Serge Latouche: "O decrescimento segundo a Laudato si'"

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20 Março 2017

A Laudato si’ “não é tão radical em relação aos fundamentos do crescimento e do produtivismo”. Serge Latouche, professor emérito de Ciências Econômicas na Universidade de Paris-Sud, responde assim sobre as possíveis analogias entre o seu decrescimento feliz e as contínuas referências do papa à sobriedade.

A reportagem é de Luciano Zanardini, publicada no sítio Vatican Insider, 17-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Efetivamente, há a palavra decrescimento [na Laudato si’], mas em um contexto particular, isto é, enfatiza-se que, em alguns países, é necessário produzir menos e consumir menos. Eu acho que o papa poderia concordar com a ideia de uma sociedade de prosperidade sem crescimento.”

Não se deve esquecer que “Francisco está ligado à tradição da América Latina. Em outra parte da encíclica, por exemplo, ele fala de desenvolvimento sustentável. Dentro disso, há uma análise terceiro-mundista, não há uma verdadeira crítica. Considero isso, porém, como um primeiro passo importante nessa direção. É a primeira vez que a Igreja Católica aborda a questão na ecologia. Os ortodoxos, com o Patriarca Bartolomeu, abordaram-na muito antes. Infelizmente, não se veem efeitos sobre os nossos problemas, não se veem consequências sobre o modo de pensar... Se eu olhar para a campanha na França, é normal que seja assim, porque os franceses não leem as encíclicas. Na Itália, porém, seria possível esperar algo de diferente... Muitos responsáveis políticos que oficialmente se dizem católicos devem agir de forma diferente”.

O termo decrescimento fascina, mas, ao mesmo tempo, atrai sobre si muitas objeções, especialmente daqueles que o leem em sentido literal, isto é, como “uma inversão da curva do crescimento. Com ‘decrescimento’ entende-se – explica Latouche – implícita e explicitamente a necessidade de voltar a um nível de produção sustentável, compatível com a reprodução dos ecossistemas”.

Em “O decrescimento antes do decrescimento. Precursores e companheiros de estrada”, ele conta – este é o sentido da sua intervenção na Bréscia, a convite dos Missionários Xaverianos – as raízes culturais do decrescimento, porque existem pensadores que, em várias épocas, anteciparam esses temas.

Trata-se de filósofos, poetas, economistas, romancistas, políticos e teólogos. De Simone Weil a Raimon Panikkar, de Charles Fourier a Ivan Illich, apenas para citar alguns nomes. À longa lista, talvez, também se poderia acrescentar Romano Guardini, citado pelo papa na Laudato si’: no seu texto “O fim da era moderna”, ele critica a moderna avidez da época ganância, que tem o individualismo como fundamento cultural. Na sociedade de consumo, também está em crise, de fato, a capacidade de relação com nós mesmos e com os outros. A mensagem que enviamos é de que “pode-se consumir sem limites. Há um mecanismo psicológico induzido pela publicidade, mas sabemos que é um caminho equivocado. No mundo científico/universitário e político, assistimos a uma negação da realidade... Quanto mais há a crise, mais é evidente que o crescimento infinito nunca vai se recuperar”.

Muitos repetem o mantra “crescimento, crescimento. A publicidade nos diz que os nossos desejos secretos serão satisfeitos consumindo. O decrescimento é um movimento social que deve inverter esse sistema”.

A maioria dos economistas defende que não é verdade que não se pode crescer ao infinito. “O decrescimento não é o oposto simétrico do crescimento. Os decrescentes querem fazer com que cresça a qualidade da vida, do ar e de toda uma série de coisas que ‘o crescimento pelo crescimento’ destruiu. Não se deve pensar na ‘revolução’ de outubro, mas em uma descolonização do imaginário. É um processo muito mais longo, mas necessário. Não se faz isso da noite para o dia. E não se da mesma maneira no Texas ou em Chiapas. Deve-se inverter o paradigma. Devemos tratar a natureza como um jardineiro: se destruirmos a natureza, destruímos a nós mesmos.”

Os detratores da sua teoria argumentam que a globalização, mesmo do consumo, ajudou muitas pessoas no do mundo a saírem da pobreza. “O que é globalização? É a guerra de todos contra todos. É um jogo no massacre em escala global. Por exemplo, destruímos a agricultura chinesa: há 800 milhões de agricultores sem-terra. O enriquecimento toca 150 milhões de chineses, e os outros? A miséria, conhecida no século XIX e narrada por Dickens, na China, está em um nível incrível. Há milhões de operários que trabalham 12 horas por dia, e milhões que não trabalham. É preciso trabalhar menos para viver melhor. É preciso redescobrir que a vida não é a economia. Há outras dimensões importantes. Não se trata de abolir o mercado, mas sim a mercantilização de algumas coisas como o trabalho. A terra não é uma mercadoria, mas um dom de Deus.”

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