Tenente dos Cavaleiros de Malta diz que foi Burke quem pediu que Grão-Mestre da ordem renunciasse

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17 Fevereiro 2017

Em entrevista a um jornal austríaco, o tenente interino da Ordem de Malta informou que esteve presente em uma reunião onde pediram que o Grande Chanceler renunciasse – e disse que foi o cardeal americano Raymond Burke, não o Grão-Mestre, quem fez a solicitação.

A reportagem é de Austen Ivereigh, autor do importante livro The Great Reformer: Francis and the Making of a Radical Pope, publicada por Crux, 15-02-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O capelão dos Cavaleiros de Malta, o cardeal americano Raymond Burke, e não o seu Grão-Mestre, foi quem pediu que o Grande Chanceler renunciasse, segundo o tenente interino dos Cavaleiros.

Ludwing Hoffmann von Rumerstein, austríaco, esteve presente em uma reunião no dia 6 de dezembro em que pediram ao Grande Chanceler, Albrecht Von Boeselager, que se retirasse do cargo que ocupava. A sua recusa e a eventual expulsão com base na desobediência levaram a uma longa contenda com o Vaticano, que acabou exigindo que ele fosse reinstalado. O Grão-Mestre da ordem, Matthew Festing, acabou renunciando em 24 de janeiro. O Soberano Conselho reinstalou Boeselager e nomeou Hoffmann von Rumerstein para ser o Tenente ad interim.

O pretexto para a destituição de Boeselager era que o reformador alemão tinha sido, em anos anteriores, encarregado do ramo humanitário da ordem, Malteser International, que, durante um tempo, financiou organizações que usavam camisinhas em projetos de prevenção à Aids entre os pobres.

Desde então, a questão foi investigada e Boeselager não foi considerado culpado, mas Burke acabou recebendo ou ele mesmo encomendou um relatório por um grupo tradicionalista de Nova York que trouxe novas provas ao caso.

Reportagens informaram que Festing havia pedido que o alemão renunciasse, enquanto Burke teria permanecido sentado em silêncio no local. Em outras ocasiões, Burke negou a versão de Boeselager de que o cardeal invocara a autoridade do papa para justificar o desligamento.

Mas em entrevista a um jornal austríaco, Hoffman-Rumerstein apresenta uma versão bem diferente.

“O diálogo aconteceu de uma forma conversacional normal”, contou ele ao jornal austríaco Der Standard. “Boeselager disse não ao pedido do Cardeal Burke para que renunciasse. E eu acompanhei o cardeal até o carro”.

Perguntado sobre a reação do cardeal, Hoffman-Rumerstein afirmou: “Ele balançou a cabeça. Não ficou contente, poderíamos dizer. Ele esperava que Boeselager fosse renunciar”.

Mais adiante na entrevista, Rumerstein confirma que a reunião de 6 de dezembro “era, na verdade, uma conversa entre o Cardeal Burke e Boeselager”.

Há tempos fontes internas da ordem insistem que o cardeal esteve por trás do desligamento, porém até agora ninguém havia dito publicamente que Burke, de fato, fez o pedido.

Esta revelação irá também levantar novas dúvidas sobre os comunicados feitos pela ordem cavalheiresca no mês de dezembro em resposta às cartas da secretaria de Estado que convocavam Boeselager para ser reinstalado.

Os comunicados, que insistiam que a Ordem de Malta era soberana e que não precisava prestar contas de si ao papa, teriam sido produtos da vontade de Burke.

Mas se o relato de Hoffmann-Rumerstein estiver certo, então foi Burke, e não o papa, que poderá ter violado a soberania dos Cavaleiros: uma decisão de destituir um membro do Soberano Conselho só pode ser tomada pelo Capítulo Geral da ordem, não pelo capelão do papa, ou “patronus”, que representa a Santa Sé.

Hoffmann-Rumerstein conta ao Der Standard que os membros do Soberano Conselho foram eleitos pelo Capítulo Geral e que só podem ser removidos com o seu consentimento – o que dá a entender que as ações de Burke foram ilegais de acordo com a constituição da própria ordem, tal como insistiu na época Boeselager.

“Os membros do Capítulo Geral nos elegem. Existem dúvidas sobre se o Cardeal Patrono [Burke] pode até dizer ‘Você tem de renunciar’. Seria preciso voltarmos ao Capítulo Geral”.

Hoffmann-Rumerstein descreveu como “absurda” a noção de que, ao pedir a reinstalação de Boeselager e ao enviar um delegado papal para supervisionar alterações na ordem, o Vaticano violara, de alguma forma, a soberania da ordem.

“Somos uma ordem leiga religiosa. Por meio dos membros professos, somos reconhecidos como uma ordem plena, como há muitas outras ordens na Igreja. E, é claro, somos plenamente sujeitos ao Vaticano no concernente a questões morais e religiosas (...) Estamos subordinados à Igreja Católica”.

Sobre o pretexto usado para destituir Boeselager – o uso de camisinhas em projetos financiados pela Malteser International –, o Tenente interino disse que “não era nenhuma surpresa em uma organização desta complexidade e tamanho” e que “a presidência sempre esteve informada e as consequências certas foram tomadas”.

Hoffmann-Rumerstein igualmente negou afirmações presentes em duas reportagens sobre a reunião do Soberano Conselho de 20 de janeiro, segundo as quais a ordem ratificava a renúncia de Festing feita ao Papa Francisco poucos dias antes. Ele diz que nunca ouviu Festing descrever o Papa Francisco como um inimigo seu, conforme diz a reportagem de Christopher Lamb do jornal The Tablet. Ele também negou uma reportagem de Edward Pentin, do sítio National Catholic Register, segundo a qual houve “um punhado” de votos de eleitores que não aceitavam a renúncia de Festing.

Perguntado se a votação foi unânime, o Tenente respondeu que “não foi nem um, nem outro”, acrescentando que “têm também pessoas que não querem uma unanimidade e que, portanto, fazem um sinal de que não é unânime”.

Hoffmann-Rumerstein falou que o delegado do papa, Dom Angelo Becciu, for a nomeado para “ajuda com as mudanças da nossa ordem religiosa, especialmente na adaptação aos tempos modernos”.

Entre as mudanças está uma emenda à constituição que irá abolir a exigência de que o Grão-Mestre seja de linhagem nobre remontando, pelo menos, a 150 anos. “Essa regra vai ter que mudar”, declarou Hoffmann-Rumerstein na entrevista.

Disse ainda que o número dos membros elegíveis para o cargo de Grão-Mestre – atualmente são apenas 12 – era demasiado pequeno, e que uma idade-limite precisava ser introduzida para o Grão-Mestre.

“Este é um outro indicativo que tive do Vaticano: aqui vocês deveriam mudar algo”, disse ele, acrescentando que o tema fora discutido em 1997, mas que não se estabeleceu nenhuma idade-limite.

“Hoje, depois de 20 anos, algo assim é absolutamente necessário”, falou, dizendo também que, a seu ver, os Grão-Mestres deveriam renunciar aos 80 anos.

Segundo ele, mudanças serão feitas ao longo dos próximos dos anos, quando o próximo Capítulo Geral vai eleger um novo Grão-Mestre.

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