Uma comunhão de amor

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09 Junho 2017

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre as leituras deste domingo, 11 de junho, festa da Santíssima Trindade.

No tempo da Páscoa, como as outras leituras escolhidas pelo lecionário romano não são paralelas ao Evangelho, comenta-se apenas o trecho evangélico (Jo 3, 16-18).

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

É o domingo em que confessamos a Triunidade de Deus. Em verdade, a Triunidade de Deus é confessada pela Igreja sempre, em cada liturgia, mas, recentemente, sentiu-se a necessidade de instituir uma festa teológico-dogmática, que não é conhecida nem pela antiguidade cristã, nem, ainda, pela tradição cristã oriental. No entanto, é a ocasião de um louvor, de um agradecimento, de uma adoração do mistério do nosso Deus, comunhão de amor entre Pai, Filho e Espírito Santo.

Alguém pode se surpreender que o texto evangélico escolhido pela Igreja para esta festa fala manifestamente apenas do Pai e do Filho, enquanto parece fazer silêncio sobre o Espírito Santo. Na realidade, o Espírito está presente como “amor de Deus” e como “companheiro inseparável do Filho” (Basílio de Cesareia), porque onde está escrito que “Deus amou tanto o mundo”, o cristão compreende que Deus amou o mundo com o seu amor, que é o Espírito Santo do Pai e do Filho.

Foi longo o caminho da revelação e, portanto, da adesão a ela por parte dos fiéis em relação à Triunidade de Deus. Gregório Nazianzeno reconhece isso com fineza: “O Antigo Testamento proclamava de modo claro o Pai, de modo mais obscuro o Filho; o Novo Testamento manifestou o Filho e fez entrever a divindade do Espírito; ora, o Espírito (…) concede-nos uma compreensão mais clara de si mesmo (...) Assim, através de ascensões, avanços, progressos de glória em glória, a luz da Triunidade brilhará com ainda mais clareza” (Discursos Teológicos 31, 26).

A Triunidade de Deus não é uma fórmula cristalizada, e não é preciso nomear sempre as três pessoas para evocá-la: Pai, Filho e Espírito Santo são termos que indicam uma vida de amor plural, comunitário, são uma comunhão que nós tentamos expressar com as nossas pobres palavras, sempre incapazes de dizer o mistério, de expressar a revelação do nosso Deus.

Não é por acaso que, muitas vezes, para dizer algumas palavras nossas sobre a Triunidade de Deus, depois de séculos, ainda recorremos à intuição de Agostinho, que vê no Pai o amante, no Filho o Amado, e no Espírito o Amor que intercorre entre os dois. E São Bernardo de Claraval, de sua parte, lia a Triunidade de Deus como um beijo “circular” e eterno: “O Pai dá o beijo, o Filho o recebe, e o próprio beijo é o Espírito Santo, aquele que está entre o Pai e o Filho, a paz inalterável, o amor indiviso, a unidade indissolúvel” (Sermões sobre o Cântico dos Cânticos 8, 2).

Mas nos detenhamos sobre o trecho evangélico. Estamos no contexto do colóquio noturno entre Jesus e Nicodemos (cf. Jo 3, 1-21), um “mestre de Israel” (Jo 3, 10) que representa a sabedoria judaica em diálogo com Jesus. Este é um diálogo fatigante para Nicodemos, que tem fé em Jesus, mas se esforça para acolher a novidade da revelação trazida por esse rabi “que veio de Deus”. Jesus responde às perguntas do seu interlocutor, mas a última resposta, a mais longa, parece contida dentro de uma meditação do autor do quarto Evangelho.

Portanto, nos versos que hoje a Igreja nos oferece, é Jesus que fala ou se trata de uma meditação do evangelista? Em todo o caso, são palavras de Jesus certamente não relatadas tais e quais, mas meditadas, compreendidas e ditas novamente no tecido de uma comunidade cristã que tentou acreditar nelas e vivê-las.

Assim inicia o trecho: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer (...) tenha a vida eterna”. Pouco antes, está escrito: “É preciso que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3, 14-15). Essas duas afirmações são paralelas e explicam-se mutuamente.

Para que cada ser humano possa crer, aderir ao Filho do Homem e pôr a sua confiança nele, é preciso que ele conheça o amor de Deus por toda a humanidade, por este mundo. Tal amor de Deus teve a sua epifania em um ato preciso, datável, localizável na história e na terra: no dia 7 de abril do ano 30 da nossa era, um homem, Jesus de Nazaré, nascido de Maria, mas Filho de Deus, foi levantado na cruz, onde morreu “tendo amado até o fim” (Jo 13, 1), e, naquele evento, todos puderam ver que Deus amou tanto o mundo a ponto de lhe entregar o seu único Filho, por ele “enviado ao mundo”.

Naquela hora da cruz, “a hora de Jesus”, mais do que nunca foi manifestada a glória de Jesus como glória daquele que amou até o fim, narrando (exeghésato: Jo 1, 18) o amor de Deus através da oferta da sua vida a todos, sem discriminações. Aquela foi a hora da elevação do Filho do Homem, ao qual todos os seres humanos, de todos os séculos e de todas as gerações, olham com ao “transpassado por amor” (cf. Zc 12, 10; Jo 19, 37; Ap 1, 7).

Eis o dom dos dons de Deus: dom gratuito, dom de si mesmo, dom irrevogável e sem arrependimento; dom nunca merecível, mas que deve ser acolhido com fé; dom feito apenas por um amor louco de Deus, que quis se tornar homem, carne frágil e mortal (cf. Jo 1, 14), para estar no meio de nós, conosco, e assim compartilhar a nossa vida, a nossa luta, a nossa sede de vida eterna.

Eis o que aconteceu com a vinda na carne do Filho de Deus e com a descida do Espírito sempre é o companheiro inseparável do Filho; eis o mistério do amor de Deus vivido em comunhão, comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Aquele mundo (kósmos), que, às vezes, no quarto Evangelho, é lido sob o sinal do mal, do domínio de Satanás, “o príncipe deste mundo” (Jo 12, 31; 16, 11; cf. 14, 30), aqui é lido como humanidade, como universo que Deus viu como “coisa boa” (Gn 1, 4.10.12.18.21.25) e “muito boa” (Gn 1, 31), que ele amou até a loucura, até o dom de si mesmo, dom que lhe exigiu despojamento, pobreza, humilhação.

Ser salvo significa passar da morte à vida definitiva, e isso é possível para quem aceita o dom aderindo a Jesus Cristo, aquele que dá o Espírito da vida. Esse dom louco de Deus ao mundo não tem como objetivo o juízo do mundo, mas a sua salvação: Deus quer que a humanidade conheça a vida para sempre, a vida plena, que apenas ele pode lhe dar.

Mas, diante do dom, resta a liberdade humana. O dom é feito sem condições, portanto, pode ser acolhido ou rejeitado. Quem o acolhe, foge do juízo e vive a vida para sempre, mas quem não o acolhe, julga a si mesmo. Não é Deus quem julga ou condena, mas cada um, acolhendo ou rejeitando o amor, entra na vida ou se afasta da fonte da vida, percorrendo uma estrada mortal. Certamente, encontramos aqui expressões de Jesus muito duras, radicais, mas elss devem ser decodificadas e explicadas.

Se Jesus diz que “quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito”, ele não diz isso manifestando uma condenação para as multidões de homens e mulheres que não puderam encontrá-lo na história, por serem pertencentes a outros tempos ou a outras culturas. Estes, se viveram a sua existência em conformidade com a existência humana de Jesus, marcada pelo amor aos irmãos e às irmãs, é como se tivessem participado, embora com todos os limites humanos, da vida humana de Jesus; e, assim, sem conhecê-lo, sem professar o seu Nome na fé cristã, conhecerão a vida eterna nele e com ele. Mas quem teve uma vida gravemente disforme à vida humana de Jesus e, até, em contradição com ela, não conhecendo o amor, este já está julgado e condenado: para ele, não há vida eterna.

A festa da Triunidade de Deus deveria não tanto nos induzir a especulações sobre esse mistério inefável, mas sim a fazer experiência da própria Triunidade na Igreja, que é a sua imagem, por ter nascido no coração do Pai, por ser fundada no Filho e por ser reunida pelo Espírito Santo. A Igreja é o lugar em que, dentro do possível para nós, humanos, nos é dado fazer experiência do coração de Deus e da sua comunhão plural.

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