Com Merkel em visita a Francisco, temos uma parceria sendo construída?

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19 Junho 2017

Geralmente os papas se esforçam para ter boas relações com os políticos de todas as estirpes, mas quando eles encontram um com quem há uma identificação especial, a história pode mudar. Vendo o cenário mundial, hoje, o melhor candidato para uma tal parceria com o Papa Francisco pode bem ser a chanceler alemã Angela Merkel, que estará visitando o pontífice neste sábado no Vaticano.

Ao longo dos séculos, pelo menos teoricamente os papas tentaram permanecer acima da política, e a maioria se esforçou para manter boas relações com imperadores, reis, chanceleres, presidentes e primeiros-ministros de todas as estirpes, independentemente da visão de mundo ou filiação partidária deles.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 15-06-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

No entanto, quando há uma identificação entre um papa e um político em especial, a história pode mudar. A química entre São João Paulo II e o presidente americano Ronald Reagan na luta contra o comunismo europeu é o exemplo mais recente, mas dificilmente o único: podemos citar o Papa Leão III e Carlos Magno como um outro exemplo.

Vendo o cenário mundial, hoje, há algum líder importante com quem o Papa Francisco poderia forjar esse tipo de relação especial?

Por vários motivos, provavelmente esta pessoa não é o presidente americano Donald Trump. É bem provável também que um “papa da paz” não verá em Vladimir Putin um aliado natural e, por mais aberto que Francisco possa ser, a lacuna cultural entre ele e Xi Jinping, da China, impede um tal encontro.

Quem resta então? Bem, fica a figura recentemente apelidada de “a Nova Líder do Mundo Livre”, que estará visitando o pontífice em Roma no sábado.

O Papa Francisco e a chanceler alemã Angela Merkel já se encontraram três vezes, em 2013, 2015 e 2016, mas nunca em um momento no qual o futuro tanto da Europa quanto do mundo em geral parecia indefinido, ou em que o papel da Alemanha na nova ordem mundial parecia tão relevante.

Enquanto Trump persegue a sua política estrangeira de “a América em primeiro lugar”, expressa mais recentemente na decisão de abandonar o acordo climático de Paris, tanto o interesse quanto a habilidade dos EUA de exercer a liderança mundial parecem questionáveis. Ao mesmo tempo, a Inglaterra está engalfinhada no tumulto pós-Brexit e numa aparente paralisia política.

Enquanto isso, Merkel acolheu o novo líder francês, Emmanuel Macron, com um abraço amoroso, levando muitos especialistas em geopolítica a especular sobre as possibilidades de um eixo Alemanha-França. Nos mercados financeiros, já até se viu um movimento de distanciamento para com o dólar e uma aproximação para com o euro, o que parece sugerir que a ideia tem fundamento, com os investidores estando dispostos a apostar nela.

Merkel irá se reunir com Francisco depois ter ido à América Latina, onde fez escalas no México e na Argentina e onde o subtexto era o de que os latino-americanos que estão infelizes com as ações do presidente americano não se encontram sem opções, seja na área política, seja na área econômica.

Em diferentes sentidos, Merkel pareceu incorporar uma pauta mais harmoniosa com a do Papa Francisco. Ela é uma grande apoiadora do acordo climático de Paris, ela vem defendendo posições favoráveis aos imigrantes, e quando esteve no México semana passada disse que “erguer muros e se retirar [de acordos] não vão resolver os problemas”.

Isso pareceu ecoar o próprio Francisco quando ele esteve no país em fevereiro de 2016. Na ocasião, o papa falou que o político que se propõe construir muros “não é cristão”. Os comentários de Merkel e de Francisco foram amplamente vistos como repreensões diretas a Trump.

Mais que isso: Merkel parece o tipo de parceiro que Francisco talvez ache ideal.

Ela nasceu na Alemanha oriental sob o domínio soviético, o que muitos analistas alemães acreditam que ajuda a explicar a repulsa instintiva dela a políticas limitadoras da liberdade de movimento. Francisco gosta de pessoas que tenham vivenciado dificuldades na vida, e porque ele também viveu em um período de regime militar na Argentina, pode haver o sentimento de que ele e a líder alemã tenham algo em comum.

Merkel é filha de um teólogo e pastor luterano. Originalmente foi introduzida no governo democrata cristão do chanceler Helmut Kohl na década de 1990 para prover certo equilíbrio protestante naquilo que era visto, na época, como uma administração pública predominantemente católica. Muito embora não demonstre sua fé em público à maneira como os políticos americanos fazem, Merkel leva a sério sua religiosidade cristã.

Dado que Francisco leva a sério a unidade entre os cristãos e que prefere um “ecumenismo da ação” ao diálogo teológico formal, a ideia de perseguir interesses comuns com uma chefe de Estado luterana pode muito bem dar certo.

Por fim, o fato de que Merkel é uma mulher empoderada naquele que geralmente é um mundo predominado por homens também contribui para que a parceria aconteça.

Entretanto, isso não significa que inexistam complicações potenciais a um alinhamento Francisco-Merkel, ou que os dois sempre estiveram em plena sintonia.

Em 2016, por exemplo, Francisco revelou em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera que havia recebido um telefonema de uma Angela Merkel “furiosa” depois que ele havia descrito o Velho Continente como “envelhecido” e “uma avó, não mais fértil e vibrante”.

Merkel contestou esta caracterização, disse o papa, levando-o a dizer que ele também acredita que “nos momentos mais sóbrios”, a Europa “sempre mostrou que tem recursos inesperados”.

Embora Merkel possa dar a Francisco um apoio político diante de suas prioridades na área social, a enorme popularidade do papa na Europa pode igualmente significar que o seu apoio implícito ao novo papel dela como a líder das democracias liberais ocidentais pode ser importante, especialmente na parte sul católica do continente, formado por Espanha, Portugal e Itália.

Resta saber ainda se Francisco e Merkel irão forjar uma parceria estratégica, mas a simples possibilidade em um momento no qual tantas coisas parecem incertas dá ao encontro deles no sábado um sentido dramático que não víamos nos recintos vaticanos desde... bem, talvez, desde um mês atrás, quando Trump veio a Roma.

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