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19 Maio 2017

No silêncio absoluto do mosteiro, sente-se, de repente, o ding-dong de uma notificação. “Desculpem, acho que recebi uma mensagem no WhatsApp. Ou alguém escreveu na página do convento no Facebook.” A Ir. Maria Caterina desativa com um toque os sons do seu smartphone e não se apressa para ler: “Vou responder mais tarde. Digamos que o tempo à disposição não me falta. Eu e as minhas coirmãs respondemos a todos, porque as novas tecnologias são preciosas para fazer chegar longe a nossa mensagem e para dar a conhecer a muita gente como se desenrola a vida em clausura. Não é impossível que alguém possa encontrar a vocação no Facebook.”

A reportagem é de Nicola Pinna, publicada no jornal La Stampa, 18-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No velho e modesto convento de Santa Clara, as grades de ferro estão fechadas desde 1300. As freiras recebem visitas apenas por algumas horas por dia, dialogam com os hóspedes através da antiga roda de madeira e raramente se apresentam em um parlatório mal iluminado. As regras do isolamento e da meditação são todas rigorosamente respeitadas. Os dias transcorrem sempre do mesmo modo, entre oração, costura, jardinagem, cozinha e repouso.

A Ir. Immacolata, a Ir. Rosaria e as outras oito coirmãs nunca põem o nariz para fora do portão de madeira, mas, há algumas semanas, foram mais longe do que jamais imaginariam. Bastou um computador, e, depois de tantos séculos, desintegrou-se a barreira impenetrável que separava o silêncio do mosteiro do mundo barulhento que corre veloz a poucos passos.

A Ir. Maria Caterina é a mais jovem, é uma espécie de “digital manager” da pobre família das Clarissas: alguns, em Oristano, já a apelidaram de “Ir. Google”.

Para a vida do convento, foi uma pequena revolução digital, e, em poucas semanas, 17.000 pessoas ativaram um contato diário com as freiras. “O fato de termos escolhido viver em clausura não exclui que possamos nos manter no ritmo dos tempos: digamos que isso não é contrário aos nossos princípios. Na realidade, o objetivo é simplesmente o de nos fazer conhecer, de fazer com que saibam onde estamos e como vivemos. Usar o computador ou o smartphone, estar atualizada sobre o que acontece lá fora e conhecer a linguagem que as outras pessoas usam, é de grande ajuda para dialogar com quem vem nos visitar ou com quem nos pede ajuda. Não era possível encontrar os estudantes e não saber o que era um selfie: descobrimos vendo televisão”.

O convento “social” já se orgulha dos seus muitos seguidores, mas o que ninguém esperava é que freiras de clausura fizessem pose. Poucos, antes, tinham visto os seus rostos. Nas fotos, ao contrário, estão todas. E, aproveitando a curiosidade que essa bela galeria (realizada pelo fotógrafo Gabriele Calvisi) despertou, as Clarissas de Oristano decidiram iniciar uma inédita coleta de fundos.

“A nossa vida se sustenta apenas com as miseráveis pensões das mais idosas e graças às doações dos moradores de Oristano”, conta a Ir. Chiara, a abadessa do convento. “Manter a estrutura, fazer os trabalhos que permitam salvaguardar um edifício histórico entre os mais importantes da cidade envolve despesas que não seríamos capazes de sustentar. Justamente por isso, aderimos ao projeto.”

As fotos das freiras, feitas com discrição em todos os momentos do dia, acabaram em uma exposição e também se tornaram elegantes cartões postais, pequenas obras de arte, que poderão ser compradas. Obviamente, na internet, no site ou na página do convento no Facebook.

Enquanto todos se admiram com a incursão digital das freiras, dentro do convento, tudo ocorre com a calma de sempre. A Ir. Maria Teresa tem 95 anos e vive atrás da grade desde quando ainda não havia carros na cidade. A Ir. Maria Nives e a Ir. Gesuina passam as manhãs na pequena alfaiataria, e a Ir. Chiara Rosaria cuida das duas coirmãs idosas em cadeira de rodas.

“Para além desses compromissos, o nosso tempo é totalmente dedicado à oração”, conta a Ir. Maria Caterina. “Rezamos pelos outros, não por nós mesmas. Pensamos naquilo que acontece lá fora, invocamos a intervenção de Deus para quem quer que o peça, mas também por situações que parecem muito distantes. Rezamos para que a Síria encontre a paz e pedimos ao Senhor que a França pudesse enfrentar as eleições sem mais derramamento de sangue. Agora, pensamos também na nossa cidade, que se prepara para escolher o novo prefeito. Eu, mas sem confessar isto às outras, por favor, também rezo para a Juventus ganhe a Liga dos Campeões. Uma freira torcedora não merece a excomunhão.”

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