Sem emprego, senegaleses no mercado informal vivem rotina de apreensões e agressões

Revista ihu on-line

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

Edição: 542

Leia mais

Mais Lidos

  • Uma análise de fundo a partir do golpe de Estado na Bolívia

    LER MAIS
  • Gregório Lutz e a reforma litúrgica no Brasil. Artigo de Andrea Grillo

    LER MAIS
  • Lula desequilibra o jogo. Craque é craque

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

17 Janeiro 2017

No meio da tarde da última sexta-feira (13), pessoas que passavam pela Avenida Borges de Medeiros, no Centro de Porto Alegre, pararam para protestar contra uma ação da Brigada Militar. Dois policiais — segundo a página O Bah, que postou um vídeo do episódio, sem a devida identificação nas fardas — levaram para registrar ocorrência um senegalês que comercializava produtos como rádios de pilha e fones de ouvido a poucos metros do Mercado Público. Nas imagens, um dos brigadianos chega a dizer para uma senhora que reclama da atitude da BM: “vai reclamar com a Dilma”. Toda a mercadoria do senegalês foi apreendida.

A reportagem é de Fernanda Canofre, publicada por Sul21, 16-01-2017.

O episódio ficou conhecido durante o final de semana, depois de correr as redes sociais com mais de 6 mil compartilhamentos. Mas não é novidade. O próprio comandante do 9º Batalhão da Polícia Militar, Tenente-Coronel Marcus Vinícius, afirma que o que aconteceu na sexta-feira, “acontece diariamente no Centro” de Porto Alegre. Conversando com alguns senegaleses que trabalham na mesma região, a maioria conta que já teve mercadorias apreendidas duas, três, seis vezes pela Brigada e pela Prefeitura Municipal.

Segundo o Tenente-Coronel Marcus Vinicius, as ações da Brigada tentam coibir a comercialização de produtos piratas e sem procedência comprovada. Caso o dono dos produtos tenha nota fiscal, comprovando que não são fruto de roubo ou furto, pode recuperar as mercadorias na Secretaria de Desenvolvimento Econômico (a antiga Smic). Ele explicou ainda que o senegalês que aparece no vídeo já foi liberado porque não havia “ilícito penal”.

Para conseguir as mercadorias que vendem nas ruas, os senegaleses têm que pagar por elas com antecedência. Ou seja, quando ocorre uma apreensão, se perder todos os produtos, o migrante que se arrisca a vender como ambulante arca sozinho com os custos. O que geralmente significa o equivalente a dois ou três meses de trabalho.

Esse é o tempo que Alassni Mpoue, que vende óculos de sol e bermudas na Borges, calcula que vai precisar para recuperar os cerca de R$ 3 mil em mercadorias apreendidas na semana passada. Aos 24 anos, ele é parte de um perfil que tem se revelado comum entre os migrantes senegaleses: solteiro, sem filhos, Alassni está no Brasil para conseguir sustentar os pais e sete irmãos que ficaram em Dakar, capital do Senegal.

“Aqui no centro é muito perigoso. A justiça não protege os imigrantes e [a gente] não ganha muito. Se aqui [no Brasil] tivesse emprego, ninguém trabalhava na rua”, afirma ele. Ainda que o preço do aluguel caro e o custo de vida o levem a repensar a situação no Brasil, diz que as alternativas são ainda piores. “Nós ficamos porque não tem emprego [no Senegal], tem família e quer ajudar. Nós não roubamos, só queremos trabalhar”.

Agressões por rixa de pontos também são rotina

Os riscos enfrentados pelos migrantes que tentam sobreviver no mercado informal vão além das apreensões da Polícia Militar. Agressões e ameaças também são rotina para quem tenta vender produtos pela região do centro. Segundo o presidente da Associação dos Senegaleses em Porto Alegre, Mor Ndiaye, só no começo deste ano, em oito dias ele chegou a registrar três boletins de ocorrência por ameaças de morte e agressões contra senegaleses que vendem pela região do centro da Capital.

Algo reconhecido pelo próprio comandante do 9º BPM, responsável pela área. “A gente sabe que há uma disputa muito grande por espaço, cada um tem seu ponto, seu canto ali. Quando entra um terceiro elemento sempre vai ter concorrência e acabam acontecendo esses episódios”, analisa o tenente-coronel Marcus Vinicius.

Dois senegaleses ouvidos pela reportagem, por exemplo, contaram que na semana passada um conterrâneo que tentava vender seus produtos pela Rua dos Andradas foi agredido com um pedaço de ferro na cabeça. Ele teve o olho ferido e precisou parar de trabalhar por alguns dias. O homem não quis procurar a polícia para registrar ocorrência. Entre os senegaleses, quando se fala em denúncias, todos eles parecem ter a mesma ideia: não adianta.

Bili Ndiaye chegou há um ano no Brasil. Depois de passar nove meses procurando emprego em canteiros de obras e empresas, precisou começar a vender produtos na rua para enviar dinheiro à família, também em Dakar. “Eu ouvi que aqui é bom, tem emprego e vim porque quero ajudar a família”, conta. A realidade que ele encontrou, no entanto, já o está levando a pensar em ir embora. “Aqui é muito perigoso, tem muito bandido e a polícia não faz nada”.

Entre os migrantes há um sentimento de impunidade e de que, quando olha para eles, a justiça é indiferente. As mortes de senegaleses vítimas de violência urbana parecem corroborar essa sensação. Fall Khalim lamenta a perda do amigo Basirou Diop, assassinado na Praça da Matriz, no último dia 06, quando voltava do trabalho para casa. A polícia trabalha com a hipótese de latrocínio. Foi Basirou quem o chamou para vir a Porto Alegre, há três anos. “Reclama com a polícia e não faz nada. Às vezes, fica uma briga de brasileiros com senegaleses. Todo mundo tem medo de agressões, mas a gente se cuida. Não dá para ter medo”, afirma Fall.

Desde que chegou no Brasil, Fall trabalhou no almoxarifado de uma empresa, com lavagem de carros e como frentista de um posto de gasolina. O tempo todo manteve o trabalho como vendedor ambulante como uma segunda fonte de renda. Ao contrário da maior parte de seus conterrâneos que espera um emprego de carteira assinada, Fall desistiu dela. Os salários muito baixos e problemas de contrato, muitas vezes não cumpridos pelos patrões, o levaram a optar pela venda na rua como emprego de tempo integral. “É melhor para nós, porque o serviço ‘rouba’ as pessoas. Agora trabalho com as minhas coisas”, diz ele.

Fall perdeu todas as mercadorias que tinha em apreensões quatro vezes. Apesar das dificuldades e de ocupar um dos pontos mais difíceis para ambulantes, próximo ao local onde o outro senegalês foi levado pela Brigada na sexta, ele não pensa em ir embora. “O Brasil é um país legal, só a justiça que precisa ajudar”.

Até o fechamento desta reportagem, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, responsável pela fiscalização do comércio no centro, não havia retornado ao pedido de entrevista do Sul21.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Sem emprego, senegaleses no mercado informal vivem rotina de apreensões e agressões - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV