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14 Julho 2017

As leituras de hoje falam em germinação da terra e fecundidade da palavra de Deus. Bençãos e larguezas divinas conjugam-se ao esforço humano, para nos fornecerem o alimento do corpo e da alma.

A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 15º Domingo do Tempo Comum, do Ciclo A (16 de Julho de 2017). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Eis o texto.

Referências bíblicas


1ª leitura: A chuva faz a terra germinar (Isaías 55,10-11)

Salmo: Sl. 64(65) - R/ A semente caiu em terra boa e deu fruto.

2ª leitura: A criação espera ansiosamente o momento de se revelarem os filhos de Deus (Romanos 8,18-23)

Evangelho: O semeador saiu para semear (Mateus 13,1-23)


Por que as parábolas?

Lendo de modo apressado as versões deste mesmo episódio em Lucas ou Marcos, poderíamos acreditar que Jesus fala por parábolas (ou seja, por "comparações") para que seus ouvintes não possam compreender. Mas, em Mateus, pelo contrário, Jesus diz que, porque seus ouvintes não compreendem a verdade nua e crua, é que usa de analogias.

E, por aí, nos faz descobrir algo de essencial: que o Reino de Deus, ou seja, este universo em que a vontade do Amor, de que Deus se constitui, será compartilhada plenamente pela humanidade, já está presente e em atividade na criação e em nossa vida diária.

"O Reino de Deus é semelhante a...", diz ele muitas vezes, no início de suas parábolas. Já o estamos vivendo, portanto, ainda que sem perceber, e a parábola nos permite descobri-lo. Na 2ª leitura, Paulo diz que toda a criação está também “gemendo, como que em dores do parto”.

Se Jesus fosse dizer diretamente a verdade, estaria imediatamente fazendo-se rejeitar. Qual é esta verdade? Os seus ouvintes imaginavam que ele tivesse vindo para restabelecer a autonomia de Israel... Enquanto ele veio para fazer seus os sofrimentos e a morte de todos, a fim de libertá-los deles.

Veio para dar vida a um homem novo, depois do doloroso parto da Cruz. Será que a média de seus ouvintes compreenderia isto? Nem mesmo os discípulos entenderam! Conforme podemos verificar a propósito até mesmo de Pedro, em Mateus 16,22-23 ou em Marcos 9,30-32.

Notemos que, de um modo ou de outro, todos os ensinamentos de Jesus comportam uma perspectiva pascal. Confessemos que, em se tratando de morte, não é fácil decifrar o amor.

No entanto, se não chegarmos até aí, os nossos problemas permanecerão por inteiro. Mas tenhamos confiança: a primeira leitura nos diz que a Palavra emitida por Deus (o Cristo, para nós) não voltará para Ele sem que tenha irrigado e fecundado a terra.

Como a terra recebe a semente

A parábola sobre a sorte das sementes conforme a qualidade dos terrenos é uma parábola sobre o destino das parábolas. Temos aí "uma grande multidão" atraída pela reputação de Jesus. A maior parte estava errada, com respeito ao que ele veio trazer.

Por isso não compreendem o que ele diz nem percebem o sentido do que o veem fazer. Três tipos de terreno, três destinatários sobre quatro, mostram-se incapazes de fazê-lo dar seu fruto. E as pessoas da quarta categoria nem todas têm a mesma fecundidade: algumas dão à base de cem, outras de sessenta, outras enfim de trinta frutos por semente.

Podemos compreender também que a quantidade de frutos dados pela mesma pessoa pode variar segundo as circunstâncias, as dificuldades encontradas, o estado de espírito do momento. Tudo isto se passa hoje. Não desesperemos ao ver os três quartos das pessoas permanecerem insensíveis ao anúncio do Cristo, e até mesmo desprezá-lo ou contestá-lo: já estava previsto.

Nos dias atuais, passamos de um pertencimento sociológico ao cristianismo, herdado da família ou de nosso meio social, a uma adesão fundada numa escolha pessoal. E aqui estamos, neste momento, num pequeno número, conforme a qualidade dos "terrenos", cheio de pedras, mal carpidos ou prontos para dar frutos.

As parábolas, portanto, dirigem-se a nós, ajudando-nos a compreender o que se passa. Assim como os ouvintes da "grande multidão" que se reuniu em torno do Cristo, muitos de nós, terminada a leitura, irão fechar o Novo Testamento e entregar-se às suas ocupações habituais.

Para estes, Jesus terá falado em vão: a Palavra Semente não produzirá nem cem, nem sessenta, nem trinta por uma. Devemos compreender que Cristo dirige-se a cada um de nós e que temos de perguntar: somos que tipo de terreno? E que fruto, até aqui, a sua palavra tem dado em nós?


A criação escravizada

Olhos que não veem devem obviamente culpar-se a si mesmos. Eles têm, no entanto, algumas desculpas. Pois, se a criação tornou-se opaca, sendo necessária muita perspicácia para decifrá-la, é porque ela mesma é alienada, “ficou sujeita à vaidade”, como explica Paulo na segunda leitura.

O livro do Gênesis, em sua descrição simbólica do pecado fundamental no terceiro capítulo, vê o divórcio radical entre o homem e a natureza como consequência de nossas faltas: a terra, espontaneamente, só produzirá espinhos e sarças, e é com trabalho duro que o homem poderá tirar dela o seu alimento.

Enfim, a natureza (a terra, no texto) acabará por recuperar o homem que ela produziu. Todo o esforço das ciências e das técnicas não visa a restaurar o acordo entre a criação e nós, e, até mesmo, a nossa senhoria? No versículo 5 do Salmo 82, podemos ler: «Eles não sabem, não entendem; vagueiam em trevas; todos os fundamentos da terra se abalam». Em resumo, a natureza, para nós, não é o que deveria ser, e esta é uma das causas dos «sofrimentos do tempo presente».

A Palavra semeada, no entanto, não retornará sem que tenha dado o seu fruto. O que a criação suporta e o que suportamos torna-se dor do parto. Nossa 2ª leitura é um poderoso grito de esperança: a natureza escravizada e o homem alienado caminham para a liberdade dos filhos de Deus. Então, os olhos verão e os ouvidos irão escutar e entender.

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