agora: genuínos servidores do Reino de Deus, dos mais pobres e dos excluídos, neste caótico momento crucial para o mundo.

Mas, se queremos desempenhar realmente este papel, acredito que precisamos considerar fazer uma mudança fundamental na orientação de nossos esforços como egressos de uma universidade de inspiração cristã: de trabalhar com o sistema, a trabalhar para questionar honestamente o sistema naquilo em que é deficiente para com as pessoas; da tranquilizadora ideia de fazer o bem sem olhar a quem, à noção mais corajosa de fazer o bem colocando em risco essa condição que nos dá a oportunidade de fazer o bem.

Desculpem-me, pois. E obrigado”.

Dia 06 de julho de 2017

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