O paradoxo global do capitalismo

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02 Março 2017

"A maioria das pessoas não tem percebido, mas os serviços de inteligência dos Estados Unidos ­­­­­­também têm analisado recentemente a evolução da economia mundial. O escritório do Diretor de Inteligência Nacional (DNI) publicou sua última avaliação, chamada de Tendências Globais: o paradoxo do progresso, que "explora as tendências e cenários dos próximos 20 anos".", escreve Michael Roberts, renomado economista marxista britânico, que tem trabalhado há 30 anos na cidade de Londres como analista econômico, em artigo publicado por The Next Recession, 14-02-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Eis o artigo.

O DNI chega à conclusão de que o mundo está "vivendo um paradoxo – as conquistas da era industrial e da informação estão dando forma a um mundo tão perigoso, quanto rico em oportunidades. As decisões humanas determinarão se prevalecerão as oportunidades ou os perigos".

O DNI elogia o capitalismo das últimas décadas por "conectar as pessoas, potencializar os indivíduos, grupos e estados e tirar um bilhão de pessoas da pobreza durante o processo".

Mas os olhos e os ouvidos do capital estadunidense estão preocupados com o futuro. Temem "os choques, tais como a Primavera Árabe, a crise financeira mundial de 2008 e o aumento global das políticas populistas, antissistema. Estes choques revelam a fragilidade das conquistas alcançadas e realçam as profundas mudanças no panorama global que antecipam um futuro próximo obscuro e difícil".

Todos estes desenvolvimentos são ruins para o capital global e para a supremacia norte-americana, aparentemente. E o DNI reconhece que as coisas não vão melhorar. "Nos próximos cinco anos seremos testemunhas do aumento das tensões entre países e internamente a eles. O crescimento global será mais lento na medida em que os desafios mundiais, cada vez mais complexos, sejam confirmados". Qual é a resposta? Pois bem, este comentário sobre o relatório do DNI o expõe sem meias-palavras:

"Será tentador pôr ordem neste caos aparente, mas, em última instância, seria muito custoso a curto prazo e, no final de contas, fracassaria. Dominar a atores cada vez mais poderosos em diversos domínios exigirá recursos inaceitáveis em uma era de crescimento lento, limitações fiscais e grandes dívidas. Internamente, isso implicaria no fim da democracia, produzindo autoritarismo, instabilidade ou ambos. Apesar de que a capacidade material seguirá sendo essencial para manter o poder geopolítico e do Estado, os atores mais poderosos do futuro se apoiarão em redes, relações e informações para competir e cooperar. Esta é a lição de política das grandes potências da década de 1900, por mais que essas potências tiveram de aprender e reaprender novamente".

Em outras palavras, ao passo que seria melhor simplesmente esmagar a oposição e "trazer ordem" nos interesses dos Estados Unidos, provavelmente isso não seja possível com uma economia mundial fraca e a falta de fundos. É melhor tratar de "recorrer às redes, às relações e às informações" (ou seja, à espionagem e à manipulação) para obter "cooperação".

Mas não será fácil para os EUA manterem sua posição dominante e voltada para o capital, segundo o relatório do DNI, porque a globalização "tem erodido as classes médias ocidentais (leia-se classes trabalhadoras) e alimentado uma reação contra a globalização". Por outro lado, os fluxos migratórios "são maiores agora do que nos últimos 70 anos, ameaçando esvaziar os cofres do estado de bem-estar e aumentar a competição por postos de trabalho, reforçando os impulsos anti-elite e xenófobos". E "o fraco crescimento, somado às mudanças tecnológicas nos mercados de trabalho, ameaçarão a redução da pobreza e aumentarão as tensões internas nos países durante os próximos anos, o que, por sua vez, alimentará o nacionalismo, contribuindo para as crescentes tensões entre países".

Como se pode ver, o problema é que a população dos EUA e seus aliados capitalistas estão cada vez mais velhas e as novas potências têm populações mais jovens e mais produtivas. No entanto, o capitalismo não pode satisfazer as necessidades dessas populações em crescimento nos chamados 'países em desenvolvimento'. Entretanto, a "automatização e a inteligência artificial ameaçam a mudar a estrutura produtiva mais rapidamente do que a capacidade de adaptação das economias, o que poderia afastar trabalhadores e bloquear a via habitual de desenvolvimento dos países pobres". A isso somam-se as mudanças climáticas e seus desastres ambientais derivados. Tudo isto "tornará mais difícil governar e cooperar, além de mudar a natureza do poder, transformando fundamentalmente o panorama global".

Não é uma perspectiva verdadeira aquela que se oferece por debaixo de todo o falatório otimista e fanfarra que ouvimos da elite rica em Davos, no mês passado. Em contrapartida, o DNI acredita que "os desafios serão significativos, com uma diminuição na confiança do público nos líderes e instituições, uma maior polarização política, e as receitas do governo limitadas pelo modesto crescimento e o aumento dos gastos sociais. Por outro lado, os avanços na robótica e na inteligência artificial tendem a perturbar ainda mais os mercados de trabalho ". O DNI tenta dar esperanças no final desta ladainha de perigos para o capitalismo global, mas não é convincente.

Escrevi antes sobre os sinais cada vez mais evidentes de que a era da globalização e da expansão do capital às custas dos trabalhadores está se esgotando em todos os lugares. Outro indicador disto foi um relatório da Global Financial Integrity (GFI), uma fundação dos Estados Unidos e do Centro de Pesquisa Aplicada da Escola Norueguesa de Economia. O relatório constatou que a falsificação do faturamento comercial e dos paraísos fiscais sugere que os doadores deste mundo são, na verdade, apropriadores. O GFI calculou todos os recursos financeiros transferidos entre os países ricos e os países pobres a cada ano: não apenas a ajuda, o investimento estrangeiro e os fluxos comerciais, mas também as transferências não-financeiras, tais como o cancelamento da dívida, as transferências unilaterais como as remessas de trabalhadores, e as fugas de capital não declaradas (como veremos mais adiante). O que eles descobriram é que o fluxo de dinheiro dos países ricos para os países pobres se desvanece em comparação com o fluxo na outra direção.

Em 2012, o último ano em que temos os dados, os países em desenvolvimento receberam um total de US$1,3 trilhões, incluindo todas as ajudas, os investimentos e as rendas procedentes do exterior. No entanto, nesse mesmo ano, US$ 3,3 trilhões saíram deles. Em outras palavras, os países em desenvolvimento enviaram US$ 2 trilhões a mais do que receberam para o resto do mundo. Se olharmos para esta evasão líquida em todos os anos, desde 1980, elas totalizam US$ 16,3 trilhões – que é a quantidade de dinheiro que foi drenada do sul global nas últimas décadas.

Os países em desenvolvimento transferiram mais de US$ 4,2 trilhões para o pagamento de juros, desde 1980 - uma transferência direta de dinheiro para os grandes bancos em Nova York e Londres, em uma escala que supera em muito a ajuda recebida durante o mesmo período. Outra grande saída de dinheiro são os lucros que os estrangeiros obtêm dos seus investimentos nos países em desenvolvimento e que logo são repatriados. Mas, de longe, a maior parte dessa evasão está relacionada a movimentos não registrados – a fuga de capitais –, geralmente ilícitos. O GFI estima que os países em desenvolvimento perderam um total de US$ 13,4 trilhões por meio da fuga de capitais não registrados, desde 1980.

A maioria destes fluxos não registrados ocorrem através do sistema de comércio internacional. Basicamente, as empresas – tanto nacionais, quanto estrangeiras – registram preços falsos em suas faturas comerciais, a fim de retirar dinheiro dos países em desenvolvimento, com destino direto a paraísos fiscais e contas secretas, uma prática conhecida como "falsificação de faturamento comercial". Normalmente, o objetivo é evadir impostos, mas às vezes esta prática é utilizada para lavagem de dinheiro ou para burlar os controles de capitais. Em 2012, os países em desenvolvimento perderam US$ 700 bilhões através da adulteração de preços comerciais, o que superou o recebimento de ajuda em cinco bilhões, naquele ano.

Mas agora o crescimento do comércio mundial reduziu-se ao mínimo e os fluxos de capital também estão em declínio. Tornou-se mais difícil para as multinacionais e os bancos explorarem os países do sul global para compensar a queda da rentabilidade no hemisfério norte.

A proporção de crescimento importado em relação ao crescimento do PIB real nas principais economias caiu drasticamente.

O relatório do DNI sugere que o aumento da concorrência pelos espólios do imperialismo na década de 1900, conduziu-nos a uma guerra mundial. O DNI reconhece que, "embora a capacidade material siga sendo essencial para manter o poder geopolítico e do Estado, os atores mais poderosos do futuro se apoiarão nas redes, nas relações e nas informações para competir e cooperar". Competir e cooperar? Com Trump na presidência?

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