Notícias falsas para atacar o Papa. Cardeal Gerhard Müller também virou alvo de uma campanha de desinformação

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14 Julho 2017

Quase 40 graus na sombra. Do lado de fora, na Praça São Pedro, as barreiras de ferro parecem envergar-se ao calor do sol. Lá dentro, a pouca distância das colunas, no Palazzo Número 1 da Piazza della Cittá Leonina, o Cardeal Gerhard Müller recebe as pessoas com muita informalidade: calça leve, camisa xadrez de manga curta. Também em sua residência, que por muitos anos foi o domicílio do Cardeal Joseph Ratzinger, o calor aumenta consideravelmente. A razão para esse encontro não muito convencional é uma das numerosas fake news que tanto circulam atualmente em Roma. Só que desta vez elas atingem diretamente o Cardeal Müller, há poucos dias demitido pelo Papa Francisco do cargo de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. O secretário do Cardeal, Padre Slawek, está em viagem internacional, razão pela qual Müller não tem acesso à internet. Assim sendo, somente agora ele acaba de ler o que horas antes havia circulado pelo mundo inteiro.

A reportagem é de Guido Horst, publicada por Die Tagespost, 12-07-2017. A tradução é de Walter O. Schlupp.

A última conversa entre o papa e Müller na verdade teria decorrido da seguinte maneira, conforme Maike Hickson afirma em seu serviço online “One Peter Five”, e o jornalista italiano Marco Tosatti imediatamente repassou em italiano em seu blog “Stilum curiae”: Em 30 de junho Müller teria sido convocado para o palácio apostólico, levando consigo os documentos da Congregação de Fé que estavam dependentes de resolução. Teria tido um diálogo relativamente breve com Francisco.

Segundo “One Peter Five” e “Stilum curiae” o Papa pretenderia fazer apenas cinco perguntas ao Cardeal:

– O senhor é favor ou contra o diaconato das mulheres?

– Sou contra.

– O senhor é contra ou a favor da abolição do celibato?

– Claro que sou contra, teria respondido Müller.

– O senhor é contra ou a favor de sacerdotes mulheres?

– Sou francamente contra.

– O senhor defende a “Amoris laetitia” ?

- Sim – teria respondido Müller – na medida em que me for possível; algumas coisas estão meio duvidosas.

– Por fim a última pergunta do Papa: O senhor pretende retirar seu protesto contra a demissão de três dos seus colaboradores?

– Santo Padre, teria respondido o Cardeal, essas pessoas estavam acima de qualquer crítica, eu sinto falta delas. Não foi correto demiti-las sem me consultar, ainda mais em cima do Natal, de modo que tiveram que entregar seus escritórios até 28 de dezembro.

Hickson e Tosatti escrevem que o Papa apenas ainda teria comunicado ao cardeal que seu mandato como Prefeito da Congregação de Fé não mais seria estendido, afastando-se então sem mais palavra nem despedida. A fonte para esta versão da última conversa entre o Papa e Müller teria sido, segundo Hickson, uma “fonte alemã digna de confiança”, que anonimamente o teria relatado pouco depois de ter participado de uma confraternização do cardeal com a turma de formandos de segundo grau do cardeal em Mainz, pouco depois da demissão de Müller, onde teria ouvido observações a respeito. A redação deste jornal conhece essa fonte anônima . Em Roma essa pessoa tem fama duvidosa, de fantasia muito criativa, ou seja, não goza de muito crédito.

Quando o Cardeal Müller leu a versão impressa dos dois relatos, quase iguais, quarta-feira pela manhã, não acreditou no que via. “Isto não confere”, disse Muller, o diálogo teria sido bem diferente. O final do pretenso relato da “fonte alemã” estaria errado. Na versão de Hickson e Tosatti constava que o prefeito ainda ficara sentado um tempo após a saída do papa, na expectativa de que Francisco iria buscar alguma coisa, pequeno presente ou similar, para se despedir do cardeal ou para lhe agradecer pelos seus serviços. Até que então o prefeito da casa pontifícia, arcebispo Georg Gänswein, o teria informado de que a audiência estaria encerrada. Não foi pequeno o espanto do Cardeal Müller, então, ao se deparar com essa descrição fictícia. Afinal de contas, ele próprio tinha relatado sobre o curso da audiência, no sentido de que o Papa efetivamente tinha passado com ele os documentos da Congregação de Fé, comunicando-lhe somente na saída que não estenderia seu mandato como Prefeito da Fé.

Ora, essas pérolas de desinformação pegaram o Cardeal Müller de surpresa bem que poderiam ser descartadas como fake news; bastaria corrigi-las com um desmentido. Acontece, porém que são sintomáticas para uma época em que o pontificado vem causando rebuliço e certas pessoas se dão ao luxo de incrementar a confusão com falsas informações e invenções arbitrárias, pelas mais diversas motivações. Colocaram na boca de Francisco a frase: “Entrarei na história como o papa que levou a uma cisão da igreja.” Essa frase foi acolhida até mesmo pela revista Der Spiegel. De pronto circulou em países de língua alemã o boato de que o papa autor de Amoris laetitia teria a intenção de integrar no aconselhamento de grávidas na igreja, com a benção da Conferência Episcopal alemã, a associação alemã Donum vitae – embora esta continuasse praticando a emissão do certificado de aconselhamento outrora rejeitado por Roma.

Uma das possíveis motivações para esses boatos é atingir os católicos fiéis a Roma que se identificam com a doutrina tradicional e consideram o magistério de João Paulo I e Bento XVI um legado para o futuro. A intenção dos boateiros seria deixá-los perplexos diante de um papa jesuíta latino-americano a mexer nas características exclusivas do catolicismo. Não deixa de ser considerável a agenda que a “fonte alemã anônima” procura dar a entender entre as linhas nas supostas perguntas do papa ao Cardeal Müller: criação do diaconato de mulheres, abolição do celibato, consagração de mulheres ao sacerdócio.

Isso contribui para a insegurança geral, uma vez que de fato existem iniciativas por parte do Papa Francisco que fazem até mesmo prelados moderados da cúria sacudirem a cabeça em vez de manifestarem apoio entusiástico. Domingo foi publicada a terceira entrevista concedida por Francisco ao papa do laicismo Eugênio Scalfari, novamente no jornal La Repubblica, da esquerda liberal. E mais uma vez o fundador desse jornal, de 93 anos, dispensou o uso de gravador na entrevista em Santa Marta.

O resultado é uma mistura braba de ideias do próprio Scalfari com enunciados de Francisco sobre a cúpula do G20 em Hamburgo, sobre alianças internacionais contra refugiados e sobre as funestas relações entre Putin e Trump, Rússia e Síria, Coreia do Norte e China. É de se duvidar que as opiniões do papa tenham sido previamente discutidas com a Secretaria de Estado do Vaticano. Segundo Scalfari, o Papa ainda teria tempo, porém não para os três cardeais (além do falecido Cardeal Meisner) que teriam solicitado uma audiência com o Papa em função da sua carta com os dubia [pontos duvidosos] – este o comentário a circular na cúria. O que também fez franzir o cenho foi que, mais ou menos na mesma época, Francisco nomeou o bispo auxiliar recém-elevado a cardeal Gregorio Rosa Chavez, de El Salvador, como mediador entre as Coréias do Norte e do Sul, embora ele não saiba coreano nem tenha contatos dignos de nota com essa região.

Alguns se perguntam quais são os critérios de Francisco ao receber hóspedes em Santa Marta. Também neste verão ele está renunciando a um período de férias. Aí esse tipo de notícia falsa como as de One Peter Five e Stilum curiae só jogam lenha na fogueira das cinco supostas perguntas que Francisco teria feito ao Cardeal Müller. A intenção parece ser apenas levantar dúvidas sobre pessoa do papa. Isso realmente não é construtivo.

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