Papa Francisco no Egito: por que o ecumenismo é necessário. Artigo de Massimo Faggioli

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09 Maio 2017

“A visita de Francisco ao Egito confirmou a natureza complexa da dimensão ecumênica deste pontificado. O ecumenismo de Francisco está desafiando diversos tipos de católicos, certamente não menos do que os cristãos não católicos.”

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado no sítio Public Orthodoxy, 05-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A viagem do Papa Francisco ao Egito (28-29 de abril de 2017) foi uma das mais importantes e difíceis desse pontificado, dada a situação política internacional e as dificuldades dos cristãos coptas no Egito e de todos os cristãos entre a África e o Oriente Médio. Não é fácil olhar para essa viagem através de uma única lente interpretativa, e, portanto, ela requer a tentativa de lê-la no contexto do pontificado.

Um primeiro nível foi a viagem de Francisco como expressão do magistério moderno do papa da Igreja Católica sobre a relação entre a religião como “defensora” dos direitos humanos e dos direitos políticos em uma época de evidente crise da fé não apenas em Deus, mas também nos nossos semelhantes humanos – a crise da democracia.

De modo interessante, em seu discurso ao “homem forte” do Egito, o general Al-Sisi, e às autoridades políticas, Francisco citou a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, mas também a Constituição egípcia de 2014, dando um lembrete contundente às autoridades políticas egípcias: “Temos o dever de afirmar juntos que a história não perdoa aqueles que proclamam a justiça e praticam a injustiça”. Francisco andou sobre uma linha muito fina entre a necessidade de evitar a impressão de uma bênção papal ao regime pós-islamista de Al-Sisi no Egito, mais amigável aos cristãos do que o breve período de Morsi, de um lado, e, de outro, a necessidade de não se calar diante do registro perturbador do atual regime em termos de respeito aos direitos democráticos e à liberdade.

O segundo nível foram as relações inter-religiosas. O Papa Francisco teve que lidar com o difícil legado do discurso de Regensburg de Bento XVI em 2006, que era um exemplo típico das recepções divididas e mutuamente opostas e profundamente equivocadas e ideológicas dos pronunciamentos públicos mais importantes de Ratzinger (semelhante ao que aconteceu com o famoso discurso sobre as “duas hermenêuticas do Vaticano II” de dezembro de 2005).

Para os católicos “ocidentalistas” linhas-duras, o discurso de Regensburg era o “padrão de ouro” da resposta católica ao Islã, enquanto, para alguns muçulmanos, foi a manifestação da mentalidade de cruzada do Vaticano. Apesar das tentativas de enquadrar a resposta de Bergoglio ao convite à Conferência da Paz organizada pela Al-Azhar como o “discurso de Regensburg de Francisco, o tom e o conteúdo foram significativamente diferentes.

No seu discurso à Conferência Internacional sobre a Paz de Al-Azhar, Francisco citou o Concílio Vaticano II (a declaração Nostra aetate sobre as religiões não cristãs e a constituição Gaudium et spes sobre a Igreja no mundo moderno) e as visitas de João Paulo II ao Egito no ano 2000 e o primeiro encontro inter-religioso de oração em Assis em 1986.

Há, então, o terceiro nível das relações ecumênicas e eclesiais, em que as relações intracatólicas e as relações intercristãs estão mais interligadas do que antes. Há aspectos técnicos da sua visita e do acordo com o Papa Tawadros II que terão que ser avaliados ao longo do tempo, especialmente sobre o rebatismo: “Hoje nós, Papa Francisco e Papa Tawadros II, para alegrar o coração do Senhor Jesus, assim como os corações dos nossos filhos e filhas na fé, declaramos mutuamente que, com uma só mente e coração, procuraremos sinceramente não repetir o Batismo administrado em uma das nossas Igrejas a alguém que deseje juntar-se à outra”. A esse respeito, o Papa Tawadros também tem que lidar com as “dubia” levantadas por toda a mídia por parte dos seus adversários.

O mais importante é que a visita de Francisco ao Egito confirmou a natureza complexa da dimensão ecumênica deste pontificado, na qual podemos ver três tipos de ecumenismo. O primeiro ecumenismo é o das relações bilaterais entre Igrejas: comissões de teólogos e prelados que discutem documentos que as Igrejas terão que aprovar ou rejeitar, ou aprovar e colocar em uma gaveta. Francisco vê um papel para esse ecumenismo das comissões bilaterais e das declarações conjuntas oficiais, mas sem ser impulsionado ou vinculado por esse tipo de relação, que é típica do ecumenismo do período pós-Vaticano II e que trouxe frutos significativos, especialmente com base nas relações da Igreja Católica com os luteranos, os anglicanos e os ortodoxos, mas também com as Igrejas não calcedonianas (a Declaração Comum do Papa Paulo VI e do Papa de Alexandria Shenouda III de 1973).

Francisco está ciente dos diferentes papéis dos diálogos ecumênicos oficiais e do diálogo ecumênico que está relacionado com a sua “eclesiologia do povo”: uma eclesiologia do povo dotado de uma infallibilitas in credendo (exortação Evangelii gaudium de 24 de novembro de 2013, n. 119) – a infalibilidade das pessoas nos fundamentos da sua fé.

As relações ecumênicas entre Igrejas diferentes precisam de atos solenes e de textos oficiais, mas, sem a recepção deles pelo povo, eles não teriam sentido. Francisco sabe que o ecumenismo pós-Vaticano II tem sido feito e recebido pelos fiéis leigos, e que não há nenhuma rediscussão hermenêutica do Vaticano II que possa parar esse progresso.

Depois, há um segundo tipo de ecumenismo, sobre o qual Francisco falou muitas vezes: o “ecumenismo do sangue” (desde o início do seu pontificado: veja-se a sua entrevista com Andrea Tornielli, do jornal italiano La Stampa, 14 de dezembro de 2013), a irmandade de cristãos de todas as Igrejas e tradições teológicas diante das perseguições, especialmente no Oriente Médio, África e Ásia. Nesse sentido, é significativo que o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I tenha se unido a Francisco no Egito, em uma demonstração de solidariedade com os cristãos coptas.

O martírio como fonte teológica está redefinindo o ecumenismo, mais do que os sistemas teológicos e eclesiásticos no Ocidente possam compreender. A questão dos refugiados que escapam à perseguição é uma questão humanitária e política, mas também uma questão inter-religiosa e ecumênica. Das discussões sobre a “hospitalidade eucarística” (dar a comunhão aos cristãos que são membros de outra Igreja, não católica-romana), passamos para o problema da hospitalidade tout court daqueles que (incluindo muitos cristãos, católicos ou não) fogem da morte e da destruição: não é uma questão teologicamente menos relevante do que a da comunhão eucarística. O cristianismo, agora, é posto à prova mais pela sua resposta à crise humanitária de hoje do que pelos obstáculos dogmáticos à plena comunhão entre as Igrejas.

Finalmente, há o terceiro tipo de ecumenismo, o mais difícil de se falar na Igreja Católica, pois é o mais difícil e delicado: o ecumenismo intracatólico, entre católicos de devoções e “obediências” diferentes e identidades idiossincráticas. Francisco insistentemente chamou ao diálogo e à rejeição do sectarismo entre Igrejas, mas também dentro da Igreja Católica. Francisco repetidamente apelou aos vários movimentos católicos para coexistirem nas Igrejas locais sem a tentação de ocupar espaços ou de reivindicar direitos de primogenitura.

A sua viagem ao Egito foi um poderoso lembrete contra a tentação católica de ver o cristianismo através de uma lente Ocidente contra Oriente: foi uma mensagem sutil contra a “orientalização” católica das Igrejas orientais – a tentação de ver nelas algo como um museu do cristianismo exótico, pré-moderno e antimoderno –, assim como contra a sua “ocidentalização” católica – o catolicismo como uma religião essencialmente ocidental. Nesse sentido, o ecumenismo de Francisco está desafiando diversos tipos de católicos, certamente não menos do que os cristãos não católicos.

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