As dúvidas dos quatro cardeais, como Bacci e Ottaviani em 1969. Artigo de Andrea Grillo

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13 Janeiro 2017

“Hoje, os quatro cardeais – assim como dois cardeais (Bacci e Ottaviani) na época do Concílio – caem na mesma armadilha de um grave mal-entendido, que inverte o sentido da doutrina eclesial.”

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua.

O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 30-12-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em um balanço de fôlego maior, no fim do ano, uma reflexão sobre a carta com a qual quatro cardeais levantam dúvidas sobre a Amoris laetitia não pode deixar de captar uma surpreendente analogia com o que aconteceu há quase 50 anos, depois do encerramento do Concílio Vaticano II e a elaboração do novo Ordo Missae. Hoje, os quatro cardeais, assim como na época dois cardeais (Bacci e Ottaviani), caem na mesma armadilha de um grave mal-entendido, que inverte o sentido da doutrina eclesial.

Gostaria de tentar oferecer um rápido paralelo deles, na esperança de que seja útil para a consciência comum:

a) Um paralogismo de fundo: Amoris laetitia e o Vaticano II como “causas” e não como “efeitos”

Entre as formas mais evidentes de erro, devemos considerar, acima de tudo, o “truque” de confundir a causa com o efeito. Como fizeram, na época, Bacci e Ottaviani, e como na sua escola repetiram há décadas Messori e Bux, De Mattei e Langone, agora os quatro cardeais também invertem causas e efeitos. Então e hoje se dizia: antes do Vaticano II havia uma clara experiência eclesial da missa e do padre, enquanto que o Concílio arruinou tudo isso e o comprometeu seriamente; antes da Amoris laetitia havia uma clara doutrina sobre a família, depois da Amoris laetitia, há dúvida e confusão...

Aqui encontramos em ato um erro histórico e um preconceito ideológico. O Concílio há 50 anos e o Sínodo nos últimos três anos abordaram uma situação que vivia há décadas uma profunda crise, da Igreja e da família. A crise foi a causa e não o efeito: Concílio e Sínodo são efeitos de uma crise, e não causas de uma crise. Só pode se permitir inverter causa e efeito quem vive sem qualquer relação com a realidade, imerso em uma ciumenta autorreferencialidade. Concílio e Sínodo respondem a questões pré-existentes. Só podem se tornar não respostas, mas “problemas”, para quem ignora tais questões pré-existentes.

Por isso, é singular notar a semelhança entre as dúvidas de Bacci e Ottaviani em 1969 e as de Burke e Caffara em 2016. As paixões tristes desses cardeais esquecem que o seu objeto de dúvida é a resposta a condições eclesiais e familiares que, há décadas, levantavam dúvidas reais, questões profundas e desconfortos incontornáveis. As “dubia” pressupõem uma evidência aproblemática que existe apenas como “preconceito”. E idealizam um passado que nunca existiu. Como disse o Papa Francisco, também na Amoris laetitia, em toda idealização esconde-se uma agressão. E a dúvida se torna agressiva: não contra o papa, mas contra a realidade.

b) A incapacidade de valorizar os percursos conciliares e sinodais

O segundo ponto de proximidade singular entre o estilo cardinalício de hoje e o de 50 anos atrás está na indiferença – e na impaciência – em relação aos estilos conciliares e sinodais. Um Concílio e um Sínodo não são considerados de modo algum como lugares de autoridade. O princípio de autoridade, que anima as palavras e os gestos também clamorosos dos cardeais de hoje, se assemelha à falta de reconhecimento que Ottaviani e Bacci reservaram, em 1969, ao longo e minucioso trabalho conciliar e pós-conciliar sobre a liturgia eucarística. Assembleias plenárias, comissões, confrontos, debates, mediações: tudo se reduz ao “sim” ou “não” à tradição, enrijecido em uma lógica quase referendária.

A “fidelidade à tradição” se torna, assim, tradicionalismo, quando se torna quase incapaz da arte de traduzir, a serviço de novas experiências de culto e de família. Devemos reconhecer isso como um erro tipicamente tardo-moderno. Se dissermos – de modo forçado e caricatural – que existe apenas a “missa de sempre” e a “família de sempre”, encontramo-nos imediatamente fora da longa e articulada tradição eclesial, que assegurou, com mil mediações, um “desenvolvimento” da tradição eucarística e familiar, feita de tantas pequenas e grandes traduções, entre culturas diversas, entre línguas diversas, entre teorias diversas, a fim de assegurar à Igreja a autoridade de poder falar ainda aos homens deste nosso tempo.

c) A negação “antimodernista” da autoridade eclesial

Um terceiro ponto em comum entre antigas e recentes hesitações duvidosas está na matriz “antimodernista” da leitura proposta pelos cardeais: toda novidade é percebida e vivida como fracasso, negação, perda de evidência e recuo da tradição cristã.

Aqui tocamos um ponto particularmente delicado: ele une dois aspectos que normalmente pensamos não só como separados, mas também opostos. Ou seja, a “luta contra o modernismo” e a “negação da autoridade”. Na carta de 1969 e na de 2016 aparece bastante claramente a pretensão de um “estilo magisterial”, em que, a fim de combater os “deslizes modernistas”, chega-se a paralisar totalmente a autoridade da Igreja. Na opinião deles, para ser de autoridade, só se pode repetir o passado.

Desse modo, a “fidelidade à tradição” é identificada com a imutabilidade dos detalhes disciplinares recebido da práxis recente. Por isso, o altar voltado para o oriente na celebração eucarística ou a definição do matrimônio do Código de 1917 tornam-se “articuli stantis aut cadentis ecclesiae”. Os cardeais de então como de hoje estão tão assustados com a evolução da tradição que estão dispostos a negar a autoridade da Igreja – do papa, do Concílio ou do Sínodo – a fim de permanecerem apegados aos seus hábitos reconfortantes, teóricos e práticos.

As verdadeiras dúvidas que esses “bons hábitos” levantam há décadas no povo de Deus não têm palavra aos ouvidos dos cardeais, enquanto dão voz com o megafone apenas às dificuldades sinceramente sentidas, mas de homens da Igreja enrijecidos nas suas práticas autorreferenciais. Uma escrivaninha bem ordenada – ou uma prática bem protocolada – é confundida com a obediência à vontade de Deus.

O novo ano, que também será o ano de aniversário do primeiro Código de Direito Canônico da história da Igreja, deverá nos induzir a refletir sobre essas analogias, para nos libertar dos fantasmas do passado. Como disse Francisco, fazendo seus votos à Cúria Romana no dia 22 de dezembro passado, é preciso que a Cúria Romana seja caracterizada pela “modernidade (atualização), ou seja, pela capacidade de ler e de ouvir os sinais dos tempos”.

Justamente isso parece faltar nas cartas cardinalícias de 1969 e de 2016. Somente com a esperança dessa atenta leitura dos sinais do nosso tempo poderemos evitar aquela presunção e aquele desespero que são precisamente os dois vícios opostos: vícios precisamente porque não têm mais qualquer necessidade de esperança.

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