Autoridade do Vaticano diz que a saída de Trump do Acordo de Paris é um 'tapa na cara'

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02 Junho 2017

O bispo argentino Marcelo Sánchez Sorondo, chefe da Academia de Ciências do Vaticano, disse que se o presidente Donald Trump realmente retirar os Estados Unidos do acordo de Paris sobre mudanças climáticas, assinado em dezembro de 2015, "será um desastre para todos" e também um "tapa na cara" do Vaticano.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 01-06-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Um dos colaboradores mais próximos do Papa Francisco na luta do Vaticano contra a mudança climática considerou o plano do presidente Donald Trump de deixar o acordo de Paris um "desastre" e um "tapa na cara do Vaticano".

O bispo argentino Marcelo Sánchez Sorondo, Chanceler da Pontifícia Academia de Ciências e da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, disse que se Trump retirar os Estados Unidos do acordo de Paris, assinado em dezembro de 2015, "será um desastre para todos. Não há muito mais o que dizer."

Sorondo foi citado pelo jornal italiano La Repubblica em seu retorno de uma reunião de cúpula da ONU sobre as mudanças climáticas.

"Não sei sobre o que Trump e o Papa conversaram", disse Sorondo. "Mas não acredito que tenham se detido muito no clima. No entanto, sei que o presidente dos Estados Unidos falou sobre isso na conversa que teve com o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano."

Nesse sentido, segundo o bispo, a saída de Trump dos acordos seria "um tapa na cara para nós também", referindo-se ao Vaticano.

O Presidente dos Estados Unidos vem falando sobre sair do acordo de Paris há algum tempo e, segundo Sorondo, isso deve-se ao "lobby do petróleo".

Não reconhecer que não é necessário nem indispensável depender do carbono e do petróleo "é como dizer que a Terra não é redonda", disse ele.

"É um absurdo, e deve-se somente à necessidade de ganhar dinheiro," afirmou Sorondo. "De qualquer modo, é preciso dizer que, infelizmente, [o presidente Barack] Obama tem sua parcela de culpa nesta situação."

Perguntado o que ele quis dizer, o bispo disse que Obama tomou novas decisões sobre mudanças climáticas por decreto presidencial, o que permitiu que seu sucessor mudasse tudo.

"Este é o problema", disse ele. "Hoje, Trump pode, em um dia, mudar as cartas na mesa, prejudicando muitos e favorecendo o lobby do petróleo, porque ninguém interveio de maneira mais incisiva e a longo prazo antes."

No entanto, nem todo mundo na indústria petrolífera ganha com a saída do acordo de Paris. O diretor da Exxon Mobil, Daren W. Woods, escreveu recentemente que seria prudente permanecer no acordo.

"Ao expandir os mercados para tecnologias inovadoras limpas, o acordo gera empregos e crescimento econômico. As empresas dos EUA estão bem posicionadas para liderar esses mercados", escreveu um representante de gigantes corporativos em anúncios enormes que circularam recentemente no New York Times, The New York Post and The Wall Street Journal.

Trump deve revelar sua decisão sobre o acordo de Paris na quinta-feira, às 15h EST, conforme aviso nas redes sociais.

O bispo Oscar Cantú de Las Cruces, presidente do Comitê Internacional de Justiça e Paz da USCCB, insistiu que o presidente não saísse do acordo.

"A Conferência dos bispos católicos dos Estados Unidos (USCCB) oficialmente apoia ações prudentes em prol da diminuição dos piores impactos das mudanças climáticas", disse Cantú em um comunicado.

"Nossa conferência dos Bispos promove vigorosamente o ensino de nosso Santo Padre, o Papa Francisco, sobre os cuidados para a nossa casa comum", acrescentou Cantú. "A carta encíclica do Santo Padre, Laudato si’, foi elaborada a fim de solicitar que as nações do mundo trabalhem juntas em Paris em prol de um acordo que proteja o nosso povo e o nosso planeta. Esperamos que os Estados Unidos respeitem o compromisso que assumiram".

O Acordo de Paris foi um acordo histórico assinado pela maioria dos países do mundo em dezembro de 2015.

O objetivo do acordo, assinado por 195 nações, durante a cúpula conhecida como COP21, é reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa em cerca de metade do necessário para evitar um aumento nas temperaturas atmosféricas de 2°C ou 3,6°F.

Estudos científicos sugerem que esse é o ponto em que o mundo ficará preso em consequências devastadoras, incluindo o aumento do nível do mar, secas e inundações severas, falta generalizada de alimentos e de água e tempestades ainda mais destrutivas.

O acordo é em partes voluntário e em partes juridicamente vinculativo e entra em vigor em 2020.

Mesmo antes do acordo de Paris ser assinado, o Vaticano era líder em preocupação ambiental. O Papa Emérito Bento XVI, o "Papa ecológico", instalou painéis solares que produzem grande parte da energia utilizada no Vaticano e usa um carro elétrico desde sua aposentadoria.

Estas medidas se intensificaram ainda mais depois que Francisco assumiu o papado.

Ele apoiou abertamente o acordo de Paris e queria ter certeza de que seu documento sobre o meio ambiente, Laudato Si', fosse lançado a tempo de influenciá-lo. Quando Trump visitou Francisco no Vaticano na semana passada, ele recebeu muitos documentos do Papa, como esse.

No entanto, Roma divulgou uma declaração sobre o encontro que dizia que os dois tinham conversado sobre um dos assuntos sobre o qual Francisco e Trump não compartilham da mesma opinião, a imigração, mas as mudanças climáticas não foram mencionadas.

Logo após a assinatura do Acordo de Paris, Francisco o elogiou, dizendo que era um acordo "histórico" durante a oração dominical do Angelus: "Sua implementação exigirá compromisso unânime e uma generosa dedicação de todos", declarou o pontífice.

Ele também insistiu para que a comunidade internacional "fique especialmente atenta às populações mais vulneráveis" e "continue caminhando com cuidado e com um senso de solidariedade cada vez maior."

Em novembro, a poucos dias da abertura da conferência de Paris, de 30 de novembro a 11 de dezembro, Francisco disse que se o COP21 falhasse, seria "catastrófico".

"Seria triste, e ouso dizer até mesmo catastrófico, se interesses particulares prevalecessem sobre o bem comum e informações fossem manipuladas para proteger seus próprios planos e projetos", disse o Papa na sede do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente em Nairóbi, no Quênia.

Embora Sorondo seja a primeira autoridade do Vaticano a falar oficialmente sobre a possibilidade de Trump deixar o Acordo de Paris, ele não foi o primeiro a falar sobre sua atitude de negação das mudanças climáticas.

Falando especificamente sobre isso, o Cardeal Peter Turkson, de Gana, disse em março que se Trump não ouvir as "vozes dissidentes" - como as da hierarquia Católica - e não repensar seu posicionamento sobre este assunto, os Estados Unidos podem ser ultrapassados pela China na liderança da proteção ambiental.

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