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16 Agosto 2016

“Olá, Rio de Janeiro.” Assim começava a publicação no Facebook do Anonymous Brasil, do dia 5 de agosto, horas antes da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio. O coletivo hacktivista então começou a castigar o Governo brasileiro por esconder, por trás do brilho da Olimpíada, a pobreza generalizada na cidade, as expropriações agressivas, a violência policial e a repressão a manifestantes.

A reportagem é de Robert Muggah e Nathan B. Thompson, publicada por El País, 15-08-2016.

Uma onda de ataques de negação de serviço (DDoS) contra sites dos Governos estadual e municipal teve início imediatamente após a declaração do Anonymous. O grupo se gabou de ter derrubado pelo menos cinco sites, incluindo www.brasil2016.gov.br, www.rio2016.com, www.esporte.gov.br, www.cob.org.br e www.rj.gov.br. Eles divulgam suas façanhas com as hashtags #OpOlympicHacking [operação hackeamento olímpico], #Leaked [vazado] e #TangoDown [jargão militar para “inimigo abatido”], algumas delas criadas há vários meses.

Desde então, sites vêm sendo derrubados num ritmo intenso e veloz. Em 8 de agosto, seis páginas foram tiradas do ar, inclusive as da PM fluminense, do Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio, da Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana) e do Programa Internet Comunitária. O Anonymous também oferece, via Facebook, atualizações sobre os próximos alvos.

Não é a primeira vez que o Governo brasileiro está na mira do Anonymous. Durante os protestos generalizados que tomaram conta do país em 2013, o coletivo foi associado a uma série de ataques contra sites oficiais de órgãos públicos e empresas privadas. Ações similares foram relatadas em 2014, no período prévio à Copa do Mundo. Utilizando a hashtag #OpWorldCup [operação Copa do Mundo], os hacktivistas invadiram os sites da Agência Brasileira de Inteligência, do Ministério da Justiça, do Ministério do Esporte e de empresas como Emirates Group, Hyundai e Globo.

O mais recente ataque digital do Anonymous é, provavelmente, um de seus mais potentes. O grupo parece ter hackeado e vazado dados pessoais e financeiros de várias associações esportivas nacionais, incluindo a Confederação Brasileira de Pentatlo Moderno, a Confederação Brasileira de Handebol, a Confederação Brasileira de Boxe e a Confederação Brasileira de Triatlo.

O Anonymous também afirma ter invadido as contas privadas de indivíduos sobre os quais o grupo aponta suspeitas de corrupção. O principal deles é o prefeito do Rio, Eduardo Paes, além do governador do Estado do Rio, o secretário de Esportes e alguns empresários. Alguns deles já haviam sido alvos desses ataques meses antes. Esta nova onda de sites derrubados está ocorrendo apesar de o Governo ter dado garantias de que havia reforçado suas defesas cibernéticas, justamente para evitar ações desse tipo.

O Anonymous não está atacando apenas megaeventos como a Olimpíada e a Copa do Mundo. No início deste ano, o grupo derrubou uma série de sites governamentais depois de uma decisão judicial que bloqueou temporariamente o WhatsApp, popular serviço de mensagens criptografadas. O Anonymous tirou do ar temporariamente vários sites do Governo do Estado de Sergipe (de onde saiu a ordem judicial para bloquear o WhatsApp), incluindo o site do Tribunal de Justiça do Estado. O grupo hacktivista declarou explicitamente que essas ações foram uma retaliação à proibição. E, em abril deste ano, o grupo invadiu um banco de dados da Anatel, agência reguladora das telecomunicações no Brasil, de onde conseguiu subtrair informações sigilosas.

Afinal, o que querem o Anonymous e outros hacktivistas afins? A resposta não é simples. Para alguns, trata-se de enviar uma forte mensagem política e ideológica a instituições governamentais e grupos empresariais. É uma mensagem de protesto on-line, não um crime cibernético em sua forma mais convencional. Outros são motivados pelo lulz (corruptela de LOL, “laugh out loud”, ou “rindo alto”). Quaisquer que sejam os objetivos dos hacktivistas durante a Rio 2016, é evidente que os jogos (digitais) mal começaram.

O Anonymous certamente não é o único grupo envolvido em malfeitos cibernéticos. O Brasil é o segundo país mais afetado no mundo (depois da Rússia) quando se trata de fraudes informáticas e malwares. Um estudo recente identificou mais de 3.800 sites maliciosos usando o domínio .gov.br, criados para atingir burocratas governamentais e funcionários ligados à Olimpíada de 2016. É previsível, portanto, que o Brasil esteja endurecendo a legislação sobre a vigilância.

Oportunidades não faltam para os aspirantes a criminosos cibernéticos. O Brasil tem, por exemplo, mais caixas eletrônicos per capita do que a maioria dos países europeus, incluindo França, Alemanha e Reino Unido. Durante a Olimpíada, as máquinas que fornecem dinheiro, assim como restaurantes e estabelecimentos comerciais, são o epicentro dos chupa-cabras de cartões de crédito, dos golpes de clonagem e de técnicas mais sofisticadas, como a interceptação das frequências de rádio.

Como era de se esperar, o Governo brasileiro está atento. O Congresso tem tramitado várias leis rigorosas sobre vigilância e crimes cibernéticos, incluindo alguns projetos que, se aprovados, permitirão que promotores e policiais tenham acesso facilitado a dados pessoais mesmo sem mandado judicial. E a nova lei brasileira antiterrorismo, usada pela primeira vez no mês passado para deter 14 supostos simpatizantes brasileiros do Estado Islâmico, já concede ampla margem às autoridades para definir atos de terrorismo e levá-los à Justiça, à custa da liberdade de expressão e de protesto legítimo.

Mesmo antes que essas leis sobre crime cibernético e combate ao terrorismo entrassem em vigor, a arquitetura da vigilância no Brasil estava consideravelmente bem desenvolvida. Isso se deve em parte ao legado da ditadura militar de 1964-85. Vários órgãos governamentais já têm autoridade para acessar e monitorar dados pessoais de cidadãos. Os hacktivistas podem ter certeza de que as autoridades estão usando todos os meios à sua disposição para compreender melhor as motivações, estratégias e estrutura organizacional do Anonymous.

As autoridades brasileiras há alguns anos monitoram ativamente o Anonymous e outros grupos de hacktivistas, tanto na Internet quanto fora dela. Enquanto isso, ativistas digitais afirmam ter sido visitados por agentes da Polícia Federal, e alguns manifestantes foram presos, às vezes de forma preventiva. Operações semelhantes estão ocorrendo em outros lugares além do Brasil. O perigo é que iniciativas linha-dura para suprimir grupos como o Anonymous coloquem em risco as liberdades digitais de todos.

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