Pós-religião? Na França, ganham força os "jovens fanáticos"

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19 Maio 2017

Jovens fanáticos que reivindicam a própria fé. Com orgulho, entenda-se. O Le Monde talvez seja um pouco depreciativo ao descrever o retorno ao religioso na França, onde o que era sagrado, nas últimas décadas, era a laïcité. Alguma coisa mudou. Quem diz isso são os indicadores numéricos, elaborações de estatísticas de autoridade e – acima de tudo – as massas de jovens que não têm escrúpulos ao exibirem símbolos da própria fé, que frequentam as igrejas e fazem peregrinações.

A reportagem é de Matteo Matzuzzi, publicada no jornal Il Foglio, 18-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Que fique claro: trata-se sempre de uma minoria (criativa). Os jovens que se definem como crentes estão sempre abaixo dos 50% da população. Mas, entre os muito jovens (dos 18 aos 29 anos), os crentes sobem para 53%. Apenas nove anos atrás, eles eram 34%.

Um acréscimo necessário: não são apenas muçulmanos, já que 42% dos “crentes” são católicos. Uma bela mudança de curso, se considerarmos que, no fim do século passado, o cristianismo era dado como agonizante na terra das catedrais. Era a “grande era da pós-religião”, lembra o Le Monde: “Todas as pesquisas e as investigações afirmavam que as igrejas estavam vazias, que os jovens não acreditavam mais e que os pais não transmitiam (ou faziam isso muito pouco) aos seus filhos o patrimônio religioso. Dizia-se que o budismo e as filosofias Nova Era estavam substituindo o monoteísmo ocidental”.

Em suma, na aurora do novo milênio, olhava-se com temor para a profecia apócrifa de André Malraux, segundo a qual “o século XXI será espiritual ou não será”.

Vinte anos depois do oráculo sinistro, observa o jornal progressista francês, estamos “na ostentação” da própria fé. “Socorro, Jesus está voltando!”, era a manchete do Libération em novembro passado. Na televisão, os políticos exibiam cruzes no pescoço. Durante a campanha presidencial, mais de um candidato falou sobre a fé e sobre a sua educação cristã.

“Nos debates – informa o Le Monde – foi até invocada a revisão da lei de 1905 sobre a separação entre Igreja e Estado.” Sem falar, no fim da campanha, das visitas às catedrais (até em Reims, onde os reis eram ungidos). “Em um país onde não ser filiado a nenhuma religião é até banal demais, o fato de ser crente ou de reivindicar uma dimensão religiosa significa ser não conformista. Deus não está mais relegado à esfera privada”, ressalta a reportagem do jornal parisiense.

E não se trata apenas de sair às ruas, brandindo bandeiras cruzadas para reconquistar um espaço público aniquilado antes da revolução antropológica, social, histórica e política. Em suma, há mais coisas além da batalha contra o mariage pour tous.

Os jovens de hoje, aqueles que leem a página do Facebook do Abbé Grosjean e que consideram a exasperação laicista como um óvni e que organizam vigílias de oração noturna em algum santuário do país, não têm superestruturas sociológicas que dominaram as gerações anteriores, que cresceram a pão e laicidade exasperada, reduzindo o ser crente a ser algo pessoal, e a participação nos ritos, a uma espécie de hobby como o bridge ou o cinema d’essai.

“A relação dos jovens com a religião manifesta uma mudança de paradigma entre a religião e a modernidade”, disse o sociólogo das religiões Jean-Paul Willaime, acrescentando que “mais modernidade não significa menos religião”. Ao contrário, “na religião, busca-se uma dimensão relevante da própria personalidade, o modo de estar em uma sociedade que não é mais tão cheia de significado”.

Os jovens de hoje, “em comparação com a geração dos anos 1970 – continua Willaime – que foram ‘socializados religiosamente’, não têm uma atitude de rejeição da religião. Eles não têm uma educação para se rebelar contra. A fé os fascina, faz-lhes perguntas. E, se os jovens são mais religiosos, eles são mais engajados, mais visíveis, mais coerentes”. Em suma, reivindicando a própria pertença religiosa, eles “reivindicam a sua liberdade pessoal”.

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