De joelhos diante do terror

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17 Fevereiro 2017

“A fé na capacidade de controle da contingência, via técnica (o Excel existencial é só um filho bastardo desse projeto), nos torna mais infantis do que os antigos. Quanto mais o mundo avança, mais ignorantes ficamos no que se refere a uma reflexão mais madura sobre o terror da contingência em nossas vidas. Quanto mais a fé no controle, como diz [Nassim Nicholas] Taleb, maior a queda. A reverência diante do terror da contingência, tão presente nos antigos, falta entre nós”, escreve Luiz Felipe Pondé, em artigo publicado por Gazeta do Povo, 06-01-2016.

Eis o artigo.

Existem terrores na vida aos quais devemos prestar reverência. O filme “Manchester à Beira-Mar”, dirigido por Kenneth Lonergan e com Casey Affleck no elenco, é um caso desses. Devemos assistir a esse filme de joelhos. E fazer silêncio.

Não vou dar spoiler, mas o tema do terror como limite psicológico e filosófico se impõe, principalmente em épocas em que algumas formas de terapia acreditam no controle absoluto da vida mediante um Excel existencial.

A contaminação da vida existencial pelo marketing existencial do sucesso, em breve, se constituirá numa das priores pragas conhecidas na história da espécie humana. E, quando isso cruzar com as neurociências, Aldous Huxley considerará, do alto da sua eternidade, seu “Admirável Mundo Novo” uma história para ninar crianças. A estupidez atingirá seu grau de “ciência”.

Para um psicanalista (e não estou confundido a psicanálise com praticantes de planilhas de Excel existencial, pois respeito a psicanálise), enquanto ele não encontrar um paciente para quem nada pode ser dito que valha a pena ser dito, talvez não tenha atingindo sua maturidade como profissional ou ser humano.

Dizer, como diz Lee Chandler (personagem de Casey Affleck), num dado momento do filme, perto do final, “I can’t beat it” (”não consigo vencer isso”), ao se referir ao terror que destruiu sua vida, pode ser um modo de saúde mental possível diante do terror absoluto. Às vezes, na vida, pode não haver nenhuma saída que pareça “boa” para uma alma imatura que acredite que sempre existem saídas “boas”.

Os gregos trágicos sabiam bem disso. A tragédia nos impõe terror e piedade, como dizia Aristóteles. Lee Chandler é um típico herói trágico. Diante dele, devemos cair de joelhos e ficar em silêncio porque ele encarna o máximo do sofrimento que um homem pode suportar sobre suas costas. E, para além do que o filme narra de específico, Lee Chandler caminha ao lado de Édipo, Antígona e Medeia, entre tantos outros que merecem nossas lágrimas de reverência.

Por isso, o filme é mais do que um drama, é uma tragédia, no sentido técnico do termo: Lee Chandler é um bode no altar do sacrifício. “Tragos”, em grego antigo, origem da palavra “tragédia”, significa o animal bode, muitas vezes sacrificado aos deuses. O personagem de Casey Affleck encarna o paradigma do impasse humano diante de forças que o dominam e destroem sua vida, sem piedade.

Para os modernos e pós-modernos, espécie de retardados que creem firmemente que a vida “melhorou” por conta do iPhone 7 e das mídias sociais, a tragédia permanece um monólito (um pouco a semelhança do misterioso monólito do filme “2001, uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick) desafiando nossas ferramentas de controle da contingência cega, conceito central para a tragédia.

A modernidade, tal como a descreve Nassim Nicholas Taleb em seus dois livros essenciais, “The Black Swan” e “Antifragile”, se caracteriza pela crença cega na capacidade de controle da vida, aliás, projeto evidente na filosofia de um dos pais da modernidade, o filosofo inglês Francis Bacon (1561-1626).

A fé na capacidade de controle da contingência, via técnica (o Excel existencial é só um filho bastardo desse projeto), nos torna mais infantis do que os antigos. Quanto mais o mundo avança, mais ignorantes ficamos no que se refere a uma reflexão mais madura sobre o terror da contingência em nossas vidas. Quanto mais a fé no controle, como diz Taleb, maior a queda. A reverência diante do terror da contingência, tão presente nos antigos, falta entre nós.

Não é outro o tema do livro “Reverence” de Paul Woodruff. A reverência é uma virtude esquecida. Em épocas de palestras estridentes sobre liderança, sucesso, carreiras, autoajuda profissional e outros quebrantos, Woodruff nos lembra como a reverência é uma virtude que molda nosso caráter, nos elevando à mais poderosa de todas a virtudes, a humildade.

Caro psicanalista, o que você faria se um dia topasse com Antígona em seu consultório? A reverência diante do fracasso é uma virtude urgente. A santidade na tragédia não é outra coisa.

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