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12 Julho 2017

"A finalidade da teologia, de acordo com o Concílio, é fundamentalmente a mesma finalidade da Igreja, isto é, dar uma resposta às perenes perguntas humanas sobre o sentido da vida, sobre o significado e a finalidade da história da comunidade humana à luz da Revelação, e de propor aquela resposta de forma adequada e razoável para cada geração"

A opinião é do teólogo e padre italiano Michele Giulio Masciarelli, professor da Pontifícia Faculdade Marianum, em Roma, e do Istituto Teologico Abruzzese-Molisano, em Chieti, na Itália, em artigo publicado por Settimana News, 24-05-2017. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo.

Também entro, de bom grado, na esteira do discurso iniciado por Marcello Neri sobre a teologia hoje, apesar de estarmos em um tempo labiríntico, no qual, entre outras coisas, cresce um perigoso desrespeito pelo pensar teológico, na convicção de que o cristianismo seja apenas "história e geografia", em sentido bem diferente de como Giorgio La Pira usou estes termos na definição da religião de Jesus. O sentido desta minha contribuição é de que a teologia deve cuidar do homem, sem esquecer-se do mistério de Deus.

Dizer a fé no tempo dos homens

A função pastoral da teologia foi prevalentemente afirmada na Constituição pastoral Gaudium et Spes. Na segunda parte, que lida com "alguns problemas mais urgentes", a constituição desenvolve o tema da "promoção da cultura" (nºs. 53-62) e, dentro desta ampla problemática, enfrenta a relação "fé e cultura" e "as múltiplas relações entre o Evangelho de Cristo e a cultura" (nº. 58).

A pastoralidade da teologia deve ser entendida como um esforço que esta deve fazer para ajudar na comunicação da mensagem da salvação; se a mensagem não chegar a interessar e a estimular uma resposta ativa das pessoas a quem se dirige, teria sido dada e anunciada em vão. Para que a mensagem da salvação seja comunicável, é necessário que encontre, penetre e permeie a cultura humana, e a use como mediação: "Há inúmeras relações entre a mensagem da salvação e a cultura humana. Deus, com efeito, revelando-se ao seu povo, até a plena manifestação de Si mesmo em Seu Filho encarnado, falou de acordo com a cultura própria de cada época" (GS nº 58).

A vocação para mediar

O trabalho de mediação cultural da mensagem cristã, comum a toda a Igreja no exercício da sua função evangelizadora e magisterial, torna-se função típica da teologia. "Os teólogos são [...] convidados, de acordo com os métodos e as exigências próprias da ciência teológica, sempre buscar as formas mais adequadas de comunicar a doutrina cristã ao povo de seu tempo" (GS nº 62).

O estudo da teologia nunca tem finalidade em si mesmo, mas participa da história da missão e da pastoral da Igreja; é conduzido com a finalidade de contribuir na iluminação das realidades humanas à luz do Evangelho: "E eles (os candidatos ao sacerdócio) aprendam a procurar as soluções para os problemas humanos, à luz da revelação, a aplicar as verdades eternas às condições mutáveis deste mundo e a comunicá-las de forma adequada para os homens contemporâneos"(OT nº 16).

Este texto do Optatam totius está logicamente ligado às preocupações expressas por Papa Paulo VI na encíclica Ecclesiam Suam e pelo Concílio em outras partes da Gaudium et Spes. A Igreja, ao mesmo tempo em que se preocupa em ser fiel à mensagem recebida de Cristo, cuida também de "inserir a mensagem cristã na círculo do pensamento, palavra, cultura, dos hábitos e tendências da humanidade, como ela vive hoje e se agita sobre a face da terra" (Ecclesiam Suam nº 39).

Mundo de Deus e mundo do homem

Fazer a síntese entre Evangelho e história é tarefa à qual a Igreja não pode faltar, sob pena de faltar à dúplice lealdade que caracteriza sua missão, a fidelidade a Deus eterno e a fidelidade ao homem de cada época: “É dever permanente da Igreja investigar os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder em linguagem inteligível para cada geração, às eternas questões dos homens acerca do sentido da vida presente e da futura, e da relação entre ambas" (GS nº 4).

Bem se expressa Latourelle quando afirma que "a teologia, como a Igreja, deve ser o encontro operante do espírito de fé e do espírito do tempo. A Palavra de Deus deve continuamente relacionar-se com a situação espiritual da humanidade de hoje. Portanto, a teologia deve estar equipada com antenas, para comunicar-se com o mundo contemporâneo e responder às suas ansiedades e às suas aspirações[1]".

Com o objetivo de fazer a teologia tornar-se pastoral, isto é, capaz de comunicar a mensagem aos homens do nosso tempo, o Concílio recomenda: "No cuidado pastoral conheçam-se suficiente e se use não só os princípios teológicos, mas também das descobertas das ciências profanas, em primeiro lugar da psicologia e da sociologia, de tal modo que os fiéis sejam conduzidos a uma mais pura e mais madura vida de fé” (GS nº 62).

Teologia: a procura da profundidade

A teologia é chamada a tratar de dois tipos de aprofundamentos; por um lado, deve sempre escavar dentro da verdade revelada, por outro, deve ser capaz de anunciar a verdade revelada para fora, para o tempo (GS nº 62).

Na reformulação da Revelação, o teólogo deve levar em conta a filosofia e a sabedoria dos povos (cf. Ad gentes, nº 22). Entre os instrumentos para comunicar a mensagem da salvação aos homens de seu tempo, existem as estruturas filosóficas, que caracterizam uma determinada cultura e suscitam novos problemas, exigindo dos teólogos novas investigações (cf. GS nº 62).

O uso de novos instrumentos filosóficos pode provocar alguma crise, mas cabe ao teólogo saber como mediar entre as novas formas e conteúdos da filosofia e a integralidade da mensagem revelada, como fez, com exemplar maestria, São Tomás de Aquino (cf. Optatam totius, nº 16).

Em última análise, é tarefa da teologia tratar sistemática e praticamente a conexão entre a mensagem da salvação e as várias formas da cultura humana, certificando-se de que a mediação cultural resulte ao máximo, sem derrogar "as exigências da ciência teológica" (cf. GS nº 62).

Ao labor teológico, entre as tantas dificuldades de tipo científico ligadas, sobretudo, à investigação, acrescenta-se a faina de ter que desenvolver um discurso capaz de dar conta de duas fidelidades: a fidelidade a Deus (para que sua mensagem seja comunicada coerentemente); e a fidelidade ao homem (para que a mensagem divina seja claramente compreendida por ele).

Entre o Concílio e o pós-Concílio

A instância pastoral da teologia torna-se, no discurso do Concílio, mais concreta, ao indicar os sujeitos e os destinatários de sua tradução e aplicação prática.

Os decretos Optatam totius (nºs 16 e 19), Presbiterorum ordinis (nº 19, em relação à formação sacerdotal), o decreto Apostolicam actuositatem (nºs 29 e 40) e a declaração Gravissimum Educationis (nºs 10-12, em relação à formação dos leigos e à educação geral dos cristãos), continuamente enfatizam o valor da dimensão pastoral da teologia e recomendam destacar de forma mais explícita e progressiva esta dimensão.

No Concílio, a importância pastoral da teologia significa algo de muito forte, isto é, tudo o que se indicou nas dimensões da Revelação, da Salvação, da Cristologia e da Eclesiologia.

No pós-Concílio, infelizmente, deixou-se de lado este forte sentido pastoral, para assumir aquele mais fraco e – deve-se dizer - inferior, de uma teologia dedicada mais a pesquisa do que preocupada em motivar e sugerir opções operacionais às pessoas envolvidas no trabalho pastoral. A função pastoral da teologia é, de facto, no Concílio, pensada quase principalmente no contexto da formação do "pastor"[2], embora também se fale sobre a importância de introduzir os leigos no exercício da teologia[3].

Isto, porém, não impede que se tenham uma ideia suficientemente clara de como o Vaticano II concebe uma teologia de índole pastoral, uma teologia, de algum modo, introvertida (dedicada à reflexão sobre a Revelação), e extrovertida (dedicada à compreender os problemas cruciais dos homens de hoje, para iluminá-los à luz da fé). Evidentemente, esta dupla atitude da teologia, em que insistimos, deve estar sempre presente.

Um serviço para toda a Igreja

Afirma muito pertinentemente Campanini: "Termina a temporada da teologia ‘para os leigos’, e começa aquela da teologia ‘dos leigos’, que é a teologia de todo o povo de Deus, que junto reflete, nos diferentes carismas, sobre o único depositum fidei, e sobre a encarnação nas diferentes culturas"[4].

A partir da perspectiva da noção de teologia que esboçamos até agora, a tarefa da teologia - e, portanto, do teólogo - é visto prevalentemente no âmbito da proclamação da mensagem da salvação, ao lado do catequista, do sacerdote, do pregador.

Menos evidente é o acento do Concílio sobre a função da teologia como análise crítica e inteligência sistemática da Revelação, função teológica muito considerada hoje.

A finalidade da teologia, de acordo com o Concílio, é fundamentalmente a mesma finalidade da Igreja, isto é, dar uma resposta às perenes perguntas humanas sobre o sentido da vida, sobre o significado e a finalidade da história da comunidade humana à luz da Revelação, e de propor aquela resposta de forma adequada e razoável para cada geração[5].

Notas: 

[1] LATOURELLE, La teologia scienza della salvezza, Assisi: Cittadella Editrice (PG) 1980, p. 11. (Tradução em português: LATOURELLE, R. Teologia, ciência da salvação. São Paulo: Paulinas, 1971).

[2] Cf. Decr. Optatam totius, nºs. 16-19; Decr. Presbyterorum ordinis, nº. 19.

[3] O Concílio pediu, diversas vezes e em diferentes contextos, o acesso dos leigos à teologia, e não em baixo nível, mas em nível científico (cf. Cost. past. Gaudium et spes, nº. 62; Decr. Optatatam totius, nº. 10). A formação teológica é, de fato, para o Concílio, necessária para que sua ação pastoral seja possível, responsável e eficaz (cf. Decr., Apostolicam actuositatem, nºs. 29-32).

[4] CANPANINI, G. Introduzione e commento alla Cost. past. sulla Chiesa nel mondo contemporaneo “Gaudium et spes”, Casale Monferrato (AL). 1986, p. 134.

[5] A teologia deve aplicar as verdades eternas às inumeráveis situações deste mundo: cf. Decr. Ad Gentes, nº. 22.

5] TREVOR, M. John H. NewmanCrónica de un amor a la verdad, Salamanca: Sígueme, 1989, p. 205.

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