Charles de Foucauld: exercícios extremos do espírito. Artigo de Lucetta Scaraffia

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01 Dezembro 2016

Charles de Foucauld fracassa como soldado, como explorador, como trapista... mas também como fundador de uma nova ordem de irmãozinhos e irmãzinhas que marcam o seu caminho. Mas é somente no fracasso que se pode pensar a imitação de Cristo, do messias que morreu na cruz como um malfeitor.”

A opinião é da historiadora italiana Lucetta Scaraffia, professora da Universidade de Roma “La Sapienza”. O artigo foi publicado no jornal L’Osservatore Romano, 30-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Sobre os santos, sobre os gigantes da vida espiritual, foram escritos livros hagiográficos, biografias históricas ou ficcionais, mas ninguém ousou escrever uma autobiografia identificando-se no sujeito narrador a ponto de confundir a sua vida com a do próprio personagem.

É precisamente essa a especificidade do livro de Pablo d’Ors L’oblio di sé [O esquecimento de si] (Milão: Vita e Pensiero, 2016, 300 páginas), que aborda a partir de dentro a vida de Charles de Foucauld. Personagem complexo e intrigante sobre o qual se multiplicam as biografias, seja pelo aniversário – o centésimo – da sua morte, seja pela atualidade da sua experiência de cristão apaixonado que aprende a viver e a conhecer o Islã.

As capacidades de d’Ors de entrar no personagem se enraízam em algumas inegáveis semelhanças: a origem aristocrática, a busca do silêncio como eixo dorsal da via espiritual, o deserto, a escrita. Em um sentido mais profundo, provavelmente, eles têm em comum a busca de Deus através de exercícios extremos do espírito, para depois descobri-lo vivo e presente até mesmo na mais humilde e banal das vidas humanas.

A existência do visconde Charles de Foucauld, que ficou órfão quando criança, foi, na primeira fase, a vida de quem protesta contra o seu destino, recusando-se a ser aquilo que, de vez em quando, lhe é exigido pela família e pelas circunstâncias: estudante apático, soldado indisciplinado e licencioso, ele só começa a revelar coragem graças ao amor pelo seu país, que lhe permaneceria por toda a vida. A experiência no Exército colonial, que, naqueles anos, estava levando a termo a ocupação da Argélia, porém, lhe abriu novas e decisivas perspectivas. O deserto, um mundo desconhecido do qual ele imediatamente captou o fascínio e a riqueza, o atrai tanto a ponto de induzi-lo a mudar de ofício: de militar, torna-se explorador e começa a revelar o temperamento de aço ao suportar privações e humilhações, ao enfrentar perigos, que, depois, marcaria a sua vida posterior.

Explorador muito estimado, autor de um volume de pesquisa geográfica premiado na sua pátria, Charles percebeu que não estava interessado no sucesso mundano e profissional, e sentiu o impulso de voltar não só à religião dos seus avós, para entendê-la melhor, mas também a vestir o hábito trapista. Ao longo da sua vida, mas especialmente nessa primeira fase de incerteza e de busca, um papel central é desempenhado pela prima predileta, Marie, doce e crente, que ficaria ao seu lado até o fim, com inalterado afeto, apoio e confiança. Seria ela a destinatária das suas memórias.

A vida no mosteiro trapista marca o início de um longo e fecundo caminho espiritual, sempre em busca de uma pobreza mais plena, de uma humildade total, de uma radicalidade que ele considera desde o início como a única condição para chegar a Deus.

A chave autobiográfica permite colocar no centro da narrativa sempre e somente a vida espiritual de Charles, ler as suas tentativas de encontrar a condição adequada a ele – do mosteiro de freiras de Nazaré, onde ele era jardineiro, vivendo em um barracão de ferramentas, aos ermos de lama que ele constrói com as próprias mãos no deserto, primeiro em Beni Abbès, depois entre os tuaregues em Tamanrasset, onde morreria assassinado em uma incursão de predadores – e a sua crescente consciência, até a iluminação.

Uma história apaixonante, um percurso vertiginoso que é lido como um romance de aventuras, no qual aparecem personagens traçados com grande fineza, como o irlandês que o inicia no estudo do deserto, ou o comandante supremo dos oásis, que muitas vezes se perdia na contemplação do deserto e entendia profundamente o fascínio que ele exercia sobre Charles. Ou as complexas e difíceis relações com a população local, que se tranquilizam e se tornam para ele fonte de importantes experiências espirituais quando ele abandona toda ideia de evangelização, para buscar apenas a sua amizade.

A épica que acompanha a história como um fio dourado é a do fracasso: Charles fracassa como soldado, como explorador, como trapista... mas também como fundador de uma nova ordem de irmãozinhos e irmãzinhas que marcam o seu caminho. Os irmãozinhos serão formados somente depois da sua morte, enquanto, a partir desse ponto de vista, a sua vida seria marcada por uma completa solidão. Mas é somente no fracasso que se pode pensar a imitação de Cristo, do messias que morreu na cruz como um malfeitor.

E, ao percorrer a estrada da renúncia, Charles aprecia o fato de ter tido algo de importante a renunciar: “Sem a riqueza, nem os títulos de nobreza, sem honras, eu não poderia ter me desfeito desses títulos e dessas honras, dessa riqueza; e, sem uma renúncia significativa – como exigido em uma trapa –, as minhas escolhas teriam sido menos credíveis e, provavelmente, menos firmes e duradouras”.

Nem mesmo a trapa era bastante mortificante para ele, que admitiu sem hesitação ter sido sempre um exagerado, mas, escreve, “eu não me envergonho de ter exagerado, porque não concebo o amor sem exagero”.

Em alguns momentos da vida, como em Nazaré, Charles chegou perto da loucura, que se confunde com a visão mística, talvez também na vida dos outros santos, d’Ors parece sugerir. Mas, será no ermo que ele tinha construído no deserto, em Beni Abbès, que, depois um longo período de fadigas e desilusões, Charles viveu a sua noite escura, que o levou a compreender aquilo que ele define como “um dos mistérios mais insondáveis do cristianismo”, isto é, “assim como Deus criou o mundo do nada, segundo o que dizem as Sagradas Escrituras, do mesmo modo – do nada – Ele cria cada alma individual que se deixa trabalhar e moldar por Ele. O nada é necessário à criação. O nada é o cerne da experiência mística, porque (o) nada é Deus”.

Foi somente quando conseguiu abandonar todo projeto de evangelização, renunciar a tudo, que o eremita conseguiu encontrar a Deus nas pessoas que encontra, nos pobres que escuta e ajuda e, depois, até mesmo nas coisas, nos objetos de todos os dias. “Ser testemunhas do Evangelho – afirma – não significa apenas testemunhá-Lo perante o mundo, mas também se capaz de captar os seus testemunhos por toda a parte”.

Mas é Charles ou Pablo que está falando? A sobreposição completa entre escritor e personagem da obra, na qual o leitor cai completamente, emerge com clareza no fim, quando Charles, pouco antes de morrer, reflete sobre o silêncio do seu eremitério no Monte do Assekrem: “Eu tenho a impressão de que, quanto mais rico somos dentro, mais somos silenciosos. O silêncio é a manifestação mais eloquente de uma interioridade fecunda: o ruído, ao contrário, é o ato de terrorismo mais eficaz contra a alma”, porque – continua – “eu passei a vida inteira exercitando-me para poder escutar a Deus, mas Ele, misteriosamente, me ofereceu apenas o silêncio. Há quem pense que o silêncio é a prova irrefutável da inexistência de Deus. De minha parte, eu acredito que é exatamente o oposto: o silêncio é a Sua melhor linguagem, a perfeita demonstração da liberdade que Ele nos concede e, portanto, do Seu imenso amor”.

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