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14 Março 2017

De acordo com o Procurador de Justiça, 120 líderes foram assassinados em 14 meses (entre 1º de Janeiro de 2016 e 20 de fevereiro de 2017), o que representa oito líderes por mês. Em 2 de março mataram Ruth Alicia Lopez com oito tiros.

A reportagem foi publicada por Página/12, 13-03-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

"E se me matarem?", começam a se questionar líderes de toda a Colômbia frente à crescente onda de assassinatos aos líderes do processo de paz em territórios divididos do país, onde a presença de grupos ilegais foi histórica pelo abandono do Estado. A paz, negociada em Havana e assinada em Cartagena e Bogotá, prometeu proteção para o exercício da política e da oposição, bem como medidas para desarticular grupos paramilitares. Mas três meses após a assinatura do acordo, o progresso tem sido escasso, enquanto o banho de sangue estende-se a todos os cantos do país, até mesmo nas cidades.

No último dia 2 de março, uma líder social foi atingida pela primeira vez em uma capital, desde a assinatura do acordo de paz. Ruth Alicia Lopez foi assassinada com oito tiros de uma arma com silenciador em um bairro popular de Medellín. Vítima da guerra em outras três ocasiões – desalojada de sua cidade natal, Urabá, ameaçada por paramilitares e detida sem justa causa pelo Estado –, desta vez ela encontrou a morte ao visitar seu irmão e sua mãe, também líderes em seus agitados bairros. Nesse mesmo dia, em Bello, cidade vizinha de Medellín, foi assassinado um líder de conselhos comunitários e dois dias depois veio a notícia do assassinato dos irmãos José Antonio e Luz Angela Anzola na província de Meta, na região dos Llanos Orientales.

Desde o chamado Dia D, quando iniciou a implementação do acordo de paz, acordado pelo governo e pelos guerrilheiros das Farc em 1º de dezembro, foram assassinados 27 homens e mulheres que realizavam instruções acerca da paz em seus territórios e faziam campanha para o plebiscito, que acabaram perdendo devido à maioria de votos das capitais.

Essas pessoas têm sobrevivido ao fogo cruzado em seus territórios, pois se recusaram a deixá-los para continuar defendendo seus direitos nos campos, onde estavam trabalhando na organização das bases sociais em vários lugares, como Chocó, Cauca, Córdoba, Antioquia, Caquetá e Meta. Nestes lugares, a implementação dos acordos está se tornando difícil pelas violações do governo e pelo avanço de tropas paramilitares aos lugares desocupados pelas FARC no início deste ano para se concentrar nas Zonas Veredales e Pontos de Normalização (zonas comunitárias rurais transitórias de regulação).

O panorama de homicídios preocupou ao longo de 2016, quando 80 defensores da paz foram assassinados no país, de acordo com dados consolidados pela ONG Somos Defensores. Outros falam de mais de 100. Este ano, em pouco mais de dois meses, fala-se em quase 30. Seria o início de um novo genocídio, como aconteceu com a União Patriótica, quando 1500 militantes foram mortos? É a pergunta que fica desde que começou o processo de paz e as mortes de líderes dispararam.

A Defensoria Pública fala de 500 homicídios de defensores desde 2015. E depois das mortes de Ruth Alicia e mais outra pessoa em Antioquia, gerou-se um alerta com os seguintes números: 120 líderes foram mortos em 14 meses (entre 1º de janeiro de 2016 e 20 de fevereiro de 2017), o que representa oito líderes por mês, dois a cada semana. "Para aqueles que apoiaram o acordo de paz conquistado em Havana e convidaram à votação nas urnas, seu papel tornou-se um verdadeiro problema", relata a revista Generación Paz, que lançou uma campanha chamada '¿Y si me matan?' (em português, 'E se me matarem?'). A campanha baseia-se em cartas e investigações para pressionar as autoridades a dar resposta a esta horrível matança, já que o Ministro da Defesa e o Procurador-Geral do país disseram que esses crimes não são sistemáticos e que não há paramilitarismo na Colômbia. As autoridades tentam explicar todos os homicídios como situações pessoais, "crimes passionais" ou retaliações por supostas dívidas que, na opinião dos defensores dos direitos humanos, tentam desviar a atenção do verdadeiro problema: a paz está custando a vida dos camponeses, afro-americanos e índios que ousaram promovê-la publicamente.

Além dos homicídios, a Defensoria Pública relatou 33 atentados e 27 agressões. Ameaças em panfletos também continuam crescendo em lugares como Ituango, na Antioquia, onde há uma zona veredal de normalização e as tropas paramilitares já se encontram nas suas diversas áreas rurais, enquanto distribuíam papéis ameaçando líderes sociais e uma dezena de famílias teve que se deslocar. Em Chocó, a situação também é preocupante, assim como em Córdoba e Cauca, onde estão os maiores números de pessoas assassinadas no marco de suas lideranças, durante este processo de paz.

José Yilmar, Alberto, Alicia, Emilsen, Fabian, Hernán, Erika, Ángela e outros são, para o governo nacional, apenas nomes em uma lista de pessoas que perderam a vida assim como milhares de colombianos perdem todos os anos. As investigações de seus assassinatos sequer iniciaram, em muitos casos, e o governo ainda não definiu como irão encontrar o paradeiro dos assassinos. Cada caso está na Procuradoria de sua região e não há nenhum sindicato ou liderança para estudar os padrões nacionais. Santos pediu à instituição que seus investigadores se preparassem para os casos, mas esclareceu que não tem poder de dar ordens ao poder judicial. Enquanto isso, a polícia e o exército também permanecem em silêncio. E as pessoas, levantando a voz, pedindo ao mundo para salvar as vidas dos líderes sociais que são, em última análise, a garantia de uma verdadeira paz para o país.

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