Ardor, desejo, amor. Assunto para os teólogos

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15 Junho 2017

"A moral sexual pode ser resumida em um trevo de quatro folhas, cujas folhas podem crescer em diferentes formas, mas nunca separadas, sob pena de fenecer."

O comentário é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura e biblista, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 11-06-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

A exortação "Amoris Laetitia" de Francisco engendrou a uma série de estudos sobre a pessoa, o corpo e o amor sexual e "Similar ardor, desejo... / inclina e força um e o outro sexo / para aquele suave fim de amor". Estamos no quarto canto do Orlando Furioso (trecho em tradução livre), aquele em que Ruggiero, apaixonado por Angélica, voa no hipogrifo e Ariosto nos brinda com uma sugestiva reconstrução da constelação que rege a paixão. A paixão parte, sim, daquele “ardor” instintivo da sexualidade (e até aqui acompanhamos todos os demais seres vivos), mas, em seguida, desabrocha um “desejo” que é substancialmente o Eros (libido), que é a descoberta da beleza do outro, é a paixão, o sentimento, a emoção, a ternura, e aqui adentramos em um território que é deliciosamente humano. Mas a meta real que a pessoa consegue alcançar está no cume, onde brilha o amor "aquele suave fim de amor", como escreve o poeta.

Na exortação pós-sinodal Amoris Laetitia do Papa Francisco (19 de Março de 2016) a atenção principal dos leitores fixou-se naquele capítulo VIII, e em especial sobre a nota 351, à procura de uma resposta para a questão da admissibilidade da Eucaristia para divorciados recasados. Na verdade, o texto papal é um grande afresco do amor nupcial, da família, da espiritualidade conjugal com muitas páginas que justamente enfatizam aquela tríplice ascensão capaz de colocar no cume a experiência de amor "que persiste no meio de inúmeras vicissitudes, como o mais belo dos milagres, apesar de também o mais comum", como descrevia em seu Journal, François Mauriac. Claro que com relação ao documento pontifício, mas especialmente em torno do tema que o sustenta, surgiu uma série impressionante de publicações.


Giannino Piana, Persona, corpo natura
(Pessoa, corpo, natureza, em tradução livre),
Queriniana, Brescia, p. 228, € 15

Queremos aqui ressaltar uma trilogia com enfoque diferente, contudo capaz de se recompor em um tríptico com cenas e cores variadas, mas complementares. Vamos iniciar por uma panorâmica, proposta por um dos nossos maiores e mais sofisticados teólogos morais, Giannino Piana, que reconstruiu a partir do título outro trio que transcende e coloca em seu interior a sequência de sexo-eros-amor (o "ardor-desejo-amor de Ariosto"): pessoa, corpo, natureza. É uma breve discussão sobre alguns tópicos candentes no debate contemporâneo: basta pensar no conceito de "natureza" humana a respeito do qual, no final de um longo itinerário histórico e de ideias, chega-se a um êxito por uma perspectiva personalista, capaz de reagir a visões redutivas essencialmente fisicistas ou essencialistas. Para elaborar tal proposta são necessárias, aliás, são de capital importância duas outras categorias, o corpo e a pessoa.

De um lado, há a base da corporeidade humana que não pode ser reduzida a mera biologia eticamente neutra, mas que é por excelência símbolo relacional e racional. Pelo outro lado, existe o acesso terminal à pessoa, "referencial último", cuja dignidade gera automaticamente uma série de corolários muito delicados como sua manipulabilidade, inserção social, envolvimento no emaranhado das chamadas “questões eticamente sensíveis". Como é evidente, o enfoque de Piana revela-se como um guia essencial para um itinerário ao longo de estradas que todos os dias ramificam-se frente às praxes de nossas vidas. A partir desse mapa primordial podemos transitar sem solução de continuidade ao outro painel da nossa trilogia, um verdadeiro e próprio "tratado" no sentido clássico do termo, onde o tractare, ou seja, "o envolvimento em uma obra" precisa, adquire uma conotação didática.


Maurizio Chiodi - Massimo Reichlin, Morale della vita.
Bioetica in prospettiva filosofica e teologica
(Moral da vida moral. Bioética em perspectiva filosófica
e teológica, em tradução livre)
Queriniana, Brescia, p. 438, € 31

Assim um teólogo, Maurizio Chiodi, e um filósofo, Massimo Reichlin, definem uma Moral da vida, uma arquitetura imponente erguida e "tratada" a quatro mãos, justamente porque a bioética exige um duplo olhar tanto filosófico e ético, como teológico e moral de acordo com epistemologias não overlapping (recorrendo à famosa fórmula de Stephen Gould), não sobrepostas, mas também não antitéticas, distintas, mas não separadas. A imprescindível diversidade metodológica não conduz, portanto, a uma mera justaposição, mas a um diálogo frutífero (os autores falam de "aprofundamento recíproco”) dentro de um perímetro comum que é resumido também nesse caso, por uma tríade lexical: nascer, morrer, sofrer. E, uma vez que jamais se começa a partir de uma tabula rasa, ou seja, de uma tabuleta ou página sem inscrições (como sugere a frase em latim), a primeira seção da obra é dedicada à memória, ou seja, à história da reflexão sobre o tema e à relativa herança cultural. Aqui desfilam grandes nomes como Santo Agostinho e Tomás, Descartes e Kant, Schopenhauer e Nietzsche, mas também figuras que nos são mais próximas, como Illich, Jonas, Habermas, Ellul, e assim por diante.

Outras figuras reaparecem na segunda parte do tratado, onde se apresentam aquelas três encruzilhadas - nascimento, morte, dor - que todos nós enfrentamos, e que constituem a nossa cédula de identidade comum. Justamente é aqui o lugar onde se enroscam todos os nós da bioética. Por essa razão, são convocados pensadores como Arendt, Ricoeur, Levinas e Rahner, naturalmente sob a égide de uma reflexão teórica complexa que visa abranger sujeitos éticos cuja mera enumeração torna evidente a delicadeza e urgência: genética, aborto, procriação medicamente assistida, células-tronco, eutanásia, experimentação clínica, testamento em vida, e assim por diante. Um horizonte sobre o qual Chiodi acende a luz da Revelação bíblica e da teologia, enquanto Reichlin ilumina o horizonte com o insone questionamento filosófico e com os seus diagnósticos.


Aristide Fumagalli, L’amore sessuale. Fondamenti e
criteri teologico-morali
(O amor sexual. Fundamentos e critérios teológicos e
morais, em tradução livre)
Queriniana, Brescia, pp. 462, € 30

Chegamos, assim, ao último painel do nosso tríptico que restringe o arco de abrangência da antropologia geral àquele campo de onde partimos com Ariosto, que é o “Amor sexual”, como reza o título de outro tratado-ensaio, fruto da pesquisa de um teólogo ambrosiano, Aristide Fumagalli, que já abordamos nestas páginas por seu interessante estudo sobre gênero. A obra, um tanto vultosa, mas afiada em sua impostação e enunciado, move-se substancialmente ao longo de duas trajetórias indicadas já no subtítulo "Fundamentos e critérios teológico-morais”. O primeiro movimento revela uma visitação assídua a bibliotecas não só exegéticas e teológicas, mas também históricas, filosóficas e psicológicas. Assim, ao lado de toda a literatura religiosa em torno desse tema que desde sempre vem acumulando um imenso arcabouço de análises – a partir da asserção bíblica da ''imagem” de Deus no 'homem e mulher', ou seja, na criatividade genética de amor (Gênesis 1:27) – colocam-se os "fundamentos antropológicos" que a sexologia científica, a simbologia, a psicologia foram construindo ou demolindo.

Por outro lado, aqueles da geração que viveu a "contestação" dos anos 1960 e 1970 (Fumagalli está cronologicamente excluído deste grupo, tanto que nem chega a mencioná-lo) relembram o mote da Revolução Sexual de Wilhelm Reich - texto de 1936, na época assumido junto com o "livro vermelho" de Mao - que "a ideologia sexual reacionária é a mais profundamente arraigada de todas as ideologias". Mas Fumagalli sobre esses fundamentos vastos e complexos preocupa-se em erigir uma
criteriologia moral que também resume a anterior revisão histórica que ocupa mais de 350 páginas.

Agora são suficientes apenas umas cinquenta páginas (talvez muito poucas e sintéticas) para espremer o suco de uma concepção deliciosamente teológico-moral da sexualidade humana. Como ele escreve recorrendo a uma metáfora vegetal, a moral sexual pode ser resumida em um trevo de quatro folhas, cujas folhas podem crescer em diferentes formas, mas nunca separadas, sob pena de fenecer: "viver para o outro/a, com todos si mesmos, no mundo ambiente, ao longo da história".

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