Carta aberta a Daniel Ortega em defesa de Ernesto Cardenal

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17 Fevereiro 2017

“Todos sabem que bastaria um gesto da sua Corte de Justiça para que cessem os assédios e a perseguição a Ernesto Cardenal”, escreve Fernando Butazzoni, em uma carta aberta publicada no jornal nicaraguense Confidencial, 15-02-2017. A tradução é de André Langer.

Fernando Butazzoni é escritor, roteirista e jornalista uruguaio. Traduzido para cerca de 10 idiomas, é ganhador de vários prêmios internacionais de Literatura e Cinema. Combateu na Frente Sul Benjamín Zeledón sob as ordens do comandante Javier Pichardo. Entrou em Manágua com as tropas no dia da vitória da revolução e depois foi destacado para o Batalhão Blindado, que tinha sua sede em Loma de Tiscapa (na época conhecida como El Chipote), onde permaneceu até janeiro de 1980.

Eis a carta.

Daniel: você se lembra quando me disse, lá em El Chipote, que admirava Ernesto Cardenal e que ele era uma glória da Nicarágua? Naquela época, estávamos todos felizes, porque El Chipote, no coração de Manágua, já não era um lugar sinistro. Estava, finalmente, bem iluminado, cheio de rapazes e moças que não tinham medo. Até as águas da lagoa de Tiscapa pareciam menos escuras.

Isso foi lá por agosto ou setembro de 1979, quando a revolução estava apenas começando. Naquela tarde, você veio ao acampamento com Javier Pichardo, o Emilio da Frente Sul e com outros companheiros comandantes. Também estava presente o magro Alejandro e ao meu lado estava a China, um pouco assustada. Estavam presentes também o Braulio, que depois foi embaixador, e a irmã de Marisol, que parecia uma menina disfarçada de soldado. Você se lembra?

Aconteceu, depois, que a sua admiração pelo poeta Ernesto Cardenal transformou-se em ódio e perseguição. E agora, passados quase 40 anos, você e sua mulher seguem enfurecidos com ele, e com confusões legais querem humilhá-lo tirando-lhe os poucos reais que possa ter, confiscando-lhe a casa onde mora e deixando-o na rua. Certamente, ele é um opositor ao seu governo, mas a revolução sandinista foi feita também para isso: para que os opositores não tivessem que andar escondidos, para que não fossem perseguidos nem torturados ali, justamente ali, em El Chipote onde você esteve preso. Você disse que a revolução foi feita para a liberdade. O que aconteceu, Daniel? Você se esqueceu de tudo isso?

Em 1979, nós dois éramos jovens. O fraco Alejandro, a China e o Braulio também. Mas Cardenal já era um cinquentão de barba branca, um padre magrinho e sempre tímido. Ele já era um patrimônio nacional. Por isso, você o nomeou ministro da Cultura, porque seu prestígio adornava o seu governo.

Hoje, ele é um idoso de 92 anos, e é um patrimônio do idioma e de toda América Latina. Tem muito mais prestígio agora do que em 1979. O mesmo não acontece com você, Daniel, porque você tem muito mais poder e muito mais dinheiro que naquela época. Ele é um padre decente, pobre e revolucionário, admirado em todo o mundo. Você é apenas um reizinho preso em seu palácio e, pelo que dizem, quase um príncipe consorte.

Todos sabem que bastaria um gesto da sua corte para que cessem os assédios e a perseguição a Ernesto Cardenal. Somos milhares de escritores e artistas que, em todo o mundo, exigem há anos que deixe o poeta em paz. Muitos pensam que fazer esse pedido mais uma vez é um gesto inútil. Em todo o caso, é um gesto de dignidade que o povo da Nicarágua merece. Peço que o leve em consideração.

Sei que uma carta aberta é um método de comunicação bastante reprovável. Mas, neste caso, é a única maneira de tentá-lo, já que o seu embaixador em Montevidéu, o filho de Licio Gelli, não merece nenhuma confiança, e lá no seu palácio proibiram a minha entrada.

Montevidéu, 12 de fevereiro de 2017.

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