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21 Novembro 2016

"O Partido Democrata segue sendo um veículo viável para aqueles que perseguem uma justiça social, econômica e racial nos Estados Unidos? Se assim for, quais mudanças devem realizar para alcançar esse potencial? Qual seria o programa de um Partido Democrata assim reinventado? Teria a forma de uma versão ampliada do movimento de Bernie Sanders? Se não, qual é a alternativa? Um terceiro partido? Dado o duopólio antidemocrático que domina o sistema político dos Estados Unidos e sua natureza antidemocrática antiquada, como poderia ser eficaz? A curto prazo, como se pode organizar a resistência à Trump e como podemos evitar canalizar essa resistência para outro democrata do establishment em 2020? Estas são questões urgentes, particularmente em vista do provável impacto que a desilusão com Trump possa vir a ter em seus eleitores caso ele não consiga concretizar suas promessas de campanha" escreve Daniel James, historiador nascido em Londres, em artigo publicado pelo Página/12, 19-11-2016. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Eis o artigo

Por mais que me doa discordar de meu velho amigo Ariel Dorfman, devo questionar seu artigo sobre as recentes eleições nos Estados Unidos, publicado no Página/12 em 10 de novembro sob o título de "A América se revela." Enquanto grito de angústia de um partidário comprometido, o que escreveu Ariel é compreensível. Ele próprio diz estar aflito e, como terapia para aliviar a sua dor, sua súplica pode fazer algum sentido. É uma resposta que se generalizou desde o dia 8 de novembro, quando Donald Trump ganhou a eleição.

Esse tipo de resposta, impulsionada pela emoção, procura desesperadamente por explicações para o racismo aparentemente inexplicável de Trump e de seus eleitores, para a xenofobia, a misoginia, a homofobia e o antissemitismo. Estas "explicações" se concentram nos pecados de Trump. No entanto, as explicações são parciais, na melhor das hipóteses, e não são convincentes, na pior delas. Ao continuar repetindo essas banalidades ou, em suma, essas meias verdades que sustentam o próprio sentido de retidão moral, muitos simpatizantes e militantes do Partido Democrata caem no perigo de evitar um compromisso crítico sério, que permita uma compreensão das forças que levaram à vitória Trump. Creio que a primeira coisa que o simpatizante de um partido que perde uma eleição de maneira tão catastrófica, como os democratas o fizeram, é olhar-se no espelho. E, no entanto, o Partido Democrata é apenas mencionado por Ariel em seu texto, que não fala em absoluto de sua candidata escolhida.

Durante os últimos quarenta anos, o que é conhecido nos Estados Unidos como a "América média" (Middle America), basicamente trabalhadores e pessoas de classe média baixa, tem visto os seus salários se estagnarem e seus empregos serem degradados ou destruídos, sem seguro de saúde ou aposentadoria, especialmente no setor de serviços. Este projeto neoliberal teve em seu centro o crescimento exponencial do setor financeiro, personificado na figura de Wall Street. Foi um projeto bipartidário que aumentou em intensidade desde os anos noventa com o desaparecimento da pouca regulação desse setor e o crescimento de acordos de livre comércio internacional.

Suas vítimas encontram-se (ainda que raramente reconhecidas pelas elites liberais da mídia) nas comunidades destruídas e nas esperanças restritas do que os americanos chamam de "o coração do país" (the heartland). Nesse lugar a dependência de drogas é desenfreada, a depressão e o alcoolismo se apoderam do território. Desde 1980, o único grupo demográfico da população dos EUA cuja taxa de mortalidade aumentou é o da classe trabalhadora branca com mais de quarenta anos, concentrada no que de maneira pejorativa é chamada de "flyover country", ou seja, pessoas em trânsito aéreo que viajam pelo país. Cada vez mais norte-americanos da classe trabalhadora coincidem com o que o grande comediante George Carlin disse sobre o sonho americano do qual Ariel fala com tanta nostalgia: "chama-se sonho americano porque para acreditar nele você precisa estar dormindo".

Embora este tenha sido um projeto bipartidário, no último quarto de século tornou-se cada vez mais associado com o Partido Democrata, que ocupou a Casa Branca por 16 dos últimos 24 anos. E é um projeto personificado em uma família apenas: os Clinton. De muitas maneiras, os seus efeitos devastadores se intensificaram desde a crise de 2008. Então, quando assumiu o cargo, Barack Obama simplesmente escolheu resgatar Wall Street e o setor financeiro, abandonando os pobres e a classe média americana.

Milhões destes americanos perderam suas casas em 2008 e não receberam nenhum centavo de ajuda do governo Obama, enquanto bilhões de dólares foram destinados para salvar bancos. Obama entregou aos indicados de Wall Street a liderança de sua equipe econômica. O setor financeiro soube como colher seus frutos: desde 2010, 97% dos lucros da economia dos EUA chegaram a ser 1% superiores, na pirâmide de renda. Enquanto o mercado de valores cresceu exponencialmente, a América média mal se recuperou do colapso de 2008.

Nessas eleições de 2016, o Partido Democrata e sua candidata Hillary Clinton eram os favoritos de Wall Street e das elites estadunidenses. Pat Cadell, um dos poucos pesquisadores que tentaram investigar o que estava acontecendo além da bolha midiática entorno da Beltway (a estrada que circunda a capital Washington), descobriu que 87% de sua amostra concordava com a afirmação de que os Estados Unidos foram conduzidos por uma aliança de políticos, lobistas e interesses monetários. 65% dos entrevistados pensava que as elites ganhariam caso Hillary Clinton fosse eleita. A maioria pensava que a elite perderia caso ganhasse Trump.

No relato de Ariel, a vitória de Trump representa a vitória final do lado obscuro dos Estados Unidos. A derrota definitiva do que Lincoln chamou de "os melhores anjos da nossa natureza". Essa derrota, no entanto, não deveria chamar nossa atenção. Os sinais estavam lá: da atordoante injustiça social e econômica ao complexo carcerário-industrial racista, que afeta desproporcionalmente as comunidades de cor. Do orçamento militar monstruosamente inflado, que sustenta a tentativa dos Estados Unidos de manter a sua hegemonia imperial ao redor do mundo, à morte e destruição dos povos do que costumava-se chamar de Terceiro Mundo, os sinais estavam lá. Trump pode ser uma pessoa islamofóbica e anti-imigrante. Mas até agora não causou a morte de centenas de milhares de muçulmanos em todo o mundo, como o fizeram Obama e Clinton. Tampouco tenha deportado, ainda, mais de dois milhões e meio de imigrantes, assim como fez Obama, causando estragos e semeando o medo nas comunidades hispânicas.

Eu, como Ariel, vivi nos EUA por muito tempo. Sou um cidadão norte-americano. Minha família americana está composta por minha esposa, nossos filhos e o extenso clã ítalo-americano que generosamente abraçou-me quando casei. São pessoas da classe trabalhadora. Meu sogro era um operário de baixos salários na indústria têxtil. Minha sogra, costureira. Seus filhos realizaram o sonho americano moderado: uma casa, um carro e um trabalho sindical com assistência social. Quase sempre foram eleitores do Partido Democrata. Ao longo dos anos, temos discordado sobre diferentes temas, mas eles sempre foram um importante banho de realidade para mim, que observava tudo desde o ponto de vista confortável e isolado da academia.

Nesta eleição, dois deles mantiveram suas lealdades políticas residuais e relutantemente votaram em Clinton. Basicamente, porque ela não era Trump. Outro, um democrata de longa data, membro de sindicato, votou em Trump, sim. Não é racista. Passou sua vida trabalhando com afro-americanos. Eles são seus vizinhos de bairro. Ele também deu aulas para estudantes negros em escolas públicas da Filadélfia. Votou em Obama em 2008, mas ficou profundamente decepcionado porque ele não cumpriu a sua promessa de mudar o país.

Onde é que o meu cunhado se encaixa na narrativa do meu velho amigo Ariel? Aparentemente, se aceitarmos o que Ariel diz, meu cunhado estaria muito além da fronteira de decência. Pertenceria ao lado escuro da natureza norte-americana. Hillary Clinton chamou depreciativamente os eleitores de Trump de "deploráveis" e Ariel reitera essa reprovação, condenando-os com palavras como "irredimíveis", palavras que toma diretamente de Clinton. O texto de Ariel os excomunga da sociedade decente, expulsa-os para fora do universo de tolerância multicultural que nós, como esquerdistas liberais que somos, desejamos construir. Devo confessar que essas palavras, quando ele as escreveu, me impactaram de uma forma que não havia impactado antes, quando foram pronunciadas por Hillary Clinton, com antecedentes extravagantes de desprezo pelas pessoas comuns. Quem tem o direito de condenar alguém como "irredimível"? Mais especificamente, qual estratégia da esquerda progressista pode ser concebida ou imaginada, uma vez que condena-se 60 milhões de pessoas à perdição? Deveríamos incluir também seus filhos nesta categoria, em cujo caso teríamos de dar por perdido um número ainda maior de nosso povo? Os atos de reprovação funcionam distinguindo os condenados dos que foram salvos, os tolos dos virtuosos. Então, como meu sogro Gino, eu perguntaria: quem nos fez Papas? Se insistirmos simplesmente em reafirmar a nossa própria virtude, podemos seguir aspirando a um olhar crítico e duro das forças que nos levaram a esta conjuntura desastrosa?

Nada disso é romantizar os americanos de classe trabalhadora e de classe média baixa que votaram em Trump. Existe um importante elemento de racismo, intolerância e xenofobia no resultado das eleições na semana passada? Com certeza: esses elementos são tão próprios dos Estados Unidos quanto as tortas de maçã. E florescerão especialmente em tempos de crise econômica e social, e das guerras estrangeiras, enquanto as pessoas procuram por bodes expiatórios. É impossível falar de raça e classe separadamente nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar do mundo. Mas devemos acreditar que existem 60 milhões de racistas e proto-fascistas? Então, por que muitos deles votaram duas vezes em Obama?

Agora eles devem considerar questões cruciais: o Partido Democrata segue sendo um veículo viável para aqueles que perseguem uma justiça social, econômica e racial nos Estados Unidos? Se assim for, quais mudanças devem realizar para alcançar esse potencial? Qual seria o programa de um Partido Democrata assim reinventado? Teria a forma de uma versão ampliada do movimento de Bernie Sanders? Se não, qual é a alternativa? Um terceiro partido? Dado o duopólio antidemocrático que domina o sistema político dos Estados Unidos e sua natureza antidemocrática antiquada, como poderia ser eficaz? A curto prazo, como se pode organizar a resistência à Trump e como podemos evitar canalizar essa resistência para outro democrata do establishment em 2020? Estas são questões urgentes, particularmente em vista do provável impacto que a desilusão com Trump possa vir a ter em seus eleitores caso ele não consiga concretizar suas promessas de campanha. Ocupar uma posição moralista e esperar que o eleitorado busque suas razões e vote em outro democrata "civilizado" da elite política seria uma estratégia desastrosa, tanto no caso de Trump fracassar, quanto no caso de que ele triunfe.

Ao invés de concluir com as sábias palavras de um afro-americano que reafirma que, apesar de tudo, devemos ser pacientes porque os Estados Unidos são um grande país, preferiria invocar as palavras de um judeu pertencente a uma família de portugueses exilados na Holanda, Baruch Spinoza: "Não chore; não seja indigno. Entenda.”

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