Fátima segundo Francisco. Artigo de Alberto Melloni

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16 Maio 2017

“Em Fátima, Francisco se confrontou com a religiosidade popular. Que merece respeito se e quando alimenta a vida cristã, e que alimenta a vida cristã se e quando é rememoração do Evangelho.”

A opinião é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha.

O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 14-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A viagem a Fátima colocava o papa diante de uma escolha. No lugar de uma devoção muitas vezes usada politicamente em sentido anticomunista, havia aqueles que esperavam que Bergoglio abandonasse a sua teologia da história. De fato, Francisco contempla o sofrimento dos inocentes como o ápice evangélico no qual o coração do homem decide entre a indiferença e a comunhão com o Cristo pobre. Enquanto a devoção dos “segredos” sempre tinha valorizado Fátima como o lugar que colocava no centro as ameaças contra a Igreja.

Uma leitura que ia de Pio XII, consagrado bispo precisamente em 13 de maio de 1917, a João Paulo II, que pensou ter sido salvo no atentado de 13 de maio de 1981, com a escolta dos “segredos” que Ratzinger teria redimensionado como revelações privadas e que, portanto, a Igreja reconhece sem obrigar ninguém a crer nelas.

Para além dos delírios do pequeno mas barulhento mundo antibergogliano que levanta a hipótese do quarto segredo sobre o “papa herético” (obviamente Bergoglio, para eles), era com essas duas visões da história que Francisco devia se confrontar em Fátima. E ele o fez com a sua sólida piedade mariana. E com a sua teologia do povo: aquela que vê na religiosidade popular um sensus fidei que vai além dos traços às vezes arcaicos dessas devoções e aponta para um núcleo de fé.

Assim, usando a citada leitura de Ratzinger do início século, ele viu no ícone apocalíptico do bispo perseguido pelos algozes não um vaticínio do destino do papa polonês, mas um convite a ler a expectativa de paz. A pessoa do papa e o papado passaram para segundo plano. Para aqueles que lembravam que foi justamente no dia de Fátima de 25 anos atrás que foi anunciado o seu episcopado, ele disse que pensou nisso apenas nesse domingo.

A sua segurança, na cidade que leva o nome da quarta filha do Profeta, foi gerida sem paranoias e sem tabus: porque quem tem “o olhar de Magalhães”, como disse o cardeal Parolin, falando da política externa de Francisco, também sabe que foi Pigafetta, de Vincenza, que levou a termo a viagem depois da morte do almirante.

Francisco, em suma, não se confrontou com o seu destino ou o de outros, mas com a religiosidade popular. Que merece respeito se e quando alimenta a vida cristã, e que alimenta a vida cristã se e quando é rememoração do Evangelho.

A partir de Fátima, o papa testou, assim, o registro de uma encíclica sobre a religiosidade popular sobre a qual se fala pelo menos desde que passou para ele a decisão sobre as aparições de Medjugorje: sobre elas, há aqueles que querem distinguir entre as primeiras aparições e a sua serialidade, mas o papa sabe muito bem que alguns esperam por um “não” seu, para colocá-lo não mais contra quatro cardeais cheios de dubia, mas sim um povo.

E, em Fátima, ele também testou os temas de uma possível encíclica sobre a paz: que poderia se inspirar na “Nota às potências beligerantes”, de Bento XV, que, há exatos 100 anos, definiu a guerra como “inútil massacre”: não seria um tratado moral contra a guerra, mas uma leitura da história segundo o Evangelho.

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