"No Brasil, muitos preferem vingança à aplicação de justiça"

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12 Janeiro 2017

Em entrevista à DW Brasil, 11-01-2017, o sociólogo Sergio Adorno, coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), afirmou que a sociedade brasileira tem um histórico de intolerância com a diferença e que essa intolerância é constitutiva da estrutura social do país.


"Há um lado cordial, certamente, que não podemos ignorar. Em momentos de crise as pessoas são solidárias, sofrem com a dor do outro. Mas, no cotidiano, as pessoas também são muito pouco solidárias com a dor do outro quando essa dor envolve, por exemplo, o mundo do crime", analisou. "As pessoas dizem assim: 'Se ele cometeu um crime não merece a minha consideração'."

Ao analisar crimes recentes cometidos no Brasil, os massacres em presídios e as reações da sociedade no país, o sociólogo observa que "uma onda conservadora" se espalha pelo mundo, sendo que na América Latina, em especial, há uma cultura favorável à ideia de que criminosos "apodreçam na prisão". O professor estabelece uma conexão entre essa ideia e a falência dos modelos democráticos contemporâneos de representação política. A atual conjuntura brasileira, de perturbação política e econômica, segundo ele, leva a uma "profunda descrença no futuro e em valores fundamentais", além de estimular "opiniões muito reacionárias".

"No Brasil ainda temos esse sentimento primário, que está lá na raiz da nossa consciência, de que a punição deve ser de tal maneira exemplar que você tem que retirar esse indivíduo do convívio dos humanos", explicou. O discurso do combate ao terrorismo na Europa, acrescentou, segue essa mesma matriz de pensamento.

Eis a entrevista.

Crimes que ocorreram recentemente no Brasil chocaram sobretudo pelo aspecto da intolerância. Há uma onda de intolerância no país, no que se refere a direitos individuais? Seria possível estabelecer uma relação entre a intolerância e a ascensão do conservadorismo?

Em primeiro lugar, essas questões de intolerância não são recentes. Há uma longa história no Brasil de intolerância com os mais pobres, com os negros, com as mulheres, com as crianças dentro de casa etc. Então a intolerância para com a diferença, sobretudo com a diferença que não se sujeita às relações hierárquicas, é um dado histórico e constitutivo da estrutura da sociedade brasileira.

Não é um fenômeno novo. O que é novo é que, primeiro, ele está sendo cada mais problematizado, seja pela dinâmica da sociedade, seja pela organização dos movimentos sociais. As denúncias são mais constantes, e há mais pressões pela apuração da responsabilidade de atos de intolerância que comprometem a integridade física e moral e a identidade social de grupos sociais determinados. Isso tudo tornou, ao que parece, esse fenômeno mais visível e, portanto, mais suscetível a discussões públicas e à inquietação pública.

Agora, de fato nós estamos assistindo a uma onda conservadora no mundo inteiro, e ela tem impactos no Brasil. E como o Brasil também tem suas raízes muito conservadoras, isso mobiliza disputas em torno de comportamentos, sobre o que é considerado justo e injusto, certo e errado, o que seria o comportamento ideal de homens e mulheres, comportamento ideal de alunos e estudantes, e coisa parecida. Dada a crise institucional e política que o Brasil está atravessando, o tecido social fica muito mais sensível. Tudo é objeto de censura, de acusação do outro. É isso que estamos vivendo no momento.

Entendo que o mundo inteiro está atravessando uma era de crise de valores em relação à justiça, aos direitos, à qualidade de vida. Tudo isso, no fundo, é um processo de perturbação que afeta a capacidade de compreensão e a simbolização da experiência de vida, o que significa que as pessoas estão permanentemente sob tensão, como se estivessem permanentemente em situação de serem atacadas e de atacar. Basta ver o comportamento das pessoas no trânsito, por exemplo.

O que explicaria essa onda conservadora do mundo?

Ela deve ter causas muito mais complexas do que eu poderia mencionar. Parte delas têm a ver com os desdobramentos da vida democrática contemporânea e, sobretudo, com as crises dos modelos de representação política. Há uma sensação de que as pessoas não são ouvidas. Uma sensação de que há um desencontro profundo entre governantes e governados. Isso não quer dizer que regimes autoritários têm soluções melhores. Ao contrário. Regimes autoritários jamais permitem que haja livre manifestação, pluralidade de expressões. Mas isso significa que algo na democracia está em processo de mudança.

Acho que estamos num momento de criação de novos canais de participação e representação. Um canal são as chamadas mídias sociais, que, ao mesmo tempo em que inauguram uma espécie de "ágora globalizada", também bloqueiam a possibilidade de uma conversa interativa de fato. Eu posso emitir as minhas opiniões, atacar quem quer que seja, e é como se eu me sentisse satisfeito por isso. Agora, o que aconteceu com o outro, que impacto isso teve, é como se isso não me interessasse.

Qual seria o papel das redes sociais no fomento da intolerância?

Eu acho que elas têm um lado positivo porque permitem maior circulação de informações, de opiniões. Mas não é um espaço de autocrítica porque você não é confrontado com as críticas dos seus pares. Precisaríamos entender qual é a natureza dessa interação, se ela existe. O que caracteriza a sociedade de massas, que surge após os processos revolucionários, é que eu posso falar, mas também tenho que ouvir o outro. E este ouvir significa a construção de um consenso em algum lugar, seja na câmara, nos espaços privados, nas ruas, etc. Algum consenso constrói orientações para uma conduta cotidiana.

As redes sociais não necessariamente se constituem nesse espaço que imaginávamos que deveria ser essa grande ágora globalizada. É difícil as pessoas reconhecerem que os outros também têm razão. Em geral as pessoas acham que elas mesmas têm razão e os que pensam diferente que continuem pensando diferente e pouco importa a contribuição que possam dar para o enriquecimento da vida coletiva.

A imagem do Brasil ainda conserva muito da visão do "homem cordial". Esse tensionamento político recente do país, que provou atos de violência, pode ter sido transportado também para questões comportamentais?

Essa imagem do homem cordial é uma imagem bastante questionável. Claro que toda sociedade, pela cultura, tem diferentes aspectos. Posso falar em conservadorismo, mas lógico que existem forças progressistas na sociedade. Posso falar em autoritarismo social, mas claro que existe também uma cultura política e democrática, que disputam espaços, convivem.

Há um lado cordial, certamente, que não podemos ignorar. Em momentos de crise as pessoas são solidárias, sofrem com a dor do outro. Mas, no cotidiano, as pessoas também são muito pouco solidárias com a dor do outro quando essa dor envolve, por exemplo, o mundo do crime.

As pessoas dizem assim: "Se ele cometeu um crime não merece a minha consideração". Estão matando nas prisões, dizem: "Buscou, mereceu". Então tem esse lado ambíguo o tempo todo, essa coisa claro-escuro. As pessoas confiam umas nas outras até certos limites. Há sempre a sensação de que o indivíduo possa vir a cometer um ato que o reprove socialmente e, portanto, ele teria que estar excluído da convivência coletiva e social. Você dá poucas oportunidades de ouvir o que as pessoas têm a dizer.

Vamos pensar num caso de alguém que seja imputado de crime de preconceito. Você teria que dar o direito às pessoas de refletirem e fazerem a autocrítica. Mas há a tendência, sobretudo nas redes, de ser um espaço acusatório. Mesmo que não tenha feito nada intencionalmente, você não tem o direito de defesa. E se você se defender, será ouvido por um número muito pequeno de pessoas. O que quero dizer é que essa imagem do homem cordial sempre conviveu com uma sociedade muito violenta, e com pessoas muito violentas. Maus tratos a crianças e adolescentes sempre existiram, mas antigamente não eram vistos como problema. Hoje são.

Mas pelo fato de serem mais evidentes, e não porque aconteçam mais ou menos desses casos?

Exatamente.

No caso do massacre de Manaus o próprio governador do Estado citou que os presos não eram "santos", como se isso pudesse legitimar a matança e corpos degolados. O brasileiro teria, na sua opinião, um certo lado moral de que o "bandido tem que pagar", independentemente de como seja essa punição?

Não saberia dizer se é só o brasileiro. Tem uma cultura que circula na América Latina, de forma geral, e na América Central. E também vamos encontrar isso no hemisfério ocidental norte, mas de maneira muitas vezes velada. Mas aqui é muito clara essa ideia de uma cisão moral: se o indivíduo cometeu um crime, é como se a humanidade dele não existisse. Não estou querendo aqui justificar crimes hediondos, homicídios, estupros, decapitações. Em nenhum momento quero dizer que isso seja compreensível.

O que eu estou querendo dizer é que as pessoas têm sede de vingança. Se alguém comete um crime, a primeira sensação é: "Ah, esse indivíduo tem que ir para a cadeia, que apodreça lá". No Brasil, são muitos os que preferem vingança à aplicação de justiça.

Como seres racionais e modernos, deveríamos esperar que houvesse um julgamento, que fosse dado a esse indivíduo o direito de se defender e, uma vez provada a responsabilidade criminal, que a pessoa fosse condenada. Isso não é vingança: é justiça. E há uma diferença muito grande entre uma coisa e outra. No Brasil ainda temos esse sentimento primário, que está lá na raiz da nossa consciência, de que a punição deve ser de tal maneira exemplar que você tem que retirar esse indivíduo do convívio dos humanos.

Vamos pensar que isso não é também um fundamento necessariamente brasileiro. Veja o discurso contra o terrorismo no debate na América do Norte e na Europa. Claro que não estou aqui defendendo o terrorismo. Estou dizendo que a matriz é efetivamente a mesma.

Numa sondagem nacional recente, de 2014, 43% dos brasileiros aprovavam a pena de morte. Mais da metade da população já deu aval à prisão perpétua. Hoje talvez uma maioria aceite a pena de morte?

Temos que levar muito em consideração a conjuntura. Estamos vivendo no Brasil uma conjuntura de profunda perturbação, profunda descrença no futuro e em valores fundamentais. E isso pode afetar a percepção das pessoas. Acho que temos que tomar cuidado com a conjuntura, que estimula opiniões muito conservadoras e reacionárias, e o tratamento muito duro para com problemas existentes. Creio que se for feita uma pesquisa agora ela de alguma maneira teria que isolar a conjuntura, e é muito difícil fazer isso.

A descrença generalizada em relação à classe política, o que ficou mais evidente com a Operação Lava Jato, e o contexto de crise econômica são cenários que favorecem os "justiçamentos", a "justiça com as próprias mãos"?

Essas relações não são tão diretas, mas acho que você pode estabelecer elementos de comunicação entre esse cenário de decomposição social, de perturbação dos valores, de perturbação do papel das instituições na vida coletiva, e essas opiniões que em geral favorecem atitudes autoritárias no trato de problemas de transgressão da ordem. Hoje, as atitudes de repúdio ao delinquente comum, ao indivíduo que maltrata seus filhos em casa, ao jovem que vai para a rua fazer protesto, é como se todos fossem idênticos. É como se todos devessem ser neutralizados e isolados. Isso mostra que essa raiz autoritária ainda é muito presente e que, lamentavelmente, a democracia no Brasil não conseguiu colocá-la sob controle. Essas forças ainda continuam circulando e muitas vezes sem qualquer interdição.

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