Papa diz que os pobres da América Latina são os verdadeiros especialistas em misericórdia

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29 Agosto 2016

O Papa Francisco é conhecido por suas mensagens que parecem ser universais. Porém, dado um certo contexto elas possuem uma conotação e um poder que as tornam bastante direcionadas, específicas. A sua vídeo-mensagem proferida em um encontro do episcopado latino-americano pareceu visar líderes colombianos bem como a Igreja neste subcontinente.

A reportagem é de Austen Ivereigh, publicada por Crux, 27-08-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Para o discurso de 32 minutos voltado ao maior encontro dos bispos latino-americanos em uma década, o Papa Francisco poderia ter escolhido um de seus temas favoritos: a colonização ideológica, a globalização, ou mesmo o ideal da unidade intracontinenental, dada a presença de tantos cardeais e bispos norte-americanos no encontro.

Mas, em vez disso, ele optou por aquilo que parece ser, num primeiro olhar, uma questão-padrão da catequese deste papa a respeito da dinâmica da misericórdia: o reconhecimento de que são os nossos pecados e arrependimentos, e não os nossos méritos, o que nos aproxima de Deus; a compreensão da misericórdia como uma ação, e não uma ideia, uma ação que se inicia no amor divino e se traduz no serviço e no perdão ao próximo; e que ser um pastor é, sobretudo, incorporar a misericórdia, de forma que a Igreja se torne um canal – e não um obstáculo – para a misericórdia divina.

Porém Francisco é famoso por suas mensagens que parecem ser universais, diretas, mas dado um certo contexto elas possuem uma conotação e um poder que as tornam bastante direcionadas, específicas. Como arcebispo de Buenos Aires, ele frequentemente diria, em resposta à pergunta sobre quem os seus comentários visam criticar: “Se o chapéu lhe servir, use-o”.

Adentremos mais profundamente no contexto do encontro em torno do Jubileu da Misericórdia em Bogotá, e será ficará fácil ver, no mínimo, dois alvos na mensagem que ele deu aos prelados reunidos.

O primeiro é a Colômbia, que somente esta semana assinou um acordo de paz histórico que termina com meio século de conflito armado – conflito que deixou 250 mil mortos e milhões de deslocados.

Muito embora o acordo – assinado em Havana entre o governo de Juan Manuel Santos e a maior milícia rebelde do país, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (mais conhecida como as FARC) – fora recebido com euforia, ele não escapou de receber críticas, lideradas pelo ex-presidente Alvaro Uribe.

Os opositores estão escandalizados com o fato de que os 7 mil rebeldes armados das FARC estão recebendo vida nova – incluindo indenizações estatais – sem enfrentarem um tribunal, e que, em troca da desmilitarização, o movimento guerrilheiro está sendo reconhecido como um agente político.

A Igreja Católica na Colômbia tem desempenhado um papel discreto porém central no processo de paz, ao organizar audiências de verdade e reconciliação para permitir que ambos os lados compreendam o impacto da violência e aprendam a perdoar.

Nesse contexto, o discurso do papa no encontro pode ser interpretado como um fortalecimento ao apoio da Igreja dado a este processo no país. Observando o quão fácil é se escandalizar como pai do filho pródigo que o recebe como um filho, ao invés de puni-lo como um desterrado, nós nos escandalizamos, diz o papa, “cuando nos olvidamos cómo el Señor nos há tratado, cuando comenzamos a juzgar y a dividir la sociedade (...) Fracturamos el presente construyendo ‘bandos’. Está el bando de los Buenos y el de nos malos, el de los santos e el de los pecadores”.

Uma das causas do conflito prolongado na Colômbia foi o abismo persistente entre as classes privilegiadas que possuem a maior parte da riqueza e das oportunidades no país, e os grupos indígenas empobrecidos em regiões remotas que compõem o núcleo das guerrilhas das FARC.

Francisco parece dirigir suas críticas a Uribe e outros opositores do acordo de paz quando diz que “nós” – o pontífice não aponta o dedo diretamente – fazemos parte de uma “cultura viciada por la exclusión de todo lo que puede atentar contra los interesses de unos pocos”, uma cultura que “ha desdesperdiciado la sabiduría de los pueblos indígenas y que no ha sabido cuidar la riqueza de sus tierras”.

As guerrilhas marxistas podem ter errado e podem estar defendendo uma ideologia equivocada, Francisco parece dizer, porém a narrativa delas tem ganhado credibilidade pelo tratamento dispensado aos pobres e indígenas.

Em resumo, ninguém tem o direito de atirar pedras.

E no caso em que alguém duvide quanto à postura da Igreja, Francisco deixa-a bem claro. O Senhor, diz ele, “nos envía con um solo programa: tratarnos con misericordia. Hacernos prójimos de esos miles de indefensos que caminan en nuestra amada tierra americana proponiendo un trato diferente”.

Eis o outro alvo presente no discurso do papa: a Igreja latino-americana e o programa apresentado na conclusão do encontro dos bispos latino-americanos em Aparecida-SP, em 2007, em que o então arcebispo de Buenos Aires desempenhou um papel central.

A conferência episcopal de Aparecida teve duas ideias-chave que, hoje, formam parte do léxico da Igreja contemporânea na América Latina: “discipulado missionário” e “conversão pastoral”.

Em seu discurso em Bogotá, Francisco deixa claro que a misericórdia é a chave para estes dois objetivos. O que fez São Paulo ser um discípulo foi “la confianza que Dios le dio a pesar de sus muchos pecados”, enquanto “el corazón de la pastoral es el trato de misericordia”.

Muito embora isto seja algo que Francisco venha pedindo para toda a Igreja, ele associa esta ideia a uma noção de que se trata de algo específico não só para o catolicismo latino-americano, mas que cresceu a partir dos círculos da teologia do povo, da Escola de La Plata, à qual Bergoglio há tempos é associado.

Convidando os bispos latino-americanos a “especialmente a un trato de misericordia con el santo Pueblo fiel de Dios”, ele os recorda de que “mucho sabe de ser misericordioso porque es memorioso”. A misericórdia, continua o papa, aprende-se a partir da experiência, uma experiência de sofrimento que conduz à solidariedade.

Os verdadeiros especialistas em misericórdia, em outras palavras, são os pobres da América Latina – e a Igreja necessita aprender com eles, sendo cuidadosa em não acrescentar ao sofrimento destas pessoas, mas sim em “potenciar los caminos de la esperanza” a fim de “hacer brillar la misericordia”.

Eis uma mensagem que não vem somente de Bergoglio, mas que decorre de dentro da alma da Igreja latino-americana. Nessa mensagem, ele está lembrando-os a permanecerem fiéis ao programa com o qual todos concordaram – uma missão continental de misericórdia, que é o substrato, hoje, do programa da Igreja universal.

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