A recessão e uma conversa de bêbado

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20 Março 2017

“A concorrência nos mercados industriais está marcada por características que não guardam qualquer semelhança com as superstições dos bobos alegres da globalização. Nesse jogo só entra quem tem cacife tecnológico, poder financeiro e amparo político dos Estados Nacionais. O resto está na arquibancada, batendo palmas”, constata Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, em artigo publicado por CartaCapital, 20-03-2017.

Eis o artigo.

As manchetes proclamam a pior recessão da história. Despois do tombo de 3,85% em 2015, o PIB de Pindorama afundou mais 3,6% em 2016. A tigrada que recomendou o ajuste executa seus contorcionismos para aplacar a falsidade da consciência. Vou deixá-los entregues a seus exorcismos de almas penadas para tratar das razões que entendo cruciais para o entendimento da longa decadência da economia brasileira.

Começo com a perda de dinamismo da indústria.

Desde a crise da dívida externa dos anos 80 do século XX, os bem-falantes tocam o realejo da abertura da economia: “Vamos expor a indústria aos ventos benfazejos da globalização”.

A alma dos frequentadores de Miami alegra-se, os mauricinhos estremecem de excitação: já se veem sentados numa BMW último tipo, deslizando pelas ruas esburacadas das metrópoles africanizadas do nosso querido Brasil. Enquanto os bacanas se refestelam, a ninguenzada dos 12 milhões de desempregados toma ferro.

Quase todos concordam que, na era das cadeias globais, é preciso renovar as formas de financiamento, as modalidades de incentivo e as estratégias de proteção.

Nos últimos 20 anos, na contramão da experiência asiática, os sabichões do pedaço promoveram a desarticulação dos nexos entre empresas públicas e empresas privadas, o que imobilizou a capacidade de coordenação, planejamento e indução do Estado.

Não está na agenda perdida dos microrreformistas imaginar como seriam construídas as novas instituições financeiras, pensar como seria executada a reforma fiscal ou dar tratos à bola para estabelecer uma nova relação entre o Estado e o setor privado. Isso, para não falar da sintonia delicada entre a política de comércio exterior e a estratégia de crescimento e modernização da indústria brasileira.

O governo e seus porta-vozes oficiais e oficiosos parecem dispostos a seguir na trajetória de extermínio do setor industrial ao propor mudanças na política de conteúdo local.

Em entrevista a CartaCapital, o vice-presidente da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho, discorreu sobre a importância da política de conteúdo local: “Os investimentos do pré-sal, que hoje representam 50% da produção de petróleo do Brasil, foram feitos dentro da política de conteúdo local que estava em vigor.

Querendo-se ou não, atendeu bem, e em um momento em que a demanda internacional por equipamentos de perfuração para exploração de petróleo estava muito alta, no período de preço do barril acima de 100 dólares.

“Não se encontravam fornecedores para a cadeia de óleo e gás no mundo, pois todos estavam com a capacidade tomada.

Foi o Brasil que conseguiu suprir boa parte da demanda e assim desenvolveu tecnologias, trouxe grande número de empresas, empregou e treinou muita gente. O resultado é a produção do pré-sal de atingir metade do total de óleo e gás do País, um desafio, e com empregos criados em empresas instaladas aqui. A grande maioria das petroleiras norueguesas, americanas, do Reino Unido, produz no nosso mercado doméstico”.

Nesse trecho da entrevista, Roriz sublinha a importância da política de conteúdo nacional para a coordenação entre empresa estatal, investimento estrangeiro e avanço tecnológico dos empreendimentos nacionais.

A concorrência nos mercados industriais está marcada por características que não guardam qualquer semelhança com as superstições dos bobos alegres da globalização. Nesse jogo só entra quem tem cacife tecnológico, poder financeiro e amparo político dos Estados Nacionais. O resto está na arquibancada, batendo palmas.

Essas características essenciais da concorrência e do comportamento das empresas, sobretudo na área industrial, estão completamente ausentes das elucubrações dos que pretendem restringir o debate à ridícula contraposição entre modelos: a velha versus a nova matriz macroeconômica. Pode ser inacreditável, mas é essa forma vazia de conteúdo que parece inspirar a fração xiita do governo brasileiro e sua procissão de acólitos na mídia.

Ao lado dessas considerações gerais há, no Brasil, a tradição de ignorar a experiência alheia ou, na melhor das hipóteses, de interpretá-la levianamente.

Na China, por exemplo, a ação estatal cuidou dos investimentos em infraestrutura e utilizou as empresas públicas como plataformas destinadas a apoiar a constituição de grandes conglomerados industriais preparados para a batalha da concorrência global.

O sistema financeiro abasteceu crédito em condições adequadas de prazo e custo às empresas e aos setores “escolhidos” como prioritários pelas políticas industriais. O circuito virtuoso ia do financiamento para o investimento, do investimento para a produtividade, da produtividade para as exportações, daí para os lucros e dos lucros para a sustentação da dívida.

O resto é conversa de bêbado.

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