O louvor filosófico do perdão na era da grande raiva

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14 Março 2017

"Quando a raiva toma conta, perdemos a lucidez e ficamos presos aos que nos maltrataram porque só pensamos em vinganças e retaliações. Não conseguiremos mais a libertação, poluindo nosso mundo psíquico. O único futuro possível é o do perdão relacional que se liga à grande tradição católica e judaica: aqueles que sofreram injustiças podem tentar compreender as fraquezas humanas e não se oporem a uma reconciliação. Desde que, no entanto, haja um reconhecimento de culpa por parte daqueles que foram responsáveis", escreve Massimo Ammanniti, professor de psicopatologia da Universidade La Sapienza de Roma, em artigo publicado por la Repubblica, 10-03-2017. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo.

Se alguém quisesse reconstruir uma história de emoções humanas no mundo ocidental descobriria que na Grécia no século V a.C., houve uma grande transformação antropológica. Em um livro de alguns anos atrás, Restraining Rage ("Reprimir a raiva") o historiador William Harris, da Universidade de Columbia, em Nova York, apresentou com ampla documentação, a ocorrência de uma grande mudança na transição do mundo arcaico de Homero para o mundo da "polis" ateniense: "a cólera de Aquiles" já não era a única maneira de lidar com os conflitos, pois existiam outras formas mais civilizadas de enfrentamento e de solução das diferenças.

Apesar dos vinte e cinco séculos que nos separam da "polis", parece que hoje a raiva voltou a prevalecer no cenário mundial, como nos confirmam dramaticamente o terrorismo internacional ou os confrontos políticos que muitas vezes se transformam em insultos e brigas. E a violência e o ressentimento não poupam ninguém, basta ler os comentários nas redes sociais, uma epidemia que envenena a vida cotidiana.

Sempre atenta às emoções políticas e sociais, o famosa filósofa estadunidense Martha Nussbaum dedica seu livro mais recente, Anger and Forgiveness: Resentment, Generosity, Justice (Raiva e Perdão: Ressentimento, Generosidade, Justiça. Oxford University Press) a esse novo fenômeno. Como a autora escreve, a raiva é "venenosa e popular", mas mesmo aqueles que reconhecem seu perigo destrutivo para o convívio civil, não abrem mão dela. É que, muitas vezes, essa forte emoção está ligada à afirmação de um respeito pessoal e à virilidade, e, nas mulheres, à reivindicação de igualdade. Mais ainda, a raiva cria a ilusão de que estamos arrancando alguma compensação daqueles que se comportaram mal, mesmo que nunca será possível recuperar o que foi perdido. Quem foi injustiçado e se sente realmente enraivecido, quer uma reparação.

Existem três diferentes caminhos possíveis. No primeiro, sentimo-nos humilhados e desejamos voltar a galgar a escala social, tomados apenas por uma necessidade pessoal de obter alguma reparação. Ou podemos nos prender à ofensa recebida na esperança de que com a vingança o agressor também venha a sofrer as mesmas aflições. É claro que esses caminhos não são uma solução, porque nos levam para uma síndrome reivindicativa difícil de romper e que corre o risco de agravar ainda mais a situação. Mas existe outro caminho, indicado por Nussbaum: olhar para o futuro e não se prender ao passado e ao que foi sofrido, para desencorajar aqueles que ainda pensem em se comportar da mesma maneira. Mesmo em termos de eficácia esse último caminho é o melhor: a prova disso é Nelson Mandela, que depois de vinte e sete anos de prisão certamente devia sentir muita raiva de seus carcereiros brancos e desejar uma reparação pessoal. No entanto, Mandela conseguiu escapar da armadilha da raiva e do seu poder corrosivo, nunca perdeu de vista o bem de seu país tendo o cuidado de encontrar um compromisso com os seus opressores.

O livro de Nussbaum não se atém apenas ao contexto social mais amplo, vale também para a família, nas relações do casal ou entre pais e filhos. Quando a raiva toma conta, perdemos a lucidez e ficamos presos aos que nos maltrataram porque só pensamos em vinganças e retaliações. Não conseguiremos mais a libertação, poluindo nosso mundo psíquico. O único futuro possível é o do perdão relacional que se liga à grande tradição católica e judaica: aqueles que sofreram injustiças podem tentar compreender as fraquezas humanas e não se oporem a uma reconciliação. Desde que, no entanto, haja um reconhecimento de culpa por parte daqueles que foram responsáveis.

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