Apoio da comunidade internacional será crucial para realização de acordo de paz com as Farc na Colômbia. Entrevista especial com Sergio Andrés Coronado

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Por: Patricia Fachin | Tradução: Evlyn Louise Zilch | 18 Outubro 2016

A análise do resultado do plebiscito colombiano sobre o acordo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Farc precisa “situar as dimensões da vitória do ‘não’” e considerar que as eleições realizadas no dia 02 de outubro “foram marcadas principalmente pela abstenção, que superou 60%” dos votos. Além disso, somente “37,4% do eleitorado” compareceu às urnas, pontua Sergio Andrés Coronado à IHU On-Line, na entrevista concedida por e-mail.

Na avaliação de Coronado, as razões que explicam a vitória do “não” são de outra ordem e pouco refletem a opinião da população sobre o acordo com as Farc em si. Ao contrário, frisa, uma “análise preliminar é que o eleitorado do ‘não’ aproveitou esta oportunidade eleitoral como um palco para se pronunciar contra o governo do presidente Santos e não tanto sobre o acordo de paz”. Segundo ele, “nos últimos meses, na sociedade colombiana houve uma série de debates, alheios ao acordo de paz, que afetaram a imagem do governo. A situação mais absurda está relacionada com o que os conservadores têm chamado de ‘ideologia de gênero’. Tais setores se aproveitaram da abordagem diferencial de gênero que foi alcançada nos acordos de paz, que principalmente procurava reconhecer os impactos específicos sofridos por mulheres vítimas do conflito. Esses setores apresentaram essa proposta ante a opinião pública como se o governo estivesse aceitando, com o acordo de Havana, a imposição de uma ideologia que ameaçava o conceito tradicional de família”.

Depois do resultado, diz Coronado, há uma “atmosfera de incerteza” no país e uma “fase intensa de mobilização social”, e a expectativa é de que “a reorientação ou o ajuste do acordo possa ocorrer no menor tempo possível”.

Sergio Andrés Coronado é graduado e mestre em Direito pela Universidade Nacional da Colômbia. Atualmente atua no Centro de Investigación y Educación Popular – Cinep, na Colômbia. O Cinep é uma instituição fundada pela Companhia de Jesus nos anos 1970, com o objetivo de trabalhar por uma sociedade mais justa e equitativa, através da promoção do desenvolvimento humano integral.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - A vitória do "não" no plebiscito sobre o acordo da Colômbia com as Farc foi uma surpresa?

Sergio Andrés Coronado - Primeiro, é importante situar as dimensões da vitória do “não”. As últimas votações de 2 de outubro foram marcadas principalmente pela abstenção, que superou 60%. No plebiscito votaram apenas 37,4% do eleitorado, e a diferença entre o “sim” e o “não” foi mínima: 53.894 votos correspondem a 0,4% dos votos. Neste contexto, o resultado da votação foi, sim, uma surpresa. Todas as pesquisas mostravam que o “sim” seria o vencedor absoluto do plebiscito, e a maioria delas indicava que havia uma diferença de aproximadamente 20% entre as duas opções.


Mapa da votação do plebiscito | Mapa: El País

IHU On-Line - Por quais razões avalia-se que a população votante optou pelo “não”?

É importante reconhecer que o voto pelo "não" não representa um eleitorado uniforme

Sergio Andrés Coronado - É importante reconhecer que o voto pelo "não" não representa um eleitorado uniforme. Embora grande parte do eleitorado que escolheu esta opção esteja representada nas críticas que o presidente Uribe e seu partido realizaram ao processo de paz, há outras razões por trás da votação do “não”. Uma análise preliminar é a de que o eleitorado do “não” aproveitou esta oportunidade eleitoral como um palco para se pronunciar contra o governo do presidente Santos, e não tanto sobre o acordo de paz. Nos últimos meses, na sociedade colombiana houve uma série de debates alheios ao acordo de paz, que afetaram a imagem do governo.

A situação mais absurda está relacionada com o que os conservadores têm chamado de "ideologia de gênero". Tais setores se aproveitaram da abordagem de gênero que foi alcançada nos acordos de paz, em que principalmente se buscava reconhecer os impactos específicos sofridos pelas mulheres vítimas do conflito, e a apresentaram ante a opinião pública como se o governo estivesse aceitando, com o acordo de Havana, a imposição de uma ideologia que ameaçava o conceito tradicional de família.

Na propaganda da campanha do "não", foi possível observar vários exemplos de mensagens que não tinham nada a ver com o acordo de paz. Isso foi confirmado pelo coordenador da campanha nacional do "não", que é filiado ao Centro Democrático — partido do ex-presidente Uribe —, que disse que a estratégia utilizada pela campanha do “não” foi justamente a de parar de explicar os acordos de paz e passar a difundir mensagens que pudessem enfurecer o eleitorado. Essas mensagens acabaram por convencer uma grande parte do eleitorado que desaprova o governo de Santos e que aproveitou a oportunidade para manifestar-se contra o governo.

Por outro lado, também há uma série de erros na campanha do "sim". O mais importante deles foi a dispersão das ações, tanto dos partidos políticos como dos movimentos e organizações sociais, que lideraram campanhas e ações desarticuladas. Eles não observaram os riscos que a campanha de desinformação feita pela oposição poderia gerar, e consideraram que a realização de uma ação pedagógica para explicar o acordo serviria de base para ter um eleitorado informado, o qual votaria de forma consciente. O problema foi então considerar que o eleitorado informado e consciente votaria automaticamente pelo "sim", quando na verdade a votação correspondeu mais às emoções do que ao cálculo racional dos eleitores.

IHU On-Line - Você pode nos dar uma visão geral sobre em que regiões da Colômbia prevaleceram o voto pelo “sim” e o voto pelo “não”?

Sergio Andrés Coronado - Há dois cenários que explicam esta situação. O primeiro é que na maioria — mas não em todas — das regiões e municípios em que se viveu a violência e o conflito armado mais intensamente, prevaleceu o voto pelo “sim”. O segundo é que, nos municípios e estados mais centrais e, portanto, mais integrados às dinâmicas políticas e econômicas da nação, prevaleceu o voto pelo "não" — com exceção de Bogotá e Cáli —, enquanto nos municípios e estados em que há menor integração política e econômica com a nação prevaleceu o voto pelo "sim". Isso mostra que os acordos não só promoviam a coexistência pacífica dos colombianos, mas também estabeleciam as bases para uma integração dos territórios excluídos da construção do país.

IHU On-Line - Qual é o significado político e social da decisão da população de não fazer um acordo com as Farc?

Sergio Andrés Coronado - O significado é que diante da incorporação das Farc à vida civil e política do país não há um consenso. A sociedade e a opinião pública estão polarizadas e o cenário atual é incerto. O fato de haver perdido o plebiscito por esta margem estreita implica um golpe para a legitimidade política dos acordos de paz assinados entre as Farc e o governo da Colômbia.

As mensagens da campanha do “não” foram igualmente confusas se comparadas com os resultados favoráveis da votação. Para eles, o palco estava montado para renegociar os acordos. Durante esses dias expuseram algumas de suas propostas, muitas das quais já estavam presentes no texto acordado, outras eram contrárias ao texto e outras não tinham nada a ver com a agenda definida pelas partes. A Mesa de Conversações (Mesa de Conversaciones) acolheu a tarefa de ouvir as propostas e fazer os ajustes aos acordos de paz, embora afirmem que é impossível melhorar o acordo alcançado.

IHU On-Line - Como a notícia da vitória do “não” foi recebida pelas Farc?

As Farc, ao longo das negociações, expressaram sua inconformidade com este mecanismo de apresentação pública de aprovação

Sergio Andrés Coronado - É importante reconhecer que as Farc, ao longo das negociações, expressaram sua inconformidade com este mecanismo de apresentação pública de aprovação. Para eles, a opção era aprovar os acordos mediante a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. No entanto, no final da negociação eles concordaram em participar deste mecanismo de aprovação. Afirmaram que para eles o plebiscito tem efeitos políticos, mas nenhum efeito legal.

Eles acreditam que a assinatura do acordo de paz e sua guarda na Suíça lhes dá validade jurídica plena e, portanto, apesar do resultado negativo, o que deve acontecer é a implementação do acordo de paz. Além do debate jurídico, insistem que seu desejo pela paz e de abandonar as armas é irrefutável e que esperam que este impasse possa ser superado com o diálogo que está se desenvolvendo com aqueles que lideraram a votação pelo "não".

IHU On-Line - Como a vitória do “não” está repercutindo na Colômbia nestes dias?

Sergio Andrés Coronado - Acrescenta-se à atmosfera de incerteza uma fase intensa de mobilização social. Não só nas grandes cidades, mas também em muitos municípios em que a votação pelo “sim” foi maioria, tem havido manifestações exigindo a urgência na conclusão de um acordo, que permita superar o resultado adverso do plebiscito e orientar o país para a construção da paz. Infelizmente, o cenário de polarização se mantém.

IHU On-Line - Qual é a expectativa em relação a um futuro acordo ou sobre novas negociações de agora em diante?

Sergio Andrés Coronado - A expectativa é de que a reorientação ou o ajuste do acordo possa ocorrer no menor tempo possível. A mobilização dos cidadãos está gerando uma grande pressão sobre todas as partes envolvidas — governo, Farc e os representantes do “não” — para construir no futuro imediato um acordo viável que conduza o país à construção da paz.

IHU On-Line - Como avalia o fato de que o presidente Juan Manuel Santos recebeu o Nobel da Paz? Alguns criticaram porque nenhum líder das Farc recebeu o prêmio. O que você acha dessa crítica?

Sergio Andrés Coronado - O prêmio foi apresentado e recebido como um reconhecimento para aqueles que optaram por uma solução negociada para o conflito armado na Colômbia. Isto inclui as Farc, mas acima de tudo foi apresentado como uma homenagem às vítimas do conflito armado, já que são elas que têm conduzido e motivado a negociação da paz em nosso país. O presidente Santos recebe este reconhecimento como o porta-voz de um processo democrático complexo.

IHU On-Line - Como a Igreja colombiana entendeu e se pronunciou sobre este momento político?

A Igreja Católica tem desempenhado um papel importante no processo de negociação, não só como facilitadora, mas também com o acompanhamento do processo em momentos diferentes

Sergio Andrés Coronado - A Igreja Católica tem desempenhado um papel importante no processo de negociação, não só como facilitadora, mas também com o acompanhamento do processo em momentos diferentes. Infelizmente, a Igreja Católica e seus líderes não se manifestaram claramente a favor da aprovação popular dos acordos no plebiscito, mas preferiram convidar o eleitorado a votar com consciência. Isso não impediu que muitos membros da Igreja, religiosos, sacerdotes e leigos, apostassem claramente pelo apoio a uma saída negociada do conflito armado.

A Diocese de Quibdó, localizada em uma das regiões em que se viveu o conflito armado com maior intensidade, apoiou sem hesitações os acordos e convidou a população a expressar esse apoio nas urnas. Em uma declaração pública, a Diocese disse diante do plebiscito que: “apostamos em um resultado afirmativo que visa pôr fim a uma guerra totalmente degradante”. Agora, o desafio da Igreja é acompanhar o difícil processo de reconciliação em uma sociedade que ficou fragmentada após os resultados do plebiscito, e sobre isso não se pode ter posições ambíguas.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Sergio Andrés Coronado - O apoio da comunidade internacional é crucial. Nos momentos mais difíceis da negociação, o papel dos países fiadores foi decisivo para impedir que as partes deixassem a mesa. Agora, que se abre a mesa de negociações com o Exército da Libertação Nacional - ELN, o papel da comunidade internacional se torna mais importante, já que é esta pressão que pode permitir que na Colômbia se abandone definitivamente a violência como uma forma de fazer política e se abra caminho para um processo democrático de construção da paz. Por isso precisamos de seu apoio e suporte permanente.

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