Mali. O arcebispo de Bamako, nomeado recentemente cardeal, escondeu milhões de euros na Suíça

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01 Junho 2017

Os documentos da investigação jornalística SwissLeaks revelam sete contas bancárias da Conferência Episcopal do Mali no HSBC em Genebra.

A reportagem é de David Dembélé, publicada por Le Monde, 31-05-2017. A tradução é de André Langer.

Tudo começa no dia 25 de novembro de 2002, às 9h, no Crédit Lyonnais de Mônaco. Nesse dia, são abertas, com toda discrição, sete contas bancárias para a Conferência Episcopal do Mali (CEM). Os documentos do SwissLeaks revelam para essas contas códigos IBAN próprios para a Suíça, que começam por CH, a exemplo do primeiro: CH18 0868 9050 9118 1503 0.

Essas contas tinham créditos de 12 milhões de euros em 2007, data dos últimos extratos bancários do HSBC Private Bank em Genebra que foram encontrados em 2014 pelo Le Monde e pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ).

O trio de líderes cristãos do Mali

Esta história rocambolesca mistura falta de transparência, encontros secretos entre o clero malês e banqueiros suíços e suspeitas de fraude em um país em que os cristãos não representam mais que 2,4% dos 17 milhões de habitantes. Ela envolve os três dirigentes mais altos na época da Conferência Episcopal do Mali, a começar por dom Jean Zerbo, de 73 anos, arcebispo de Bamako, encarregado das finanças da CEM na época. Ele acaba de ser elevado, no dia 21 de maio de 2017, ao cargo de cardeal pelo Papa Francisco. O consistório, cerimônia oficial durante a qual cinco eclesiásticos serão criados cardeais, será no dia 28 de junho próximo. Os outros protagonistas são: Jean-Gabriel Diarra, 71 anos, bispo de San e ex-presidente da conferência católica de bispos do Mali, e Cyprien Dakouo, 60 anos, secretário-geral da Conferência Episcopal do Mali desde 2004.

No começo de 2015, quando eclode o escândalo SwissLeaks, publicado pelo Le Monde e mais de 60 meios de comunicação internacionais, coordenado pelo ICIJ, outros malineses e banqueiros são identificados nos documentos do HSBC, como o industrial Gérard Achcar ou o homem de negócios Modibo Keïta. Mas as contas na Suíça dos três mais altos dirigentes do episcopado malinês na época passaram despercebidas. De onde vêm os 12 milhões de euros? Será que são as doações dos fiéis malineses que dormem em um banco suíço?

Antes de aterrissar no HSBC, as problemáticas contas da Conferência Episcopal do Mali viajaram. Do Crédit Lyonnais do Rocher foram parar no Crédit Agricole após a compra do primeiro pelo segundo. Depois, do Crédit Agricole para o Crédit Foncier, que virou CEFM Indosuez Wealth, que depois virou filial do HSBC Private Bank em Genebra.

De acordo com arquivos internos do HSBC, dois banqueiros encontraram-se frequentemente com os três líderes católicos malineses, entre os quais está Nen Khieu, responsável pela gestão de ativos de renda fixa no HSBC entre 2000 e 2009, hoje na presidência do gabinete de gestão de fortuna KBR Advisors SA em Genebra, especializado na clientela cambojana e cujo perfil Linkedin o descreve como tendo “uma sólida experiência com clientes”, assim como de “grandes competências analíticas”.

Os banqueiros se esfregam as mãos

De 29 de setembro a 28 de outubro de 2005, ele e um dos seus colegas estiveram pelo menos três vezes em Bamako com os senhores Zerbo, Diarra e Dakouo, que aparece como o mais preocupado do três com a gestão das sete contas abertas em nome da Conferência Episcopal do Mali – mesmo se os documentos do HSBC de 2006 e 2007 revelam os códigos dos clientes para cada um dos três líderes religiosos e testemunham uma distribuição igual entre eles dos 12 milhões de euros.

Durante esses encontros, os banqueiros e os prelados põem-se de acordo sobre a taxa de remuneração desses ativos: “5%” de juros, segundo os documentos confidenciais aos quais tivemos acesso. Os dois banqueiros se esfregam as mãos em sua correspondência: “a boa gestão da carteira nos permitirá obter um aumento de recursos”.

Dessas reuniões também fica claro que “a arquidiocese e as paróquias estão de acordo” para confiar a gestão de uma parte da carteira ao banco, assim como a destinação de “50% da carteira para otimizar a rentabilidade”. Informações que deixam os paroquianos de Bamako que nós consultamos espantados. “Nós nunca fomos informados sobre tais operações da Conferência Episcopal do Mali”, disse um corista da paróquia da catedral.

Um líder da juventude cristã do lado direito de Bamako se revolta: “existe uma grande falta de transparência na gestão dos recursos da nossa Igreja. Isso acontece há anos. E isso começa a nos preocupar. Aproveitando-se da extrema passividade dos fiéis, eles se permitem tudo e não prestam contas a ninguém”.

Essa falta de transparência não surpreende nenhum pouco um alto responsável da comunidade católica do Mali. “Isso continua um grande desafio para a Igreja, apesar de haver uma recomendação do Concílio Vaticano II que quer que os fiéis sejam associados à gestão dos recursos da Igreja”, afirma esse interlocutor – que não quer ser identificado – e que disse ainda ter sido informado sobre essas transferências para a Suíça. Por sua vez, uma pessoa próxima ao ex-pároco de Sikasso admite: “eu me lembro que Cyprien Dakouo recebia dinheiro do CFM Mônaco”. A falta de transparência sobre a origem e a gestão desses fundos parece, portanto, ter provocado tensões entre os cristãos do Mali. Em 2012, Cyprien Dakouo foi destituído de suas funções e deixou o país “na ponta dos pés”, segundo muitas testemunhas.

Contas sempre ativas

Acontece que essas contas continuam ativas no HSBC Private Bank em Genebra, que não quis responder às nossas perguntas. É o que indica uma simulação feita por nós de uma transferência de dinheiro para dois dos sete números de identificação bancária. E, no entanto, é impossível encontrar vestígios desse dinheiro na contabilidade da Conferência Episcopal do Mali. O atual encarregado pelas finanças, o abade Noël Somboro, desconversa: “Eu não tenho vontade de escarafunchar os arquivos para saber de onde vem o dinheiro ou para saber se as contas ainda existem. Eu não tenho esse tempo”.

Na sequência, ele solta uma frase surpreendente para um profissional das finanças: “eu ignoro o que é uma conta offshore ou se a Suíça é considerada um paraíso fiscal. Além do mais, nós temos contas bancárias em todos os lugares”. Ele acrescenta: “É possível que essas contas tenham existido, mas eu não as rastreei”. Noël recusou-se a fornecer quaisquer informações sobre o patrimônio da Igreja e não quer mais se pronunciar sobre a declaração ou não dessas somas ao fisco malinês. Ele também compara esses fundos ao “código nuclear” que a França guarda sob sete chaves.

Mathias Konaté, responsável pela legislação fiscal na Direção Geral dos Impostos têm certeza: “não existe nenhuma conta em nome da Conferência Episcopal do Mali na Suíça declarada ao fisco malinês”, disse.

Na capital malinesa, os protagonistas fogem das perguntas. No sábado, 14 de maio, às 7h, após várias tentativas frustradas, nós esperamos o fim da missa do cardeal Jean Zerbo para lhe fazer algumas perguntas. Surpreso, ele ironiza: “eu, conta na Suíça? Então eu sou rico sem mesmo saber!” Diante dos elementos de prova fornecidos, ele tenta uma explicação: “é uma conta antiga. Trata-se de um sistema que nós herdamos da Ordem dos Missionários da África, gerido pela Igreja”. Acrescentando, no entanto, nunca ter aberto uma “conta pessoal” no exterior, porque era “fonte de problemas”.

Dom Jean Gabriel Diarra, presidente da Conferência Episcopal do Mali na época em aconteceram os fatos, nega-se a responder às nossas solicitações. Quanto a Cyprien Dakouo, ele mora na França desde o seu afastamento, em 2012. O ex-braço direito dos bispos de Mali entrou, em 2013, na unidade Economia e Administração da Universidade de Lille 1, onde deve defender, até junho de 2017, uma tese em Economia. Entre seus temas de competência, o sítio da universidade menciona a ética dos negócios. Cyprien Dakouo também não quis responder às nossas perguntas.

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