Paraguai. Cinco anos após o massacre de Curuguaty, fala um dos seus sobreviventes: “Foi uma saraivada de tiros de metralhadora”

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17 Junho 2017

Adalberto Castro, sobrevivente de um dos crimes mais hediondos da história recente do Paraguai, esteve em Buenos Aires para tornar visível o calvário dos seus companheiros e para exigir o esclarecimento desses fatos.

A reportagem é de Adrián Pérez, publicada por Página/12, 16-06-2017. A tradução é de André Langer.

O barulho dos tiros quebrou para sempre o ritmo camponês daquele dia de junho na fazenda Marina Kue. Do céu caiu chumbo e morte: o despejo deixou um saldo de 11 camponeses e seis policiais assassinados. A Justiça paraguaia fez uma investigação repleta de erros, em que as irregularidades foram moeda corrente. Processou e condenou 12 camponeses. Nenhum policial respondeu por essas mortes. Nessa quinta-feira, 15 de junho, completaram-se cinco anos do Massacre de Curuguaty, acontecimento que foi usado como desculpa para concretizar um golpe parlamentar contra o então presidente Fernando Lugo.

Adalberto Castro, sobrevivente de um dos crimes mais hediondos da história recente do Paraguai, esteve em Buenos Aires para tornar visível o calvário dos seus companheiros e para exigir o esclarecimento desses fatos. Também reviveu o calvário que seus companheiros e companheiras tiveram que atravessar na sua luta por um pedaço de terra para viver.

Mal chegou de Assunção, o jovem camponês recebeu o Página/12 em um apartamento de Retiro. Ele respondeu às perguntas em guarani. Por isso, Mónica e Joel, anfitriões e militantes do Movimento 138 – coletivo de paraguaios que resistiu ao golpe contra Lugo da diáspora –, dispuseram-se a fazer a tradução da conversa. Pintada de vermelho, branco e azul, a garrafa térmica que Mónica usa na roda de mate traz os nomes de outros camponeses presos, acusados de assassinar, em 2005, Cecilia Cubas, filha do ex-presidente Raúl Cubas.

Antes de abandonar seu povoado, Adalberto Castro trabalhou no sítio do seu pai, em Yvy Pytá. Foi para Marina Kue com uma ideia clara: ter acesso a um pedaço de terra pensando que algum dia formaria sua própria família. Chegou um mês antes do massacre, sem nenhuma má intenção, esclarece. Disse que as possibilidades para conseguir um lote para produzir eram grandes, segundo tinha conversado com a pessoa que ajudava o grupo de camponeses a se organizarem em torno deste objetivo. “A polícia ameaçava trazer o título dessas terras para que saíssemos dali. Antes de sentar para conversar, começaram a atropelar tudo, a invadir a terra que estávamos ocupando, sem apresentar nenhum tipo de documento”, relembra o trabalhador rural.

A manhã daquela sexta-feira se apresentava sem nuvens, mas fazia fria. Os primeiros tiros foram ouvidos às 8h. Castro levou dois tiros, um no braço e outro na perna direita. Do seu relato se desprende que foram usadas armas automáticas. “Foi uma saraivada de tiros de metralhadora, comecei a procurar meus companheiros e não vi ninguém. Pensei que todos tinham morrido”, recorda o jovem, que tinha 23 anos na época em que aconteceu o ataque das forças de segurança. Como não podia correr, por causa das feridas, os policiais o pegaram. “Arrastaram-me, veio Jorge Luis Rodas (membro do Grupo Especial de Operações da Polícia), com uma metralhadora na mão e me deu um chute na cabeça, me apontou a arma na cabeça e disse aos seus companheiros: ‘matem este bandido’.

Outros policiais bateram no seu estômago e apertaram-lhe os olhos. As torturas continuaram em um lugar próximo. Jogaram-no de um caminhão ao chão, onde foi cercado por vários policiais que gritavam: “Matem-no de uma vez, ele está sofrendo em vão”. Um homem vestido de preto e com óculos de sol aproximou-se para ordenar aos policiais para que não batessem nele. Colocaram-no novamente em outro caminhão da polícia para levá-lo à sede da fazenda. Ali, um policial o ameaçava e o acusava de ter matado o seu próprio irmão.

Da impotência, Castro ironizou: “Eu nunca vi um facão que atira”. Depois chegou outro policial e afastou o agente que o assediava. Ordenou que o levassem ao hospital. Ao observar que seus companheiros de armas não se mexiam, o próprio policial o colocou em uma camioneta, com a caçamba cheia de verduras e o levou ao hospital de Curuguaty. O jovem entrou no setor de emergência às 14h. Ali lhe deram soro e prestaram os primeiros socorros. Na mesma sexta-feira foi levado ao Centro de Emergências Médicas Manuel Giani de Assunção.

Na manhã do sábado, 16 de junho, transferiram-no, ferido, à cela de uma comissária de Assunção. À noite, levaram-no para a Comissária 5ª de Curuguaty. Ele percorreu os 400 quilômetros que separam a capital paraguaia dessa cidade com as mãos algemadas, em um carro da polícia. No domingo, às 16h, levaram-no à prisão de Agua Pety, localizada em Coronel Oviedo. Em nenhum momento o informaram sobre a acusação que pesava contra ele. Ao chegar à prisão, revistaram-no e o colocaram em uma cela de seis metros por quatro com outros seis camponeses detidos na Marina Kue. Três companheiras estavam reclusas no setor para mulheres.

“Nós sabíamos que éramos inocentes. Conversamos e concluímos que era necessário fazer uma greve de fome”, reconstrói Castro sua passagem pela prisão. Seu pai o visitou na prisão para lhe pedir que interrompessem a greve, porque sua mãe estava doente e tinha perdido um filho na Marina Kue e outros dois estavam na prisão. Três dos sete camponeses abandonaram a greve no 36º dia. Os que continuaram, após 58 dias de greve, foram beneficiados com a prisão domiciliar.

Castro continuou preso junto com os seus companheiros à espera do julgamento oral, que começou no dia 27 de julho de 2015. Em seguida, foram transferidos para a prisão de Tucumbú. Após cinco meses reclusos, mandaram chamar familiares e advogados para informar que retomariam a greve de fome. Os pais aceitaram então a medida de força. Os presos de Curuguaty começaram a greve que se estendeu por 58 dias, com a qual conseguiram prisão domiciliar.

Rubén Villalba, apontado pelos investigadores como líder da tomada de terras, teve anulada uma causa prescrita e o levaram de volta a Tucumbú. Finalmente, Villalba e Olmedo Paredes (outros dois camponeses) foram condenados, respectivamente, a 35 e 20 anos de prisão por homicídio doloso qualificado, tentado e consumado; invasão de propriedade e associação criminosa. Castro diz que a Justiça se enfureceu com Villalba porque tinha ajudado outros camponeses a conquistar cinco assentamentos. “Condenaram-no por sua ideologia, por ser membro do Partido Comunista Paraguaio. Nós fomos condenados como cúmplices. Sem nenhuma prova”, completa o trabalhador rural, que hoje tem 28 anos.

Castro e outros quatro companheiros foram sentenciados a quatro anos de prisão por invasão de propriedade e associação criminosa. Ao todo, ele permaneceu quatro anos e 41 dias preso. O pior de ter passado na prisão – diz – é ter estado ali como inocente, enquanto que os culpados pelo roubo das terras e os atiradores da Marina Kue andam soltos, em liberdade. “A família de Blas Riquelme, um produtor de soja, deve responder por apropriar-se de dois mil hectares de terra. O argumento de que a terra é deles é falso”, conclui Castro, e recorda que no sábado, 16 de junho de 2012, choveu torrencialmente todo o dia na fazenda Marina Kue.

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