Podemos contar com a Igreja para fazer resistência a Trump? E que Igreja exatamente?

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22 Fevereiro 2017

"A resistência a Donald Trump não é apenas uma questão de defender a civilização da barbárie. É também, e sobretudo, uma oportunidade de repensar criticamente a própria ideia dos Estados Unidos como 'nação cristã'."

O artigo é de Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, publicado por La Croix, 20-02-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Parte da atual crise do mundo ocidental é um confronto de opiniões entre o nacionalismo étnico e o isolacionismo de um lado e, de outro, uma perspectiva que vê a globalização em termos de universalismo, ecumenismo e diálogo inter-religioso.
Portanto, a crise atual também é religiosa e teológica e as Igrejas têm um papel nela.

O Papa Francisco demonstrou muita prudência e admirável sobriedade ao lidar com o presidente dos EUA, Donald Trump, e as decisões mais ultrajantes de seu primeiro e tumultuado mês na presidência (especialmente a "proibição de viagens").
Mas o lugar do Bispo de Roma nesta crise é evidente.

Em um tweet de 18 de fevereiro, por exemplo, ele disse: "Quantas vezes na Bíblia o Senhor nos pede para acolher migrantes e estrangeiros, lembrando-nos que também somos estrangeiros!"

O Papa tornou-se - desde o início de seu pontificado, em março de 2013 - "um dos mais ferrenhos defensores de imigrantes, muçulmanos e a própria democracia liberal do mundo", conforme Amanda Erickson recentemente resumiu no Washington Post.

A defesa de Francisco à democracia liberal (ou melhor, democracia constitucional) é uma questão historicamente e teologicamente complexa, que está causando desconforto àqueles que acreditam que a Igreja não tem nada a ver com a defesa da democracia ou de qualquer sistema político.

Essas pessoas provavelmente não sabem que desde a Segunda Guerra Mundial a Igreja Católica tem manifestado, à sua maneira, preferência pelas democracias constitucionais, por serem muito mais propensas a respeitar os direitos humanos. Esta não é a questão central.

A verdadeira questão hoje, creio eu, é se podemos contar com a religião - e, especificamente, com a Igreja Católica - para liderar a resistência a um governo como o de Donald Trump, que se opõe claramente aos valores do Evangelho de Jesus Cristo e aos ensinamentos da Igreja sobre uma série de questões morais e sociais.

Devemos nos questionar isto à luz das reações frente à eleição de Trump e ao seu primeiro mês no governo. As Igrejas, incluindo a Católica, foram muito ativas nos protestos contra a medida do presidente proibindo os muçulmanos de entrar nos Estados Unidos, disfarçado como uma "proibição de viagens".

Também vale a pena questionar porque há uma grande tentação de representar o Papa Francisco como o líder da oposição a Trump. Mas essa não é uma solução possível. O Papa é um chefe de Estado, líder de uma comunidade global de 1,2 bilhões de católicos e líder moral para não católicos também.

Mesmo se concebêssemos que Francisco e as diversas frentes anti-Trump estivessem alinhados, o modus operandi do Papa e do Vaticano é diferente do de líderes do partido de oposição.

Por exemplo, durante a Guerra Fria, foi frustrante para muitos católicos na Europa Oriental ver a Santa Sé tendo que trabalhar com os regimes comunistas para que a Igreja sobrevivesse, fato que, às vezes, gerou um sentimento de traição por parte de alguns católicos. O Vaticano sempre pensa longe, não em eleições intercalares ou no fim de um mandato presidencial.

Os cristãos precisam resistir à perversão moral de Trump. Mas há três principais objeções à ideia de que uma frente cristã anti-Trump é uma opção fácil ou prontamente disponível.

A primeira é que o papel da religião na política dos EUA é um dos fatores que levou o país ao lugar onde se encontra hoje. Talvez as Igrejas cristãs tenham tido mais influência na política dos Estados Unidos do que qualquer outro lugar do mundo. Há uma separação constitucional entre Igreja e Estado (separação esta muito amigável e favorável às Igrejas), mas não há separação entre religião e política.

Um fenômeno recente nos Estados Unidos é o da divisão religiosa baseada em linhas partidárias. A política tornou-se religiosa e o Trumpismo aproxima-se muito mais a um culto do que a uma cultura política. Uma laicidade saudável como espaço neutro entre diferentes visões de mundo religiosas e não religiosas ainda está distante do vocabulário estadunidense.

Um dos mais importantes teólogos do país, Stanley Hauerwas, estava certo ao escrever no mês passado: "eu não duvido que Trump se considere cristão, mas os Estados Unidos são sua igreja".

Mas não tenho certeza de que uma "política mais cristã" ou uma cruzada moral anti-Trump denunciando a idolatria a ele possa mudar o curso do nacionalismo religioso nos Estados Unidos. Os europeus (assim como o Vaticano) aprenderam esta lição após a Segunda Guerra Mundial.

O jesuíta polonês Erich Przywara (1889-1972), um dos teólogos do século XX mais conhecidos pelo Papa Francisco e mais presentes em seu pensamento, escreveu um pequeno livro em 1955, chamado A Ideia da Europa. É um dos testemunhos mais importantes da profunda necessidade de os cristãos repensarem sua política numa época em que "cristão" significa mais "como Cristo" e menos "uma expressão sociológica e cultural do cristianismo".

A segunda objeção contra a necessidade de "mais religião" para resistir a Trump é a questão sobre qual religião pode fazer isto. É fato que o cristianismo está profundamente dividido nos Estados Unidos - racial, socioeconômica, ideológica e teologicamente.

Será que o cristianismo e o catolicismo têm força suficiente - e, mais importante, as credenciais - para se opor a Trump? As Igrejas cristãs são incrivelmente vitais para o país, mas o fenômeno Trump é também um apelo para reconstruir o cristianismo estadunidense.

Em relação à Igreja Católica, é um convite para resolver algumas questões teológicas fundamentais que permanecem em uma compreensão medieval ou pré-moderna.

Os bispos católicos dos Estados Unidos, por exemplo, ainda igualam liberdade religiosa à "libertas Ecclesiae" medieval, a Igreja livre do império, ao invés da ideia de liberdade religiosa desenvolvida no Concílio Vaticano II (1962-1965). Isto fica evidente na mensagem recente da Conferência dos Bispos ao presidente Trump sobre a liberdade religiosa. A mensagem não menciona, nem de longe, a liberdade religiosa dos muçulmanos, repetidamente ameaçada pelo governo Trump.

Certamente, há algumas vozes contemporâneas muito importantes na hierarquia dos EUA. Basta considerar o poderoso discurso que o bispo Robert McElroy de San Diego fez, há poucos dias, em uma reunião de líderes comunitários.

Mas os profetas atuais muitas vezes não estão na liderança episcopal. E não sei quem poderia construir uma resposta teológica sólida ao Trumpismo hoje, pois a crise de credibilidade da Igreja Católica tem enfraquecido não só as vozes dos bispos, mas de todos os membros.

A terceira objeção diz respeito ao perigo (a longo prazo) de reduzir a religião ao ativismo político. Para ser claro: tenho convicção de que o Evangelho de Jesus Cristo é a boa nova que liberta as pessoas do pecado pessoal. Mas ela também liberta do pecado social e das estruturas político-sociais pecaminosos.

No entanto, a resistência a Trump não é apenas uma questão de defender a civilização da barbárie. É também, e sobretudo, uma oportunidade de repensar criticamente a própria ideia dos Estados Unidos como 'nação cristã'."

O cristianismo estadunidense ainda se estrutura por uma compreensão providencial de si mesmo - um povo e um país escolhidos que têm um destino singular na história mundial e um papel especial no plano de Deus. Este excepcionalismo teológico dos EUA é um dos fatores do crescimento de Trump.

A oposição religiosa a Donald Trump é absolutamente necessária. É urgente pregar contra a idolatria ao Trumpismo. Mas, a longo prazo, o cristianismo e o catolicismo dos EUA terão que passar por uma conversão teológica que é mais difícil do que apenas pregar contra o novo "imperador".

O principal desafio é repensar a relação entre a "cidade terrena" e a "cidade de Deus", em aspectos diferentes dos dominantes.
Meu ceticismo sobre a Igreja tornar-se a principal oponente ao Trumpismo é que um argumento profético contra Trump pode ser mais complicado do que pensamos - não apenas politicamente ou devido às divisões internas da Igreja. A única política cristã anti-Trump viável é uma teologia que deixa para trás a noção de que os Estados Unidos são o país de Deus e a "cidade construída sobre o monte".

Antes de ser uma solução para Trump, o cristianismo dos EUA deve reconhecer que também é parte do problema. Sua necessária conversão teológica e espiritual, de uma versão corrompida da "cidade de Deus" para uma "cidade terrestre" menos hipócrita, não será fácil. E pode revelar divisões muito mais profundas do que apenas as políticas.

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