Icônica edição da revista jesuíta em inglês traz novos ares à Igreja

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05 Março 2017

É muito provável que a publicação católica mais original e mais influente do mundo, a 'La Civiltà Cattolica', editada por jesuítas, seja provocativa, leve à reflexão e abra espaço para a circulação intelectual da Igreja. Até agora, no entanto, estava disponível apenas em italiano, mas isso está mudando com a nova edição em inglês.

A reportagem é de Austen Ivereigh, publicada por Crux, 01-03-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Escrita inteiramente por jesuítas e avaliada pelo Vaticano, "distinta, mas contundente", como descreveu um estadunidense, a La Civiltà Cattolica pode ser a publicação mais singularmente influente do mundo católico, uma coleção quinzenal de artigos meio jornalísticos e meio acadêmicos.

Como a revista cultural mais antiga da Itália - as primeiras edições saíram em 1850, quando a Itália ainda nem era nação -, tem uma história notável, que é contada em um livro recente do Padre Giovanni Sale e seu editor, Padre Antonio Spadaro, cujo subtítulo é 'La Civiltà Cattolica em 12 papados'.

Tendo passado por duas guerras mundiais e dois Concílios do Vaticano, a revista recentemente publicou a edição 4000 (11-25 de fevereiro), celebrada em uma capa vermelha com uma mensagem de felicitações do Papa Francisco escrita à mão.

Mas perdeu de ser ainda mais influente por uma grande falha: foi escrita em italiano. Na época, a escolha de publicar em italiano em vez de latim foi um movimento populista radical, mas sendo uma língua pouco falada fora do il bel paese, seus leitores internacionais ficam em grande parte restritos às pessoas que já viveram em Roma.

Até este mês, quando a revista foi expandida em edições mensais em quatro outros idiomas, realizando em 2017, finalmente, o pedido do Papa Pio IX em 1866, em sua breve Gravissimum supremi, de "amplamente divulgar e difundir [seus escritos] em todas as nações".

Na terça-feira à noite eu estava na residência de Sally Axworthy, embaixador britânico em Roma - no último andar de um palazzo perto de Quirinale, embaixo de um terraço com uma vista para a cidade de cair o queixo - para ajudar a divulgar e difundir a edição da revista em inglês, que a partir de agora terá publicações mensais, juntamente com versões em espanhol, francês e coreano.

Também estavam presentes Dom Paul Tighe, do Conselho Pontifício para a Cultura; o correspondente de longa data da CNN, Delia Gallagher; o jesuíta responsável pela edição coreana, Padre Jeong Xavier Hwang e, claro, Spadaro, diretor da revista e um dos principais analistas do pontificado de Francisco.

Antes das últimas taças de prosecco antes da Quaresma, cada um de nós compartilhou alguns pensamentos sobre o que torna a revista singular, a um notável público de 40 jornalistas, funcionários ingleses da Cúria e convidados ecumênicos.

Acabou sendo uma longa lista.

Há o fato, por exemplo, de ser inteiramente escrita e editada por jesuítas em uma espécie de Collegio degli scritori, "colegiado de escritores", em Roma. Apesar de viverem em uma linda casa na Villa Borghese, os escribas consideram-se - como dizia seu fundador, padre Carlo Maria Curci - "trabalhadores", e não "intelectuais".

Depois, há a enorme variedade de assuntos. Como Spadaro - que já escreveu mais de 200 artigos para a revista - disse no artigo que abre a edição em inglês, La Civiltà Cattolica é "uma forma elevada de jornalismo cultural em um território de fronteira difícil", que se preocupa com tudo o que é humano.

A título de exemplo, a primeira edição em inglês apresenta uma entrevista com o diretor de cinema Martin Scorsese, um pingue-pongue papal com líderes religiosos, um excelente resumo da doutrina da Igreja sobre a migração, uma reflexão sobre o diálogo entre razão e emoção, um artigo sobre a inculturação na Ásia, um perfil do grande bispo brasileiro dos pobres, Helder Câmara, e uma peça sobre a natureza da misericórdia em Shakespeare.

Também há o fato de que é uma revista católica ligada à Santa Sé e a serviço do papa por lei, mas especialmente voltada ao mundo dos negócios. Isso significa que ela deve estar sempre atenta ao Vaticano - Spadaro contou que isso significa, na prática, discussões periódicas de duas horas na Secretaria de Estado - e ciente das sensibilidades diplomáticas em que os materiais da revista podem tocar.

(Curiosidade: a tarefa de "avaliar" a revista só foi delegada à Secretaria de Estado há relativamente pouco tempo. Pio XII costumava revisar ele mesmo e São João XXIII disse para os jesuítas saírem das trevas e se envolverem menos na política italiana).

Mas enquanto permanece ligada ao papado, a revista utiliza a técnica jesuíta do discernimento para lidar e compreender a dinâmica e as correntes da cultura e discernir suas sementes do Evangelho, bem como o que possa prejudicá-la.

Esta tensão - lealdade ao papado, liberdade para discernir - reside, é claro, no coração da própria missão jesuíta e, posta em jogo na La Civiltà Cattolica, oferece infinitas oportunidades para os jornalistas procurarem as menores diferenças entre o magistério e o que está em suas páginas.

Comecei minhas observações recordando que encontrei a revista por acaso em 2000, quando trabalhava no The Tablet. O editor na época pediu que eu fizesse uma reportagem sobre um artigo que havia recém saído na revista. Quando perguntei por que um artigo de uma pomposa revista italiana de teologia era notícia, ele me disse: "porque é escrita por jesuítas que às vezes discordam do papa, mas é aprovada pelo Vaticano".

Ainda hoje, quando o amor entre a Companhia de Jesus e Francisco parece sincronizado (o papa, é claro, foi um leitor dedicado a vida inteira), os analistas conservadores como Sandro Magister adoram destacar aparentes diferenças entre este ou aquele artigo e algo que Francisco disse.

Ainda que pareça uma espécie de revista de filosofia, talvez o maior paradoxo da La Civiltà Cattolica é que ela não existe para promover um conjunto de ideias, mas uma maneira de enxergar (ou como diriam os jesuítas, uma "hermenêutica").

Recentemente, Francisco disse à comunidade: "ser uma revista católica não significa simplesmente divulgar ideias católicas, como se o catolicismo fosse uma filosofia... Uma revista só é verdadeiramente "católica" se tem o olhar de Cristo sobre o mundo".

Outro paradoxo: ela oferece uma janela para o pensamento da Igreja - uma espécie de termômetro, como considerou recentemente a Corriere della Sera, na Itália -, mas também existe para explicar o mundo à Igreja, algo que a torna suspeita para alguns católicos que veem as publicações da Igreja como óleo quente derramado sobre os inimigos invasores da cidadela.

Em seu discurso, o papa rejeitou qualquer sugestão desta ideia, lembrando que em 2013 ele propôs três palavras-chave para a revista - diálogo, discernimento, fronteira - e agora propôs mais três - inquietação, incompletude e imaginação - que são um pouco mais militantes.

"A certeza da fé é o motor da sua investigação", ele disse, acrescentando: "é por isso que vocês devem ser escritores e jornalistas cujo pensamento é incompleto, isto é, aberto, e não fechado ou rígido".

Esta abertura, como sugeri nas minhas observações, deve significar que a edição em inglês da revista vai atrair ainda mais a excelente crítica que, recentemente, um recente artigo da revista recebeu sobre o diaconato feminino. Seu autor sugeriu que os argumentos das tradições que excluem as mulheres causam pouca mudança de opinião na cultura contemporânea, o que liga o acesso das mulheres ao emprego e às responsabilidades públicas como a consequência de um novo reconhecimento da sua dignidade igualitária.

O artigo imediatamente foi acusado de "questionar a doutrina da Igreja", quando não foi o caso. Ele estava convidando a Igreja a pensar mais profundamente sobre as razões de seus dogmas à luz da cultura atual.

Em vez de diluir o ensino católico para torná-lo mais acessível para a sociedade contemporânea, La Civiltà Cattolica interpreta a sociedade contemporânea para tornar o ensino católico mais acessível. É um serviço exclusivo realizado pela revista, tanto para a Igreja quanto para o mundo, e que agora será realizado em inglês.

E que melhor momento para isso? Precisamente por ser fiel ao magistério, mas vê-lo como algo vivo e orgânico, em que a doutrina eterna da Igreja dialoga com a evolução da cultura, La Civiltà Cattolica agora oferece ao mundo católico de língua inglesa um espaço que muitas vezes tem diminuído nos últimos anos - especialmente nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, é claro, também deve ampliar os horizontes da versão original, em italiano. Como disse Hwang, estas novas edições vão "construir pontes entre o centro e as margens pelas quais poderão fluir mais paz e justiça".

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