Quando Bento XVI disse: “Façam vocês”. A epifania de Aparecida e a Igreja hoje

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05 Junho 2017

E Bento XVI deixou em aberto e disse: “Façam vocês, façam vocês!”. Era maio de 2007, na inauguração dos trabalhos de Aparecida, e esse foi o início. Ou, melhor, o cume, para um antes e para um depois, não só para a Igreja da América Latina. E foi com adesão generosa que um então cardeal de Buenos Aires, chamado Jorge Mario Bergoglio – candidato à aposentadoria mais do que a uma sucessão petrina altamente improvável –, colheu a abertura daquele incentivo.

A reportagem é de Stefania Falasca, publicada por Avvenire, 02-06-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Naquela Quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, na reflexão comum sobre o percurso feito e a ser feito – em uma explosão de lucidez compartilhada –, tinha-se despertado e entendido novamente a disposição de receber de baixo, da realidade do povo de Deus, um dinamismo apostólico.

Compreendeu-se lá que tinha chegado o momento de se libertar das falsas dialéticas intraeclesiais e de sair do gueto das batalhas de reconquista. Esse foi um “momento de graça para a Igreja”, o próprio Bergoglio teve que reconhecer no dia seguinte à sua conclusão.

Desse “momento de graça”, na outra margem do oceano, quase ninguém se deu conta. Na verdade, sobre os horizontes e as perspectivas eclesiais abertas a partir daquele evento, o arcebispo de Buenos Aires queria falar no encontro do consistório previsto para novembro daquele mesmo ano. Não lhe foi possível.

Antes de voltar para casa, de Roma, no entanto, ele descreveu as entrelinhas em um única entrevista que concedeu para a revista 30 Giorni. Mas seria preciso esperar ainda outros seis anos, quando, por puro milagre, o cardeal de Buenos Aires se tornou Pedro, fugindo dos cálculos dos grupúsculos, porque Aparecida – e o que ela ainda significa para o olhar sobre as reivindicações da realidade, para os pontos-chave na imanente “necessidade de misericórdia e de coragem apostólica” –, como “lâmpada não debaixo do alqueire”, fosse oferecida como paradigma da missão da Igreja universal.

Hoje, a quatro anos da eleição, novas nomeações cardinalícias apontam para que se olhe para as exigências dos sinais dos tempos e não para os egocentrismos eclesiásticos. Nomeações que se entrelaçam agora com um passo importante para a Igreja italiana. E o fato de tudo isso ter coincidido justamente neste período – em que soaram os dez anos desde que Bento XVI deu o livre mandato, na confiança ao Espírito Santo , aos trabalhos daquela histórica assembleia episcopal – também tem o seu significado.

O que caracterizou a assembleia geral dos bispos em Aparecida foi a tomada de consciência de se encontrar em “uma mudança de época, não em uma época de mudança”.

A conferência anterior do Celam, em 1992, em Santo Domingo, na presença do então secretário de Estado, tinha lidado com um documento pré-preparado e havia ratificado o seu encerramento em uma ótica que era afetada pelos condicionamentos ideológicos nas dinâmicas eclesiais buscadas nas décadas passadas.

Em Aparecida, os pastores latino-americanos mais avisados haviam intuído a urgência de uma conversão pastoral para deixar reflorescer o rosto mais íntimo da Igreja, libertando-a da jaula da homologação, dos reducionismos ideológicos e dos clericalismos velhos e novos. Redescobrir o seu rosto mais íntimo significava reconhecer que, quando a Igreja se eleva no “centro”, ela se funcionaliza, pretende ter luz própria e deixa de ser aquele misterium lunae de que falam os Padres da Igreja.

E, a partir da redescoberta da sua natureza, emergia novamente o sentido e a modalidade da sua missão. Se a Igreja, que é de Cristo, pode viver apenas do seu reflexo, ela existe apenas como instrumento para comunicar aos homens o desígnio misericordioso de Deus, e é aí que está o proprium da sua missão, fruto da graça.

“Se ela segue o seu Senhor, a Igreja sai de si mesma, não fica fechada na própria autorreferencialidade... Para permanecer fiéis, é preciso sair. Permanecendo fiéis, sai-se. Isso é o que, no fundo, Aparecida diz. Esse é o coração da missão.” E são essas considerações feitas então pelo cardeal de Buenos Aires que descrevem o olhar impresso naquele evento eclesial. Evento no qual tiveram peso duas contingências nada secundárias: o lugar e a modalidade dos trabalhos.

Pela primeira vez, os bispos não tinha partido de algo pré-pronto, mas de um diálogo aberto entre as 23 conferências episcopais latino-americanas diferentes. No clima de colaboração fraterna e de uma disposição a receber tudo o que vinha da realidade vivida pelo povo de Deus, não se tinha feito uma síntese das diferentes multiplicidades, mas a unidade que é própria do “seu único artífice”, que é o Espírito Santo, cumprindo, assim, a dinâmica de colaboração que é a chave dos primeiros tempos das assembleias eclesiais.

O fato de ocorrer pela primeira vez em um santuário mariano, em meio às orações dos fiéis, também tinha contribuído para fazer com que se reconhecesse que o serviço dos pastores na Igreja-povo de Deus é para uma missão a partir do povo, assumindo a sua cultura e optando pela centralidade dos pobres. Uma missão não reguladora, mas facilitadora da fé.

E um santuário mariano só podia indicar o seu estilo. “A Igreja é mãe, gera, faz crescer, conduz pela mão”, e o estilo da sua missão só pode ser o de uma mãe, que se faz próxima, com ternura, com prontidão, oferecendo-se “como uma mãe que vai ao encontro”.

Isso, em síntese, é o que aconteceu em Aparecida, onde ressurgia a visão da Igreja e da sua missão expressada nas passagens centrais da Lumen gentium e da Gaudium et spes, em um caminho que tinha assimilado a exortação sobre a evangelização de Paulo VI.

“Chama a atenção que, ao redigir o documento final, que não se fecha, mas permanece em aberto – afirmava o cardeal Bergoglio em 2008 – Aparecida dá um salto para trás de 30 anos, até um dos documentos do magistério mais belos e vigorosos: a Evangelii nuntiandi, e que a sua última frase seja ‘recuperemos a coragem e a audácia dos apóstolos’”.

Em Aparecida, tinha-se recuperado essa coragem apostólica. Bergoglio tinha se encontrado no coração daquela epifania. E, nos 554 parágrafos do documento final, encontram-se muitas das intuições que hoje vibram no seu magistério. A Evangelii gaudium, aliás, é uma mistura da Evangelii nuntiandi e do Documento de Aparecida.

Portanto, se, com Aparecida, havia declinado a ideia de uma Igreja protagonista, que identifica a sua missão com a afirmação da sua relevância mundana, Aparecida não deve ser limitada a arquivo das fontes do papado bergogliano. Ela tem uma dimensão universal e atual, porque não traz receitas, mas chaves, critérios para iluminar, para acender o desejo de se livrar de todo o supérfluo e voltar às raízes, ao essencial da missão da Igreja no mundo.

Aparecida, especialmente, é a sede de vida cristã e eclesial autêntica, redespertada pela graça de um testemunho encarnado hoje no sucessor de Pedro, que continua semeando e interpelando.

A dez anos desde então, a centelha daquela epifania não se encontra, por isso, nos novos conformismos, nos slogans repetitivos sobre as periferias, os pobres e a Igreja em saída, na espera de que a temporada passe. Não se encontra nos bilíngues e nos bifrontes que não têm um rosto e uma palavra só. Nem na redução e exaltação do papa a personagem midiático para encobrir a inércia de esquemas e domínios pessoais. Mas naqueles que, deixando-se reformar pelo encontro com Cristo, estão dispostos a segui-lo sem condições pelas estradas atuais do seu Evangelho. Como servos de Deus, nem serviçais e nem donos da verdade.

Assim, a conversão pastoral, hoje como então, concerne principalmente às atitudes e a uma reforma da vida, “recordando que ‘pastoral’ nada mais é do que o exercício da maternidade da Igreja”.

No discurso proferido no Celam em 2013, retornando como pontífice para Aparecida, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, e focando os pontos-chave daquele evento – em um discurso que, em síntese, antecipava o que, depois, seria desenvolvido na Evangelii gaudium Bergoglio colocava bem claro quais eram as tentações que podem se camuflar na dinâmica missionária e frear um processo de conversão pastoral: da ideologização da mensagem evangélica à doença do clericalismo, e expunha os critérios eclesiológicos do discipulado-missionário.

Seguiam perguntas-guia para examinar o estado das dioceses na assunção do espírito de Aparecida, “perguntas que, como bispos, convém que nos façamos frequentemente como exame de consciência”, disse.

Que são estas e sempre atuais: “Quem é o principal beneficiário do trabalho eclesial, a Igreja como organização ou o povo de Deus em sua totalidade? Promovemos espaços e ocasiões para manifestar a misericórdia de Deus? Na prática, oferecemos a Palavra de Deus e os sacramentos com a clara consciência e convicção de que o Espírito se manifesta neles? Somos ainda uma Igreja de pais e mães capazes de aquecer e acender o coração? Que acompanha o caminho, colocando-se a caminho com as pessoas? Capaz de ir além da simples escuta? Capaz de decifrar a noite contida na fuga de tantos irmãos e irmãs? Acompanhamo-los, superando qualquer tentação de manipulação ou de submissão indevida?”.

Na assembleia dos bispos reunida então no Rio de Janeiro, ele dizia ainda que “não basta um líder nacional; é preciso uma rede de ‘testemunhos’ regionais, que, falando a mesma linguagem, assegurem em todos os lugares, não a unanimidade, mas a verdadeira unidade na riqueza da diversidade”.

E aqui, ainda, a referência ao modo de receber a diversidade de Aparecida: “Não tanto a diversidade de ideias para produzir documentos e agigantar estruturas, mas a variedade de experiências de Deus para pôr em movimento uma dinâmica vital e uma verdadeira comunhão”, “tela” a ser “tecida e engrossada”, “com paciência e perseverança”, porque “um cobertor só com poucos fios de lã não aquece”.

Sobre o hoje de Aparecida, não se mede a força de um pontificado, porque a Igreja não é feita pelo papa, mas sim pela atração despertada pelo horizonte e pela coragem de todos os verdadeiros discípulos de Cristo, “no mínimo de estruturas para o máximo de vida”.

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