O perfil do núncio apostólico segundo Francisco

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18 Setembro 2016

O núncio apostólico deve “auscultar” o coração do Papa e fazer com que sua “respiração” chegue às Igrejas do mundo, envolvendo-se, viajando, encontrando-se e dialogando com todos. Deve apoiar, e não apenas corrigir, deve ficar longe dos fofoqueiros e dos arrivistas, não deve promover “os amigos dos amigos”, nem “casar-se” com linhas políticas ou batalhas ideológicas, deve evitar visões personalistas, superar lógicas burocráticas e propor nomes de candidatos ao episcopado que sejam testemunhas do Ressuscitado e não “portadores de currículo”. Francisco dirigiu, na manhã do último sábado, um discurso amplo e articulado a mais de 100 núncios apostólicos que se encontram no Vaticano celebrando seu Jubileu. Um perfil e ao mesmo tempo um programa.



A reportagem é de Andrea Tornielli e publicada por Vatican Insider, 17-09-2016. A tradução é de André Langer.

O Papa agradeceu aos diplomatas da Santa Sé “pela dedicação e pela pronta e generosa disponibilidade”. “Leio diariamente, sobretudo pela manhã e pela tarde, suas ‘comunicações’ com as notícias sobre a realidade das Igrejas locais, sobre as histórias dos países em que estão acreditados e sobre os debates que se ocupam da vida da comunidade internacional. Agradeço-lhes muito por tudo isto! Saibam que os acompanho todos os dias (muitas vezes com nome e rosto), com a lembrança amiga e a oração”.

Apoiar e não só corrigir

Francisco convidou os núncios a “levar a cada pessoa a atenta caridade de quem representam convertendo-se assim naquele que apoia e protege, que está pronto para apoiar e não só para corrigir, que está disponível para escutar antes de decidir, para dar o primeiro passo para eliminar tensões e favorecer a compreensão e a reconciliação”. A humildade de um núncio passa “através do amor pelo país e pela Igreja naqueles que foram chamados a servir. Passa pela atitude serena de estar onde o Papa o quis e não com o coração distraído à espera do próximo destino”.

Encontrar e compartilhar

O Papa convidou os seus representantes para estarem onde se encontram no mundo “inteiramente, com a mente e o coração”. “Ver, analisar e referir são os verbos essenciais, mas insuficientes na vida de um núncio. Também se necessita encontrar, escutar, dialogar, compartilhar, propor e trabalhar juntos, para que se aprecie um sincero amor, simpatia, empatia com a população e com a Igreja local. O que os católicos, mas também a sociedade civil em sentido amplo, querem e devem perceber é que, em seus países, o núncio encontra-se bem, como em sua casa; sente-se livre e feliz por criar relações construtivas, compartilhar a vida cotidiana do lugar”. Não é suficiente, acrescentou Francisco, “assinalar ou agredir aqueles que não pensam como nós. Esta é uma tática miserável das atuais guerras políticas e culturais, mas não pode ser o método da Igreja. O nosso olhar deve ser amplo e profundo”.

Cristãos do Oriente, querem arrancá-los

Bergoglio explicou que ainda é atual “a ameaça do lobo que de fora rapta e agride o rebanho, confunde-o, cria confusão, dispersa-o e o destrói. O lobo tem o mesmo semblante: incompreensão, hostilidade, maldade, perseguição, remoção da verdade, resistência à bondade, fechamento ao amor, hostilidade cultural inexplicável, desconfiança... Vocês sabem bem de que massa é feita a insídia dos lobos de qualquer tipo. Penso nos cristãos do Oriente – acrescentou o Papa –, na direção de quem parece apontar o violento assédio, com o silêncio cúmplice de tantos diante da sua erradicação. Não se pede a ingenuidade dos cordeiros, mas a magnanimidade das pombas e a astúcia e a prudência do servo sábio e fiel”.

Evitem os fofoqueiros e os arrivistas

“Não há nada que facilite o discernimento e a eventual correção mais que a proximidade, a disponibilidade e a fraternidade – explicou Francisco. Não se trata de uma supina estratégia para reunir informação e manipular a realidade ou as pessoas”. Devemos superar “a lógica da burocracia que muitas vezes pode apropriar-se de seu trabalho, tornando-o fechado, indiferente e impermeável”. A sede da nunciatura é um lugar em que toda a realidade eclesial deve “encontrar apoio e conselho, e as autoridades públicas um ponto de referência”. Os núncios devem estar atentos para que as nunciaturas “nunca se convertam em refúgio dos ‘amigos dos amigos’. Fujam dos fofoqueiros e dos arrivistas”.

A Igreja não tem fundamentos no consenso de grupos de poder

“Na ingente tarefa de garantir a liberdade da Igreja diante de qualquer forma de poder que queira fazer calar a verdade – explicou o Papa aos núncios –, não acreditem que esta liberdade é fruto apenas de acordos e negociações diplomáticas, mesmo que sejam perfeitas e acabadas. A Igreja só será livre se suas instituições puderem trabalhar para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem atraso, sem rejeições, sem medo, mas também quando se manifesta como verdadeiro sinal de contradição com respeito às modas recorrentes, à negação da verdade evangélica e às comodidades fáceis que muitas vezes contagiam também os pastores e seu rebanho”. Por isso, Bergoglio convidou para não “casar-se” com “linhas políticas ou batalhas ideológicas, porque a continuidade na Igreja não se apoia sobre o consenso dos salões ou das praças, mas na fidelidade ao seu Senhor”.

A insuficiência dos frios documentos

Para acompanhar as Igrejas locais, disse Francisco aos núncios, “é preciso mexer-se. Não basta o frio papel das cartas e dos informes. Não basta aprender de ouvido. É preciso ver in loco como vai se difundindo a boa semente do Evangelho. Não esperem que as pessoas venham para buscá-los”, mas “vão às dioceses” para compreender “o que vive o povo de Deus, o que ele pensa e pede. Ou seja, sejam verdadeira expressão de uma Igreja em saída e hospital de campanha”.

Os bispos são testemunhas de Jesus, não portadores de currículo

O Papa também falou sobre um dos papéis fundamentais do núncio: a seleção dos futuros bispos. E recordou que traçou “o perfil dos pastores que considero necessário para a Igreja de hoje: testemunhas do Ressuscitado e não portadores de currículo. Bispos que rezam, familiarizados com as coisas ‘do alto’ e não oprimidos pelo peso do ‘de baixo’; bispos capazes de entrar ‘com paciência’ na presença de Deus, para possuir a liberdade de não trair o Kerygma que se lhes foi encomendado; bispos pastores e não príncipes ou funcionários”.

Para encontrar esses bispos, “é preciso mexer-se” e sair para procurá-los com critérios que “não podem ser ditados por vãs tentativas com as quais pensamos poder programar em nossos escritórios a Igreja que sonhamos. Por isso, é preciso jogar as redes em mar aberto. Não podemos conformar-nos em pescar em aquários, nas reservas ou nos criadores dos ‘amigos dos amigos’”. E acrescentou, referindo-se à importância de escolher bons candidatos: “A pergunta prática que agora me vem à mente é a seguinte: mas não há outro? E sair para procurar. Sair para procurar. E eles existem. Eles existem!”

Evitar as visões personalistas

Para concluir, o Pontífice convidou para fugir de visões personalistas. “A exigência que deveríamos fazer cada vez mais nossa é a de operar em uma rede unitária e coordenada, necessária para evitar uma visão pessoal que muitas vezes não encontra apoio diante da realidade da Igreja local, do país ou da comunidade internacional. Corre-se o risco de propor uma visão individual que pode ser, claro, fruto de um carisma, de um profundo sentido eclesial e de capacidade intelectual, mas não é imune a uma certa personalização, de emotividade, de sensibilidades diferentes e de situações pessoais que condicionam inevitavelmente o trabalho e a colaboração”. Francisco explicou que a misericórdia “deve ser a cifra da missão diplomática de um núncio apostólico”, e também, em nível internacional, a misericórdia “implica em não considerar nunca nada e ninguém como perdido. O ser humano nunca é irrecuperável”.

Pela manhã, Francisco concelebrou a missa na Capela Santa Marta com os núncios, e na homilia convidou-os para sair de si mesmos para anunciar o Evangelho em cada rincão do mundo, com palavras de afeto e compreensão por suas vidas “de ciganos” e por suas constantes mudanças. “Fiquei impressionado com um dentre vocês – revelou – que antes de apresentar as credenciais, em dois meses há havia aprendido uma língua difícil e tinha aprendido a celebrar nessa língua: recomeçou esta saída com entusiasmo, com alegria”.

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