Papa Francisco, um empresário que investe nos pobres

Revista ihu on-line

Populismo segundo Ernesto Laclau. Chave para uma democracia radical e plural

Edição: 508

Leia mais

Gênero e violência - Um debate sobre a vulnerabilidade de mulheres e LGBTs

Edição: 507

Leia mais

Os coletivos criminais e o aparato policial. A vida na periferia sob cerco

Edição: 506

Leia mais

Mais Lidos

  • Por oito a zero, STF reafirma direitos originários dos povos indígenas

    LER MAIS
  • Vitória indígena no STF

    LER MAIS
  • Livro sobre 'escravos livres' é tão forte que obriga a olhar para o presente

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

06 Dezembro 2016

"Se queremos prosperidade duradoura, devemos considerar sua advertência. O Papa certamente deixará isso claro no fórum econômico global deste fim de semana. Esperamos que os participantes ouçam com atenção e colaborem para que pessoas como Iqbal sejam a regra, e não a exceção", escreve Andreas Widmer, diretor do Ciocca Center for Principled Entrepreneurship na Faculdade Busch de Economia e Administração da Universidade Católica da América, em Washington, D.C., em artigo publicado por Crux, 02-12-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis o artigo.

Inspirados pelo Papa Francisco, 500 líderes empresariais indicados pela revista Fortune e as 100 pessoas mais influentes de acordo com a revista Time estão reunidos no Vaticano para refletir sobre como propiciar um crescimento global que traga mais benefícios aos pobres. Um especialista da Universidade Católica da América que participou de uma conferência no Vaticano recentemente acredita que a história da Grameenphone ilustra o apelo do Papa pela inclusão dos pobres pelos mercados.

Em seu discurso ao Congresso dos Estados Unidos, em setembro do ano passado, o Papa Francisco qualificou "o mundo dos negócios como uma vocação nobre". No entanto, muitos ainda se questionam: como a economia de livre mercado pode conciliar a ética cristã?

A partir de hoje, líderes de todo o mundo vão tentar discutir essa e outras questões no Fórum Social Fortune-Time de 2016, no Vaticano. Durante a preparação para a conferência, a revista Time comunicou que "o Papa Francisco tem falado regularmente sobre questões econômicas globais, fazendo questionamentos sobre a desigualdade econômica crescente e criticando a 'ditadura da economia impessoal, sem um propósito verdadeiramente humano'", o que preocupa os defensores do livre mercado. Alguns chegaram a considerá-lo socialista, ou até mesmo marxista. Mas não é bem assim.

Tive o privilégio de participar de uma conferência de líderes empresariais no mês passado, no Vaticano, em que o Papa descreveu os três princípios ou desafios de sua visão sobre o empreendedorismo: usar bem o dinheiro, ter honestidade e agir de forma fraterna.

Sem exemplos concretos, esses conceitos podem até parecer abstratos. Mas há vários empreendedores que colocam em prática o que o Papa Francisco prega - só é preciso observá-los.

Iqbal Quadir é um deles. Ele nasceu em Bangladesh, estudou em uma universidade dos Estados Unidos - por mais improvável que isso pudesse ser - e, finalmente, tornou-se um investidor de risco em Nova York. Ele viveu o sonho americano que tantos desejam no mundo todo.

Um dia, em 1993, sua rede de computador parou de funcionar. Ele sentia-se inútil sem o seu computador. Não conseguia acessar sua rede de produtividade. Em um lampejo, Iqbal percebeu que sua conectividade era o seu trunfo em muitos aspectos. Ela era necessária para identidade e produtividade.

O silêncio fez com que ele se lembrasse de casa.

"Não me admira que a produtividade em Bangladesh seja menor!" ele pensou. "Sem uma rede, você vale a metade nesta economia de livre mercado."

Assim nasceu seu novo sonho: levar serviço de telefonia para os pobres em Bangladesh, um mercado inexplorado de dezenas de milhões de pessoas.

Em seguida, ele voltou à realidade. Não há infraestrutura para celulares nas favelas. Os pobres não podem pagar pelas taxas de serviço, e muito menos por um telefone. Foi o que foi dito quando ele lançou sua ideia para possíveis investidores.

Mas Iqbal não desistiria de seu sonho. Para ele, um celular para os pobres de Bangladesh era como um carro para os norte-americanos: a maioria não pode pagar à vista, mas ter um carro permite que as pessoas encontrem meios de pagar por ele ao longo do tempo.

Da mesma forma, o celular inclui os pobres na economia de mercado, integra-os em redes de produtividade e de troca, proporciona uma identidade online e permite que façam parte da competição do mercado. "Conectividade é produtividade!" dizia ele.

Iqbal levou quatro anos para convencer Telenor, Grameen Bank e vários outros parceiros a fundar a Grameenphone junto com ele e, assim, colocar sua ideia em prática.

Especialistas continuavam alertando-o de que seus esforços seriam inúteis. O caminho para o mercado foi difícil, realmente. A população pobre estava tão longe dos centros da cidade (e do mercado) que Iqbal teve de construir suas próprias torres, fornecedoras de celulares, assim como redes de vendas para atendê-los. "Os especialistas disseram que é preciso focar nas necessidades básicas primeiro. Em um país pobre, alimentação, vestuário, habitação, remédios são muito mais importantes do que telefones digitais de alta tecnologia", ele lembra.

Iqbal questionou esse conceito. "Não temos que monitorar e decidir se os pobres devem gastar com comida, abrigo ou água.

Eles sabem o que devem fazer. Tudo o que eles precisam é de uma oportunidade para agir."

Ele mostrou que os especialistas estavam errados. "Eu sabia que os ingredientes para o sucesso estavam lá", ele disse. "Só faltava alguém para começar a cozinhar e a refeição ficaria pronta em um instante."

Com mais de 56 milhões de assinantes (como em janeiro de 2016), a Grameenphone é a maior operadora de telefonia móvel em Bangladesh e gera mais de 7 bilhões de dólares de receita anualmente.

A Grameenphone forneceu uma maneira de acessar as ferramentas de produtividade de mercados desenvolvidos a trabalhadores de uma das mãos de obra mais desfavorecidas do mundo. A inovação de Iqbal é que suas ações para combater a pobreza não são ajuda, mas sim investimento, o que torna os pobres parceiros, em vez de beneficiários.

"A Telenor, da Noruega, um país com cinco milhões de habitantes, agora tem 200 milhões de usuários na Ásia", afirma Iqbal.

"Ouso dizer que na verdade o Bangladesh é quem ajuda a Noruega. Centenas de milhões de dólares de dividendos voltam para eles todos os anos - o que é muito, muito mais do que a Noruega já destinou ao Bangladesh".

O sucesso de Iqbal ilustra a questão do papa Francisco de que os pobres são muitas vezes excluídos do mercado. A grande sacada de Iqbal foi criar uma empresa lucrativa que inclui os pobres em redes de produtividade e de troca. E através disso, ele afirmou a dignidade humana de milhões de pessoas pobres, oferecendo-lhes a oportunidades de crescimento e prosperidade.

Ele é o meu exemplo preferido da nova prosperidade.

Iqbal usou o capital como um meio para um fim, e não como um fim em si mesmo. Quando usado sem uma perspectiva de fraternidade, o capital pode facilmente tornar-se um instrumento de exclusão. Com um sentimento de fraternidade, os investimentos podem ser usados para integrar os pobres em nossas redes de produtividade e de câmbio, em vez de criar o que Francisco chama de "uma nova e abusiva forma de dominação econômica nos níveis social, cultural e até político".

O exemplo de Iqbal nos mostra o que Francisco quer dizer quando fala que as empresas devem ser honestas e que "não devem existir com a finalidade de ganhar dinheiro, mesmo que ele sirva para medir o seu funcionamento. As empresas existem para servir."

Na verdade, o Papa atenta para os perigos e falhas da realidade atual das empresas. Isso não significa que ele condena uma economia saudável. Ele é como um profeta que sinaliza que o trem está indo pelo caminho errado e precisa mudar de direção.
Infelizmente, empresários como Iqbal Quadir são raros no mundo empresarial atual. Papa Francisco está indicando que isso se deve pelo uso errado do dinheiro, pela desonestidade e pela exclusão.

Se queremos prosperidade duradoura, devemos considerar sua advertência. O Papa certamente deixará isso claro no fórum econômico global deste fim de semana. Esperamos que os participantes ouçam com atenção e colaborem para que pessoas como Iqbal sejam a regra, e não a exceção.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Instituto Humanitas Unisinos - IHU - Papa Francisco, um empresário que investe nos pobres