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07 Março 2017

"Para alguns, isso pode soar simplista, mas é o que eu penso que vem acontecendo. E este jogo a cada hora tem ficado mais perigoso, na medida em que os inimigos do papa cada vez mais se colocam ao lado de Trump e de sua ideologia liderada por Bannon, que permite uma aproximação da economia pró-corporativa padrão com elementos mais não convencionais do nacionalismo sangue e solo apocalíptico. Hoje, mais do que nunca, é imperativo que nos coloquemos firmes ao lado do Papa Francisco e do ensino social católico tradicional em toda a sua coerência e consistência", escreve Anthony Annett, assessor para mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável do Centro para o Desenvolvimento Sustentável, da Universidade de Columbia, em artigo publicado por Commonweal, 02-02-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Os conservadores americanos se apresentam de várias formas: os tradicionalistas que amam a missa antiga, os restauracionistas nostálgicos que optam por uma deferência maior à hierarquia e às normas morais, os anticomunistas ferozes que se alinham a oligarcas e, em alguns círculos, até mesmo compartilham do último suspiro dos nacionalistas “sangue e solo”.

Mas, embora os opositores do Papa Francisco certamente adotem algumas destas posturas, a inimizade deles parece se inspirar em algo completamente diferente: a ideologia do libertarianismo econômico que exalta os livres mercados e põe a “liberdade econômica” bem à frente da solidariedade. Essa oposição se manifesta numa rejeição dos ensinamentos do Papa Francisco sobre a economia e o meio ambiente. (Os seus antecessores, é claro, ensinaram praticamente as mesmas coisas. Mas os católicos neoliberais americanos fazem questão de sugerir o contrário.)

A meu ver, estas são as lentes através das quais devemos enxergar a oposição americana a Francisco, mesmo se grande parte desta oposição pareça centrar-se em Amoris Laetitia, especialmente na questão da Comunhão aos divorciados e recasados. O que acontece aqui ecoa uma estratégia política, testada e aprovada, contra o aborto, que usa o nascituro para mascarar posições que, de outro modo, seriam difíceis de se defender: uma redistribuição ascendente da renda combinada com o barbarismo ambiental. Dessa forma, estas pessoas vão insistir que os católicos estão obrigados a apoiar certos políticos ou juízes baseados unicamente na postura declarada deles sobre o aborto, mesmo se estes mesmos políticos e juízes façam quase nada pelos nascituros, mas façam muito pelos doadores ricos, por grandes corporações, pela indústria financeira e bilionários do setor de combustíveis fósseis.

O que não significa dizer que estas pessoas não estejam sendo verdadeiras na oposição que representam ao aborto. Mas elas também sabem se tratar de um estratagema conveniente. Faz parte de um jogo. É o mesmo motivo pelo qual os opositores da ação climática e do desenvolvimento sustentável continuam contando a mentira do “controle populacional” para rechaçar as Metas do Desenvolvimento Sustentável. O resultado é que eles apenas não gostam do desenvolvimento sustentável.

Este mesmo jogo é jogado com as indicações à Suprema Corte. Como sustentou Zephyr Teachout, que o fez de maneira convincente, a característica definidora do juiz Neil Gorsuch é a sua predileção ideológica de não ficar no caminho do poder corporativo concentrado e da riqueza. É, obviamente, por isso que ele encanta a Trump, mas, mais uma vez, esse tipo particular de católico americano vangloria-o como um Aquino judicioso! (Não é preciso salientar que o magistrado Antonin Scalia era farinha do mesmo saco, e que a sua morte provavelmente salvou o Clean Power Plan – plano que, devemos lembrar, foi elogiado pelo Papa Francisco com algumas das primeiras palavras proferidas por ele nos Estados Unidos.)

Creio que estamos vendo algo parecido com os opositores anglo-americanos de Amoris Laetitia. Com certeza, parte dessa crítica é influenciada por um calvinismo cultural predominante inclinado a um dualismo antitético à misericórdia, combinado com o fato bizarro de que muitos dos “defensores americanos da fé” são pessoas convertidas do protestantismo (e a cosmovisão cristã deles restringe-se às divisões da Reforma, escassamente cientes de como as igrejas ortodoxas e não calcedonianas têm lidado com este problema em particular).

Mas, como acontece com o aborto, essa questão é utilizada para deslegitimar o Papa Francisco. E se ele for deslegitimado – ou ainda como se estivesse fomentando a heresia e o cisma, como alguns dos críticos mais extremados afirmam –, então os ensinamentos sobre a desigualdade mundial e mudanças climáticas podem seguramente ser ignorados. E isso, hei de concordar, é a coisa toda; é a última versão do jogo.

Tenho certeza de que há alguns católicos que amam Laudato Si’ e o ensinamento do Papa Francisco sobre a economia mundial, e que, no entanto, não gostam do que ele diz em Amoris Letitia. E tenho certeza de que há alguns católicos que se deleitam em Amoris Letitia e que acham que o papa é maluco em se tratando de economia e meio ambiente. Mas, concordarei, estes dois grupos são minúsculos em termos numéricos. Especialmente nos Estados Unidos, se encontrarmos um crítico resoluto do Papa Francisco em Amoris Laetitia, provavelmente iremos encontrar também um libertário e negador da ciência climática. E quanto mais forte for a oposição a Amoris, tanto mais forte será a aproximação com aquelas outras posturas.

Para alguns, isso pode soar simplista, mas é o que eu penso que vem acontecendo. E este jogo a cada hora tem ficado mais perigoso, na medida em que os inimigos do papa cada vez mais se colocam ao lado de Trump e de sua ideologia liderada por Bannon, que permite uma aproximação da economia pró-corporativa padrão com elementos mais não convencionais do nacionalismo sangue e solo apocalíptico. Hoje, mais do que nunca, é imperativo que nos coloquemos firmes ao lado do Papa Francisco e do ensino social católico tradicional em toda a sua coerência e consistência.

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