Fidel Castro "reconheceu uma autoridade moral no papa". Entrevista com Federico Lombardi

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30 Novembro 2016

“O que chamava a atenção em Fidel era o traço de uma pessoa consciente da importância do papel moral de guia do papa no mundo e também desejosa de ouvir a sua sabedoria no contexto difícil do mundo de hoje. A relação de Castro com a fé? Eu não me sinto apto a responder a uma pergunta que diz respeito àquilo que há de mais inexplorável na alma humana e é conhecido apenas aos olhos de Deus.”

A reportagem é de Antonio Manzo, publicada no jornal Il Mattino, 29-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O padre Federico Lombardi é a testemunha dos encontros de Fidel Castro com três papas. Como diretor da Rádio Vaticano e, depois, da Sala de Imprensa vaticana, ele foi testemunha direta dos encontros entre o Papa Bento XVI e o Papa Francisco.

A notícia da morte de Fidel Castro chegou até ele justamente no dia de entrega do Prêmio Ratzinger 2016 (o ex-diretor da Sala de Imprensa é o presidente da Fundação Bento XVI). Com os dois vencedores, Mons. Inos Biffi e Ioannis Kourempeles, o padre Lombardi reviu e saudou o papa emérito que vive no Mosteiro Mater Ecclesiae.

Eis a entrevista.

Como foi a conversa entre Fidel Castro e o Papa Bento XVI?

Foi um colóquio longa que beirou uma hora de conversa. Castro fez perguntas sobre o destino da humanidade, sobre o ambiente e a paz, e o papa respondeu com a sua clareza e grande lucidez. Bento XVI pediu e obteve que a Sexta-feira Santa pudesse ser reconhecida como feriado.

Mas, por trás dessa visita de 2012, já havia o longo trabalho diplomático de João Paulo II.

A relação entre os papas e Cuba, entre os papas do fim do século XX e Fidel Castro, marcou um longo caminho de reabertura das relações, e cada uma desses encontros teve um papel muito relevante nesse itinerário. Castro se encontrou duas vezes com João Paulo II. A primeira vez foi em novembro de 1996, quando Fidel Castro foi a Roma por ocasião do Encontro Mundial sobre a Alimentação, promovido pela FAO. Naquela ocasião, ele foi ao Vaticano, foi uma conversa que abriu o diálogo entre Fidel e o papa, que proclamava ao mundo aquele “não tenham medo, abram as portas a Cristo” como principal mensagem do seu pontificado.

Depois, o Papa João Paulo II foi a Cuba.

Sim. Naquela viagem de 21 de janeiro de 1998, que continua sendo absolutamente histórica, por ser a primeira de um papa àquela ilha, eu não estava presente. Para além das palavras e dos encontros que o papa teve com Castro, permanecem aqueles olhares quando o comandante acolheu o pontífice recém-desembarcado do avião em Havana. Cada um olhou para o próprio relógio, como se quisesse se certificar daquele instante que se transformava em história.

Em que encontros o senhor esteve presente?

Eu estive presente nas duas viagens sucessivas dos papas, a de Bento XVI em setembro de 2012 e a de Francisco, quando houve o encontro com Fidel, embora não fosse mais o chefe de governo do país. Lembro que a conversa mais recente da última viagem do Papa Francisco ocorreu na residência de Castro, enquanto, na anterior, Fidel ainda estava em condições físicas para ir à nunciatura apostólica para se encontrar com o Papa Bento XVI.

Conte-nos sobre o encontro do Papa Francisco com Fidel Castro.

O encontro era previsível, embora não estivesse no programa oficial: era preciso ver quando e como ele poderia ser realizado, mas todos sabiam que havia um desejo muito forte do Comandante Fidel de ver o papa. Fidel pedira ao Papa Bento que lhe enviasse livros que pudessem ser úteis para o seu estudo e a sua reflexão. O Papa Francisco realizou esse desejo, levando livros de presente a Fidel Castro, sabendo justamente daquele pedido anterior.

Que livros o Papa Francisco deu para Castro?

O papa encontrou o ex-presidente cubano na residência do idoso líder. Também estavam presentes a esposa de Fidel e outros familiares. O papa deu a Castro alguns livros do Pe. Alessandro Pronzato sobre o humor e a fé, uma cópia da encíclica Laudato si’ e da exortação apostólica Evangelii gaudium. Aos livros, o Papa Francisco quis adicionar alguns CDs com reflexões do padre jesuíta Armando Llorente, que faleceu em 2010, ex-professor de Fidel.

Com que presentes Fidel retribuiu?

Com uma cópia do livro “Fidel e a religião”, escrito em 1997 pelo teólogo brasileiro Frei Betto. Castro escreveu uma dedicatória: “Para o Papa Francisco, por ocasião da sua visita a Cuba com a admiração e o respeito do povo cubano”.

Que falou mais no encontro, o papa ou Fidel?

Todos imaginávamos que Castro gostaria de fazer um longo discurso ao papa. Na realidade, foi exatamente o contrário. Ele fez ao papa grandes perguntas, muito profundas, sobre o destino da humanidade, sobre a fé e sobre a Igreja. As perguntas de Fidel eram fruto de uma fase da sua vida marcada por uma reflexão muito ampla sobre a condição da humanidade. E ele ouviu muito atentamente a reflexão de uma grande autoridade moral do mundo de hoje, como o papa da Igreja Católica.

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