Todas as metamorfoses do islamismo. Entrevista com Tahar Ben Jelloun

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21 Fevereiro 2017

O escritor franco-marroquino Tahar Ben Jelloun explica o clima de medo do terrorismo e pergunta: “A quem convém a sobrevivência do Daesh?”.

A reportagem é de Daniela Pizzagalli, publicada no jornal Avvenire, 16-02-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os jovens de hoje têm medo do mundo em que vivem. Dos desastres ambientais à crise econômica, é longa a lista dos motivos de apreensão, e o explosivo terrorismo islâmico contribui seriamente para fomentar as inseguranças.

Para fazer alguns esclarecimentos e fornecer dados históricos e modelos interpretativos em torno desse angustiante fenômeno, eis o livro Il terrorismo spiegato ai nostri figli [O terrorismo explicado aos nossos filhos] (Ed. La Nave di Teseo, 182 páginas), de Tahar Ben Jelloun, o escritor marroquino, mas parisiense por adoção, romancista, poeta e ensaísta que dedicou diversos livros, como “O Islamismo explicado às crianças” (Ed. Unesp), à divulgação dirigida particularmente aos jovens.

Eis a entrevista.

Que aspectos do terrorismo que mais assustam os jovens?

Os jovens têm um forte senso de justiça, ainda não suavizado pelas decepções da vida, e estão revoltados com a injustiça da indiscriminada violência do terrorismo, que, com cegueira e barbárie, atinge imprevisivelmente e em locais designados a entretenimentos alegres, como os cafés ou as discotecas, justamente os locais mais frequentados pelos jovens, que se sentem punidos sem terem feito nada de errado. Eu acho que a violência contra os inocentes é o aspecto mais devastador.

Deixando claro que o terrorismo não é uma filosofia, mas sim um método de ação, você enquadra o fenômeno partindo do terror no tempo da Revolução Francesa e chegando até os nossos dias, com as várias ramificações do terrorismo islâmico. Hoje, o Daesh, que, em palavras, se contrapõe à modernidade ocidental considerada desviante, na realidade, usa a tecnologia mais avançada para atrair os jovens.

Certamente, ele se vale das técnicas mais sofisticadas de marketing, espalha-se nas mídias sociais com vídeos de extraordinária eficácia, com salmodias em loop de versículos corânicos para manipular e doutrinar os jovens. Não se deve pensar que há apenas quatro loucos fanáticos por trás disso. É uma organização poderosa, de marca mafiosa, que se apoderou de bancos e do petróleo e tem apoios em altas instâncias em Estados como a Arábia Saudita e o Qatar.

Por que até mesmo mulheres jovens, que, consideradas como seres inferiores pelo Islã, deveriam ser imunes a essa propaganda, deixam-se enredar e se alistam, apesar de serem imigrantes de segunda geração provenientes de países europeus e, portanto, acostumadas à liberdade e à igualdade?

Bem, esse é um paradoxo inexplicável. Eu buscaria as razões disso em um desconforto psicológico dessas jovens, afetadas por razões pessoais por uma espécie de vitimismo, de complexo de culpa que as leva a se imolarem. Mas, mesmo assim, trata-se de exceções. Na realidade, as mulheres são a modernidade do Islã, são as representantes mais fortes do Islã moderado. São elas que criam associações para fazer crescer a sociedade civil, por exemplo através de iniciativas em favor das crianças abusadas e das mulheres maltratadas.

Por que o Islã moderado não levanta a voz para condenar o terrorismo?

Porque não existe, no Islã, que é, em sua maioria, sem hierarquias, alguém designado para falar oficialmente em nome de todos. Infelizmente, é conhecida a divisão generalizada desde sempre entre os Estados árabes. De fato, não é possível falar de “um mundo árabe”, porque ele não existe. Subsistem rivalidades históricas que se envolvem em pretextos religiosos, mas o ódio fomentado entre sunitas e xiitas depende de questões de interesse. O único chefe de Estado que se pronunciou oficialmente contra o terrorismo foi o rei do Marrocos, em um forte discurso no verão de 2016, em que condenou explicitamente os terroristas, declarando que eles não são verdadeiros muçulmanos.

Se, da parte das grandes potências, houvesse unidade de intenções, o Daesh poderia ser rapidamente debelado?

É claro, e o Daesh sabe disso, tanto que não ataca os Estados Unidos, como fez Bin Laden em 2001. Talvez, hoje, os Estados Unidos não se importam em deixar fermentar o medo do Islã.

Infelizmente, também na Europa, esse medo cresce, especialmente nestes dias, com a banlieue parisiense novamente em chamas.

Isso é outra história, não se trata de terrorismo. É a retomada da contestação que eclodiu ainda em 2005, depois das fortes injustiças sofridas pelos imigrantes dos bairros periféricos, verdadeiros guetos de marginalização, cadinho patológico de miséria, em que o desemprego chega a 45%. Nenhum governo francês tomou medidas para integrar essa faixa da população, mantida sob o chicote de uma polícia muitas vezes racista e violenta, como se viu na infeliz agressão contra o jovem negro que acabou no hospital, que teve a cobertura da imprensa por causa dos inomináveis excessos, mas que não é um caso isolado. Por exemplo, recentemente, um jovem imigrante preso morreu misteriosamente na delegacia. Como eu também digo no meu livro, “esses jovens não consideram a Europa a sua pátria, não desenvolveram um senso de pertença, porque foram abandonados em ambientes patogênicos sem qualquer perspectiva”.

Então, não devemos nos admirar se alguém, depois, cede ao apelo do integralismo islâmico. Vai acontecer o mesmo também nos Estados Unidos, onde até mesmo a polícia muitas vezes mostra traços racistas, especialmente depois da eleição de Trump?

Donald Trump não me assusta, mas sim os 60 milhões de estadunidenses que pensam como ele. Viu-se que o verdadeiro estadunidense não é o intelectual à la Woody Allen, mas o Trump com ideias rudes e simplistas, que funcionam com as massas. Não me atrevo a prognósticos, mas digo apenas que Trump revelou o verdadeiro rosto dos Estados Unidos.

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