A cinzenta Quarta-Feira de Cinzas de Bergoglio. Artigo de Alberto Melloni

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03 Março 2017

Fatos recentes querem “construir uma contranarrativa da reforma bergogliana, minar a sua imagem. Sem perceber que a força – e a fraqueza – de Francisco não está no fulgor da sua imagem, mas naquele ‘crer no Evangelho’ que a liturgia dessa quarta-feira recordava a todos os fiéis. A quase todos.”

A opinião é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, em Bolonha. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 02-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Cinzas e jejum para os católicos, nessa quarta-feira. Mas quando, no meio do dia, uma notícia fez a volta ao mundo em um piscar de olhos, alguns pequenos ambientes católicos devem ter brindado: por causa de outro pequeno golpe dado à credibilidade do papa reformador; e proveniente de uma parte nada suspeita. Nessa quarta-feira, de fato, Marie Collins renunciou à Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores que o papa tinha constituído em março de 2014, desencadeando um verdadeiro terremoto midiático.

Essa irlandesa, que sobreviveu, quando tinha 13 anos, às moléstias de um padre – que tinha empregado décadas para superar a indignação e que, durante o pontificado de Bento XVI, tinha testemunhado o seu drama –, jogou a toalha com um artigo clamoroso. Ela denunciou, no jornal National Catholic Reporter, as disfunções da comissão que ela sofreu e sugeriu ao papa (“com quem eu nunca me sentei para conversar”, especifica, em um detalhe um pouco polêmico) como tornar eficaz esse órgão.

Ela revelou fatos nada pequenos e bateu a porta: mas talvez sem se dar conta de que o que ela acreditava ser negligências moralmente reprováveis fazem parte de um plano. Ou podem se tornar parte dele. Os limites de pessoal, as deficiências na coleta e na divulgação de documentos, as lentidões obtiveram de Marie Collins exatamente aquilo que os inimigos da comissão e os antagonistas do papa queriam dela: desencadear uma convulsão que demonstrasse a ineficácia do papa sobre as questões que eram a pauta do conclave.

Os modos são totalmente diferentes em comparação com aqueles que viram naufragar a comissão papal constituída para reformar as finanças vaticanas. Aqui, não há furtos de senhas, nem tráfico de papéis, nem opacidades pessoais, nem erros de “casting” espalhafatosos. Mas o resultado a que se chega é o mesmo obtido com a “operação Balda”: demonstrar a fragilidade de um desígnio reformador, aumentar a fumaça que permite que algumas “mãozinhas” insinuem conflitos entre ele e os colaboradores mais próximos e ventilem crises.

Que fique claro: as normas instituintes e as propostas da Comissão para a Proteção dos Menores tinham sérias limitações. Por exemplo, quando o quirógrafo pontifício que instituía a comissão sobre os menores lhe ordenava promover, “junto com a Congregação para a Doutrina da Fé, a responsabilidade das Igrejas particulares”, sem dizer como se faria para fazer com que o ex-Santo Ofício colaborasse com um grupo informal de quatro mulheres, três padres e um bispo, ele não ajudava o trabalho a ser feito.

E, quando a comissão pedia que a mesma Congregação “instituísse um tribunal romano para o qual fossem chamados a responder os bispos negligentes” (o que acabou caindo por “razões jurídicas não mais bem especificadas”, revela Marie Collins), ela mostrava muito pouca clarividência: a chamada “tolerância zero” praticada por Roma tinha sido desastrosa, e a criação de uma inquisição universal contra bispos gerida por um escritório romano abria cenários dignos do Papa Carafa.

No entanto, é evidente que a soma de atrasos grandes e pequenos, motivados e desmotivados, tinha um propósito, senão uma direção: construir uma contranarrativa da reforma bergogliana, minar a sua imagem. Sem perceber que a força – e a fraqueza – de Francisco não está no fulgor da sua imagem, mas naquele “crer no Evangelho” que a liturgia dessa quarta-feira recordava a todos os fiéis. A quase todos.

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