Choques, guerra de classes e apartheid social – o que temos pela frente

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09 Agosto 2016

Aparentemente, há dois anos estamos sendo levados para uma 'oportunidade de choque', uma ofensiva crescente e ensurdecedora que nos quer cegar, desorientar e preparar para o abate. Sob a aparência de 'simples' derrubada da presidenta, o que temos diante de nós é uma clara mudança de regime político. O comentário é de Reginaldo Moraes, professor da Unicamp, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu) e colaborador da Fundação Perseu Abramo em artigo publicado por Brasil Debate, 08-0802916.

Eis o artigo.

Naomi Klein publicou em 2007 um notável livro chamado A Doutrina do Choque: a Ascensão do Capitalismo de Desastre. Nele, a escritora canadense expõe a teoria do “capitalismo de desastre” e da “doutrina do choque” que orienta sua criação.

A teoria tem várias fontes de inspiração. Entre elas, a psiquiatria que fundamenta a elaboração das “técnicas de interrogatório” da CIA. O núcleo dessas técnicas é a tortura e a destruição do enquadramento mental do oponente, até que “a fonte resolva colaborar”. Em termos resumidos, o tratamento pode ser utilizado para submeter indivíduos, mas também grupos humanos inteiros, a recalcitrantes e rebeldes, em suma.

Klein ilustra a aplicação da teoria com vários estudos de caso, detalhadamente. O que aqui tentamos, por outro lado, é apenas sintetizar o núcleo da teoria, com a escolha de algumas passagens do livro, com tradução livre. Nosso objetivo é chamar seu uso para entender o caso presente, o golpe político em andamento no Brasil.

Diz Klein:

“Assim funciona a doutrina do choque: um desastre original —seja um golpe, ataque terrorista, colapso do mercado, guerra, tsunami ou furacão— leva a população de um país a um estado de choque coletivo (…) Como o preso aterrorizado que confessa os nomes de seus camaradas e renega sua fé, as sociedades em estado de choque com frequência renunciam a valores que, em outra situação defenderiam inteiramente”.

A exploração do momento que surge de um choque traumático depende em grande medida do elemento surpresa e de desconcerto da vítima. No estado de choque, o que se produz é uma ruptura na sucessão e na lógica dos eventos, que acontecem em grande velocidade. O choque zera a “história” para o chocado e “sem uma história, somos intensamente vulneráveis diante daqueles dispostos a aproveitar do caos para seu próprio benefício”.

Klein comenta seguida e detalhadamente os manuais de técnicas de interrogatório da CIA e de suas fontes psiquiátricas. E lembra como insistem em isolar os prisioneiros das condições que possuem para “construir narrativas”. Isso implica cortar sua informação sensorial, sua percepção do tempo, o contato com outros prisioneiros e mesmo com guardas e carcereiros. Repetindo: essa tática, que visa a gerar confusão, desorientação e surpresa, vale para os indivíduos e, também, para grupos sociais inteiros.

Há vários exemplos de choque – como a desagregação da União Soviética, o tsunami da Ásia ou o furacão Kathrina. E há um choque como o famoso 11 de setembro: “O ataque terrorista contra as Torres Gêmeas e o Pentágono era um choque diferente do que haviam imaginado os autores de Kubark (manual da CIA), mas seus efeitos foram notavelmente similares: profunda desorientação, medo e ansiedade agudos, e uma regressão coletiva.”

O choque é um evento – ou uma “janela de oportunidade”. Mas há que saber aproveitá-lo ou estar provido de ferramentas para tal. Por isso, em 1982, Milton Friedman, expunha a chamada hipótese da crise:

“Só uma crise — real ou percebida como real— produz uma verdadeira mudança. Quando ocorre essa crise, as ações dependem das ideias existentes naquele momento. Essa é, na minha opinião, nossa função básica: desenvolver alternativas às políticas existentes e mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se converta em politicamente inevitável”.

Nesse quadro, adianta Klein, as crises são, de certo modo “zonas ‘ademocráticas’, um parêntese na atividade política habitual, dentro do qual não parece ser necessário o consentimento nem o consenso”.

A ideia de suspensão momentânea do usual ou do “normal” é exposta por um dos “choquistas”, Balcerowicz, o ministro da Economia que aplicou o choque na Polônia, sob a surpreendente bandeira do Solidariedade. Balcerowicz argumentou que a Polônia se encontrava em um período de “política extraordinária”, um momento efêmero durante o qual as regras da “política normal” (consultas, conversações, debates) deixam de ter validade. E explicou: “A política extraordinária constitui, por definição, um período de descontinuidade evidente na história de um país. Poderia tratar-se de um período de crise econômica muito profunda, de desmoronamento do sistema institucional prévio ou de liberação de uma dominação estrangeira (ou do fim de uma guerra).”

Às vezes, diz Klein em um exemplo de “choque”, os organismos internacionais não apenas aproveitavam crises econômicas existentes para impor o seu “Consenso de Washington” – eles cortavam previamente as ajudas financeiras para piorar as crises.

Em resumo, essa é, em grossa descrição, a doutrina do choque, da produção da realidade paralela que permite gerenciar a realidade subjacente. Muitas ferramentas e modos de aplicação são utilizados para gerar esse efeito.

Tudo isso é tétrico? Sim, mas não mais do que a “civilização” que esses choques estão criando:

“Esta receita de guerra sem fim é a mesma que a administração Bush oferecia como uma perspectiva de aumentar os negócios do ‘complexo de capitalismo de desastre’ após o 11 de setembro. Não é uma guerra que pode ser vencida por um país, porque não se trata de ganhar. O objetivo é criar ‘segurança’ no interior dos ‘Estados-Fortalezas’ reforçados por intermináveis conflitos de baixa intensidade fora dos seus muros. De certa forma, é o mesmo objetivo que têm as empresas de segurança privadas no Iraque: fechar bem o perímetro e proteger a zona de segurança.

Em Israel, no entanto, este processo é mais avançado: um país inteiro transformou-se em uma comunidade fortificada erodeada de gente que fica de fora, em áreas permanentemente desprotegidas. Isto é o que a sociedade parece quando perdeu seu incentivo econômico para a paz e se investe excessivamente no confronto e nos ganhos de uma eterna e fracassada guerra contra o terror. Uma parte se assemelha a Israel. A outra parte parece Gaza.

(…)

Na África do Sul, na Rússia e em New Orleans, os ricos constroem muros ao seu redor. Israel levou este processo a um passo adiante: constrói muros ao redor dos pobres perigosos.”

Aparentemente, nós mesmos estamos há uns dois anos sendo levados para uma “oportunidade de choque”, uma ofensiva crescente e ensurdecedora que nos quer cegar, desorientar e preparar para o abate. Sob a aparência de uma “simples” derrubada da presidenta, o que temos diante de nós é uma clara mudança de regime político: os cidadãos brasileiros perderam, de fato, o direito ao voto, à escolha de seus dirigentes. O que se está implantando com o “julgamento político” do executivo através do judiciário, da polícia federal, da mídia e do congresso? Um regime em que a decisão dos eleitores passa pela “supervisão” desses órgãos revisores, que decidem se o voto foi “certo” ou “errado”, se vale ou não vale.

Tivemos a preparação psicossocial do choque, com a sabotagem e campanha de aturdimento que foi desenvolvida nos últimos dois anos. Agora está em marcha a mudança de regime. E apenas se anunciam as medidas do choque – o que chamam maliciosamente de Ponte para o Futuro. E o conteúdo das medidas deixa claro qual é a sociedade de muros que teremos bem breve. A não ser que saiamos do choque e consigamos recuperar o direito do voto. Teremos que reviver um “diretas-já”? É o que parece.

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