Sobre Francisco e o feminismo

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16 Março 2017

“O ponto não é que o Papa Francisco está à beira de mudar a prática católica sobre as mulheres e o sacerdócio, o que é bastante improvável. A questão é que a discussão tanto sobre diaconisas quanto sobre mulheres ordenadas ao sacerdócio está agora acontecendo dentro de círculos vaticanos influentes”, escreve Christine Schenk,Irmã da Congregação de São José, que trabalhou como parteira junto a famílias carentes por 18 anos antes de fundar a ONG FutureChurch, onde trabalhou por 23 anos, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 15-03-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo a teóloga, “de forma alguma, o Papa Francisco é um líder feminista. Mas é aberto ao Espírito, e crê no discernimento. E, evidentemente, nós sabemos que Deus é feminista!”.

Eis o artigo.

Há exatamente quatro anos, eu estive na Praça de São Pedro a observar uma fumaça branca que saía da chaminé da Capela Sistina. O rumor era de que se a eleição fosse rápida, como de fato foi, o novo papa seria conservador. Tal não era um bom presságio para o avanço no equilíbrio de gênero nas instâncias decisórias da Igreja.

Mas quando Jorge Bergoglio se curvou para receber a bênção que havia pedido, humildemente, aos milhares de católicos ali presentes, eu tive a esperança de que um novo respeito pela dádiva espiritual de todo o Povo de Deus – e não só do clero – poderia, finalmente, ter chegado.

Quatro anos depois, o que podemos falar do papado de Francisco em relação às mulheres na Igreja?

Se tomarmos apenas certas declarações, pensaremos que o Papa Francisco fechou as portas para toda e qualquer possibilidade de participação plena feminina nos ministérios da Igreja. Em novembro passado, ele reiterou que “a palavra final é clara” sobre a ordenação sacerdotal das mulheres.

Se formos mais a fundo, no entanto, haverá muito o que elogiar. Confira a seguir a lista que preparei nesse sentido.
Francisco possui um grande respeito pelas mulheres que trabalham com as populações desfavorecidas. Ele se encontrou com membros da União Internacional das Superioras Gerais em maio do ano passado e concordou em criar uma comissão para estudar a questão de diaconisas no intuito de melhor servirem ao Povo de Deus.

Ele deu um fim a investigações que vinham sendo feitas às religiosas americanas e ativamente saudou as comunidades apostólicas femininas. Essa afirmação há tempos aguardada das interpretações do Vaticano II sobre a vida religiosa por parte das autoridades eclesiásticas deteve (pelo menos por enquanto) ataques que já duravam décadas vindas de conservadores católicos.

Pela primeira vez, um papa se reuniu com membros da Conferência de Liderança das Religiosas (Leadership Conference of Women Religious – LCWR), órgão que representa 80% das irmãs católicas dos EUA. As religiosas não são mais excluídas das sessões plenárias do dicastério vaticano que as supervisiona.

Um Grupo Consultivo Feminino, com 37 participantes, foi há pouco nomeado para o Pontifício Conselho para a Cultura, até pouco tempo formado apenas por homens, e viu-se um certo progresso no sentido de aumentar o número de mulheres trabalhando no Vaticano.

Mas talvez a maior mudança é uma nova abertura a ouvir as experiências femininas em vez de evitá-las ou ignorá-las. Isso está evidente nos eventos do Vozes de Fé realizados anualmente no Vaticano no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Nos últimos quatro anos, elas debateram temas como justiça, paz e o envolvimento feminino na Igreja. Ao mesmo tempo, um número crescente de consultas com – e sobre – as mulheres vem sendo feito em vários lugares ao redor de Roma.

Depois, em junho passado, a coalizão chamada Women’s Ordination Worldwide – WOW teve, pela primeira vez, a permissão para protestar em oração no lado de fora da Basílica de São Pedro antes do início da missa por ocasião do Jubileu dos Presbíteros. E há sinais de que um congresso de junho, com duração de três dias, da WOW, sob o lema “Abrir a Porta para o Diálogo”, pode estar gerando frutos.

Em fevereiro, o padre jesuíta Giancarlo Pani publicou aquilo que se tornaria num artigo polêmico na La Civiltà Cattolica, revista jesuíta italiana, cujo editor, o também padre jesuíta Antonio Spadaro, é conhecido por ser amigo próximo do papa. Segundo Sandro Magister, crítico voraz de Francisco, Pani “rasga calmamente em pedaços” a ideia segundo a qual o Papa João Paulo II proferiu a última palavra sobre a possibilidade de mulheres serem ordenadas ao sacerdócio. Magister é crítico da opinião de Pani, que ele cita em parte:

“Não se pode recorrer sempre ao passado, como se somente no passado houvesse indicações do Espírito. Hoje também o Espírito está guiando a Igreja e sugerindo a assunção corajosa de novas perspectivas”.

O ponto aqui não é que o Papa Francisco está à beira de mudar a prática católica sobre as mulheres e o sacerdócio, o que é bastante improvável. A questão é que a discussão tanto sobre diaconisas quanto sobre mulheres ordenadas ao sacerdócio está agora acontecendo dentro de círculos vaticanos influentes. (Na verdade, o artigo de Pani é sobre diaconisas.)

Sob o comado dos papas Bento XVI e João Paulo II, os debates sobre a ordenação feminina ao diaconato ou ao sacerdócio eram ativamente suprimidos. No papado de Francisco, eles estão ocorrendo aparentemente sem medo das repercussões. Este papa é crê enormemente no discernimento. Ele não evita temas polêmicos, mesmo os relacionados à plena inclusão feminina nas instâncias decisórias da Igreja.

Tais discussões são importantes tanto para as mulheres quanto para os homens em nossa Igreja hoje.

Há pouco voltei de um congresso sobre o empoderamento feminino, organizado pela organização sem fins lucrativos chamada World Muse, sediada em Bend, no Oregon. Esta ONG “inspira as mulheres a criarem a transformação social positiva a partir de dentro”.

Eu me juntei à Irmã Simone Campbell e a Rebecca Parrish num painel que abordou (entre outras coisas) o significado de ser uma “freira feminista radical” (sic) no contexto de uma Igreja patriarcal, como retratado no filme documentário de Rebecca, “Radical Grace”.

Simone falou da necessidade de permitir que os nossos corações se rompam pelas dores do mundo de forma que a esperança possa adentrar a escuridão.

Eu falei sobre Jesus e os discípulos “feministas radicais” dele cuja evangelização contracultural, por meio de suas próprias redes sociais, literalmente transformaram o Império Romano.

Jesus foi um agente comunitário, disse, e todos que eram apaixonados por justiça estavam num caminho espiritual.

Mais tarde, dezenas de mulheres que se descreviam como “ex-católicas” me abordaram em pranto. Tenho dado muitas palestras, mas nunca tivera uma experiência em que tantas católicas ficassem tão comovidas assim.

Elas amavam o catolicismo, disseram, mas sentiram que precisavam sair porque não conseguiam reconciliar ser católica com ser feminista. O nosso testemunho as ajudou a perceber que era possível ser ambos.

De forma alguma, o Papa Francisco é um líder feminista. Mas é aberto ao Espírito, e crê no discernimento. E, evidentemente, nós sabemos que Deus é feminista!

“E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gênesis, 1,27)
Portanto, é uma questão de tempo e confiança no Espírito, que tem plenas condições de curar a misoginia eclesial e guiar o Povo de Deus a “novas e corajosas perspectivas”.

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