Os bastidores da mensagem de solidariedade do papa aos trabalhadores da Sky

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18 Março 2017


No apelo por uma justa solução da disputa de emprego da Sky Itália, o Papa Francisco surpreendeu um pouco a todos. Não tanto por um suposto ataque a Murdoch, dono inconteste da Sky, mas sim porque ele desarrumou as cartas para alguns conspiradores improvisados?

A reportagem é de Carlo Di Cicco, publicada no sítio Tiscali, 16-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Não faltaram ataques um pouco imprudentes e precipitados contra Francisco por parte de comentaristas admirados com a intervenção do papa, que, na sua opinião, despertou de uma longa distração que o teria mantido alheio a tantos dramas e disputas de trabalhadores demitidos, por exemplo, das empresas Unicredit, Montepaschi, Telecom, Almaviva, Alitalia, Merloni, Carrefour, Mediaset e muitos outros casos tristes, epílogo evidente de uma crise do trabalho que parece não ter fim.

Gritou-se o complô pelo fato de atacar Murdoch em um caso como o da Sky Itália, em que fontes internas revelam se tratar apenas da gestão de cerca de 180 empregados excedentes que não serão demitidos, mas apenas realocados principalmente em Milão, para onde o editor pretende transferi-los. Mas o que aconteceu na realidade, considerando-se que Francisco foi muito além da breve nota prevista para ser lida ao término da audiência geral dessa quarta-feira?

É sabido, pelo menos pelos adeptos aos trabalhos, qual é a dinâmica com que ocorrem as Audiências gerais as quais podem pedir para participar tanto pessoas individuais, quanto grupos, associações, paróquias, empresas e qualquer outro tipo de realidade, crente e não crente, instruídos ou não. É a Prefeitura Pontifícia que dispõe a logística de cada Audiência papal com base nos pedidos que chegam. Os textos, sempre se mantendo fiéis à última palavra do papa, são preparados pela Secretaria de Estado e, em particular, pelas seções linguísticas. Os textos italianos são propostos pela seção italiana.

Pelo que o site Tiscali ficou sabendo, o texto relativo ao caso Sky previsto para essa quarta-feira era muito curto e sóbrio. Francisco leu as duas linhas preparadas e impressas: “Um pensamento especial dirigido aos trabalhadores da ‘Sky Itália’, e espero que a sua situação de trabalho possa encontrar uma rápida solução, no respeito dos direitos de todos, especialmente das famílias”. Aqui, terminava o que estava previsto. Mas, como cada um pode verificar na transmissão ao vivo, Francisco continuou falando de improviso, dizendo coisas importantes que não se aplicam apenas ao episódio da Sky, mas à dignidade do trabalho e dos trabalhadores em geral.

E aqui está o acréscimo de improviso do papa: “O trabalho nos dá dignidade, e os responsáveis dos povos, os governantes têm a obrigação de a fazer de tudo para que cada homem e cada mulher possam trabalhar e, assim, manter a cabeça erguida, olhar no rosto dos outros, com dignidade. Aqueles que, por manobras econômicas, para fazer negociações não totalmente claras, fecham fábricas, fecham empresas de trabalho e tiram o trabalho dos homens comete um pecado gravíssimo”.

Justamente o amplo horizonte levado em conta pelo papa exclui os bastidores, até mesmo ofensivos em relação ao pontífice, imaginados para atingir Murdoch. Muitas vezes, de fato, desde que foi eleito, Francisco, ao tocar o tema do trabalho – um dos cavalos de batalha da sua doutrina social –, convidou os empresários e os patrões a tratar com justiça os trabalhadores, trazendo no coração a sua dignidade humana paritária.

Na recitação do Regina Coeli do dia 17 de abril do ano passado, ele tinha feito um apelo pelos trabalhadores do setor de call-centers em forte crise ocupacional e, na resposta a uma trabalhadora da Almaviva que lidava com uma crise muito grave, ele tinha defendido posições semelhantes às repetidas para a Sky.

No Jubileu da Misericórdia, ele tinha pedido que “os empresários não explorem mais os trabalhadores, tratando-os como objetos”. Mais amplamente, ele tinha se pronunciado com palavras de fogo em defesa da justiça na missa na capela de Santa Marta, no dia 19 de maio de 2016. Também naquele momento, ele falou da exploração do trabalho como de um pecado mortal.

“Quando as riquezas são feitas com a exploração das pessoas – dizia Francisco, então – aqueles ricos que exploram, exploram o trabalho das pessoas, e aquela pobre gente se torna escrava. Mas pensemos em hoje, pensemos aqui: em todo o mundo acontece a mesma coisa. ‘Eu quero trabalhar.’ Bem, dão a você um contrato. ‘De setembro a junho.’ Sem possibilidade de pensão, sem seguro de saúde... Em junho, suspendem você, e, em julho e agosto, você deve comer ar. E, em setembro, dão novamente a você. Aqueles que fazem isso são verdadeiras sanguessugas e vivem das sangrias das pessoas que tornam escravas do trabalho.”

O papa recordava uma jovem que tinha encontrado um trabalho de 11 horas por dia por 650 euros pagos sem contrato. E lhe disseram: “Se você gosta, pegue-o. Senão, vá embora. Há outros que vão querer”. Atrás de você há uma fila. Esses ricos – observava o papa – “engordam em riquezas”, e o apóstolo diz: “Vocês engordaram para o dia do abate”. “O sangue de toda essa gente que vocês sugaram” e do qual “vocês viveram é um grito ao Senhor, é um grito por justiça”. A exploração das pessoas – afirmava ainda o papa – “hoje é uma verdadeira escravidão”.

“Nós – disse – pensávamos que os escravos não existiam mais: eles existem. É verdade, as pessoas não vão pegá-los na África para vendê-los na América: não. Mas estão nas nossas cidades. E há esses traficantes, aqueles que tratam as pessoas com o trabalho sem justiça.”

Recordando o homem rico, Francisco acrescentava: “Aquele rico, pelo menos, não se dava conta disso e deixava que o outro morresse de fome. Mas isto é pior: isto é fazer as pessoas morrerem de fome com o seu trabalho para o meu lucro! Viver do sangue das pessoas. E isso é pecado mortal. É pecado mortal. E é preciso muita penitência, muitas restituição para se converter desse pecado”.

Em substância, nada de novo, mas sim um ensinamento constante que documenta como o Papa Francisco está sempre do lado dos pobres, dos trabalhadores, daqueles que lutam para viver. Instrumentalizar as suas palavras por interesses partidários, em vez do bem comum, pode ser considerado, ao menos, arriscado.

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