Etty Hillesum, a vida boa

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08 Junho 2017

Chega às livrarias a biografia de Etty Hillesum, escritora e estudiosa, autora de um diário denso e rico de reflexões espirituais sobre a humanidade e a relação com Deus. Holandesa judia, morreu em Auschwitz em 1943.

A reportagem é de Cristina de Stefano, publicada por Repubblica, 04 -06-2017. A tradução e de Luisa Rabolini.

O nome de Etty Hillesum - jovem judia holandesa que no meio do drama do genocídio escreveu um ‘contra drama’ luminoso que salvou a sua alma e a nossa - é um nome sagrado para os seus leitores, mas ainda não suficientemente conhecido do grande público. Nossos agradecimentos a Edgarda Ferri que agora lhe dedica uma radiante biografia, construída por quadros, onde as frases de Etty - retiradas de seu diário e das suas cartas - entrecruzam-se com a história da ocupação nazista na Holanda - tantos pequenos atos de heroísmo e traição - e a paisagem - muitos botões e muitas flores, como ela gostava, os altíssimos céus de Amsterdam, mutáveis como o seu humor, os passeios de bicicleta no frio, parando para fazer anotações em seu caderno - e onde o final é um crescendo digno do Requiem de Akhmatova.

A jovem mãe que confidencia: "O meu bebê não chora mais, é como se pressentisse o que vai acontecer". A menina que lamenta: "Que pena, hein, e pensar que tudo que aprendeste na vida foi um esforço inútil". A velha senhora que aconselha as meninas ao seu redor, "Lembrem-se que amanhã cada uma de nós apenas poderá chorar três vezes". A militante da Resistência que teve um aborto pelas torturas e conta: "No trem acho que posso ajudar bastante, ainda tenho leite". O rapaz que entra no vagão, mesmo sem estar na lista e quando o guarda o questiona, responde: "Porque eu quero".

Ao longo dos trilhos para Auschwitz, repleto de lágrimas, sacolas e chamadas, a humanidade é salva pelo olhar de cristal de Etty, que consegue enxergar até o final. Entre março de 1941 e setembro de 1943, Etty Hillesum, vinte e sete anos, estudante de línguas eslavas em Amsterdam, mantém um diário que vai mudar a sua vida, e aquela de gerações de leitores no mundo todo. O impulso para escrever - para curar a sua personalidade confusa - foi Julius Spier, judeu alemão, fundador da psicoquirologia, a arte de ler nas mãos a personalidades dos pacientes. Etty já ouvira falar de sua reputação de curandeiro de almas e foi visitá-lo. Ela é uma morena nervosa, não deslumbrante, mas dona de perigosos olhos, "meio russa, meio espanhola," principalmente quando prendia uma peônia vermelha no cabelo e tilintava os grandes brincos na orelha. Ela gosta de literatura, traduz os russos, sonha em escrever algo grande. Ela gosta de homens, já tem muitas histórias complicadas na vida e agora descansa nos braços de um viúvo que a hospeda em sua casa. Quando vê Spier pela primeira vez, considera-o antipático, um velho de cinquenta anos com dentes falsos, o corpo pesado e rodeado por admiradoras demais. Apenas os olhos - cinzentos e infinitamente bons – chamam a sua atenção. Aceita ser examinada. Ele, depois de ter analisado suas mãos e ter tirado dela muito mais informações de quanto ela desejasse - "Fala sem medo, eu não vou julgar" - surpreende-a, tirando o casaco e dizendo: "E agora vamos lutar".

Assim começou - com a minúscula Etty que, com um golpe inesperado, derruba ao chão o maciço Spier, rasgando o seu lábio - uma das mais belas histórias de amor que eu conheço. Uma história cheia de sensualidade e espiritualidade, que, graças à personalidade mágica de Spier e à alma sedenta de Etty, torna-se logo um milagroso e intenso amor sem posse nem ciúmes. Quando, depois de um ano e meio de prodígios, Spier é diagnosticado com câncer terminal, Etty fica aliviada porque sabe que ele irá morrer antes de ser preso pela Gestapo. Não tem medo, está construindo sólidas raízes.

No diário, escreve: "A fonte de tudo tem que ser a própria vida, jamais outra pessoa". Graças a Spier, que lhe ensinou a rezar ("Experimente ajoelhar-se, é um exercício que lhe faria bem"), agora está bem longe da garota atormentada de outrora. O seu diário torna-se mais luminoso e claro, com um diálogo central, contínuo e pessoal com Deus. Etty percebe o terror que se intensifica ao seu redor, na cidade em que não pode mais usar a bicicleta ou pegar o bonde, onde os vizinhos são levados embora à noite e os amigos da resistência são torturados pela Gestapo; mas ela se recusa a odiar: "Não devemos nos encher de ódio. Se não for assim, o mundo não será capaz de sair um único centímetro da lama onde se enfiou". Escreve em seus cadernos coisas grandiosas - "Deus, você não pode nos ajudar, cabe a nos lhe ajudar, defender até o fim a sua morada em nós" - e depois, quando percebe que exagerou, brinca - "Senhor, dá-me menos pensamentos e mais água fria e exercícios de manhã cedo".

Ela tem amigos na Resistência que poderiam escondê-la, mas quer compartilhar o destino de seu povo. Trabalha por um ano como voluntária no campo de trânsito de Westerbork, onde os judeus são amontoados em condições terríveis antes de partir para Auschwitz, um trem por semana.

Ela consegue continuar a ser ela mesma, ali no meio da lama e dos ratos, e passa o seu tempo correndo de um preso para outro, sempre sorridente. Assim lembram-se dela os sobreviventes. E assim a descrevem as cartas, que ela envia aos amigos todas as noites, sabendo que o tempo está findando. Um amigo consegue entrar no campo e faz uma última tentativa de persuadi-la a fugir, mas ela responde: "Não saio daqui".

Ela sobe no trem para em 7 de Setembro de 1943, levando um cobertor e todos os seus livros. Alguns dias depois, uma amiga recebe um cartão postal, que alguém encontrou ao longo dos trilhos. São as últimas palavras de Etty que chegaram até nós. "Christine, eu abri ao acaso a Bíblia e achei isso: 'O Senhor é o meu único refúgio'. Estou sentada na minha mochila no meio de um vagão de mercadorias. Meu pai, minha mãe e Mischa estão alguns vagões à frente. Vamos viajar por três dias. Obrigado por todo o cuidado que tiveram conosco. Adeus de nós quatro. Saímos do campo cantando".

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