Da Nigéria à Itália: o sonho de um casal de jovens migrantes, interrompido por um espancamento

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11 Julho 2016

Um nigeriano de 36 anos, Emmanuel Chidi Namdi, requerente de asilo na Itália, foi agredido na tarde do dia 5 de julho, por um morador de Fermo, 38 anos, ultrarradical do time de futebol local. Emmanuel caminhava com a companheira, Chinyery, 24 anos, não muito longe do seminário arquiepiscopal de Fermo, onde o casal estava hospedado.

Não se sabe muito bem o que aconteceu. De acordo com uma primeira reconstrução da política, Namdi estava caminhando com a namorada quando dois moradores locais começaram a insultá-la. Emmanuel reagiu, o que desencadeou a violência. Não está claro quem arrancou uma placa de trânsito, usando-a como arma. No fim da briga, o nigeriano caiu no chão, depois foi morto com chutes e socos, causando-lhe uma hemorragia cerebral que o levou ao coma irreversível.

À tarde, os médicos decretaram a morte cerebral de Namdi. Chinyery pediu a doação dos órgãos, mas o seu desejo não foi ouvido por causa da falta de documentos necessário. O autor das agressões, Amedeo Mancini, 39 anos, já era conhecido da polícia por causa de outros episódios de violência.

* * *

Um lenço branco bem apertado na cabeça. Os pés descalços. Uma calça vermelha que custa a ficar parada, assim como os olhos, como as pernas que tremem a cada palavra. Ela se estende no chão e chora. O mesmo piso sobre o qual ela passou a noite na esperança de que Emmanuel, mais cedo ou mais tarde, voltasse. Não deve existir nenhuma dor tão grande quanto a de Chinyery. Filomena ou, melhor, Irmã Filomena, 29 anos, muito bonita, também sabe disso, enquanto a acaricia. Aperta-a, passando uma mão sobre a testa, como aconteceu na quarta-feira, quando todos choravam, e Chinyery disse: "Entrem no círculo", e depois começou a cantar ou, melhor, não era um canto, "parecia algo que vinha do céu", algo que partia sabe-se lá de onde e chegava a toda a parte. Uma voz que se levantava e dizia: "Deus por quê?".

A reportagem é de Giuliano Foschini, publicada no jornal La Repubblica, 08-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Chinyery, por quê?

Eu não sei. Eu quero ir para a cadeia. Deixe-me ir para a cadeia. Eu quero olhar esse homem no rosto, nos olhos, e lhe perguntar: por quê? Por que você me fez isso?
 
Você conhecia Mancini?

Nunca o vi nesses oito meses desde que chegamos em Fermo. Tínhamos saído para comprar um creme para o corpo. Estávamos passeando, quando, de repente, esses senhores começaram a me insultar. "Africanos macacos", "africans scimmia". Ele me pegou, me empurrou, me deu um chute. Emmanuel me defendeu. Aquele sinal de trânsito foi pego pelo homem italiano, que, depois, no entanto, o atingiu. E Emmanuel caiu no chão.
 
Por que vocês estavam na Itália?

Nós vivíamos na Nigéria. Eu era estudante no segundo ano de medicina, Emmanuel trabalhava. Tínhamos um filho de dois anos e meio. Deveríamos nos casar, faltava menos de um mês. Depois, uma bomba do Boko Haram destruiu tudo. Eles queriam acertar uma igreja. Destruíram também a nossa casa: o nosso bebê morreu. Morreram os pais de Emmanuel. Não tínhamos nada, mas tínhamos tudo. Naquele instante, perdemos tudo. Fugimos imediatamente. A Itália era um sonho, queríamos encontrar tudo o que tínhamos perdido.
 
Como foi a viagem?

Um pesadelo. Quatro meses passando por Níger e chegando à Líbia. Depois, aconteceu uma coisa bonita.
 
O quê?

Nós estávamos esperando um bebê, o nosso bebê. Tínhamos partido sozinhos, sem qualquer ajuda. E novamente tínhamos encontrado tudo: todo aquele esforço, todo aquele horror tinha uma justificativa. Estávamos fazendo isso pelo nosso filho e por todos os outros que viriam. Mas não sabíamos que estávamos apenas no começo.

Vocês partiram...?

E chegamos à Líbia. Uma noite, alguns homens entraram em casa e reviraram tudo de cabeça para baixo. Roubaram e nos bateram de forma selvagem. Eu gritava que estava esperando um filho, mas eles não se importavam. Continuaram batendo. E foram embora. E eu comecei a perder sangue.
 
Vocês partiram assim mesmo?

Sim. E aquelas perdas nunca pararam. No mar, duraram quatro dias. Chegamos na Sicília e, depois, em Fermo.

* * *

Filomena intervém, enquanto a acaricia. Ela foi a primeira a acolhê-la, junto com as Pequenas Irmãs de Jesus Caritas, a ordem que, em Fermo, construiu este milagre: dar uma casa, que significa a construção de um futuro, a esses 120 jovens que fogem do horror: "Ela também tinha a hemorragia quando chegou aqui. Eu a levei ao hospital." A criança não estava mais.
 
"É difícil confiar em alguém para pessoas como eu. Depois, eu encontrei o padre Vinicio e as irmãs. São os nossos santos."

Vocês tinham um sonho?

Queríamos nos casar. Repetimos isso até o infinito. Mas não tínhamos os documentos. E, então, o padre Vinicio realizou o nosso maior desejo.

* * *

No celular, ela tem todos os artigos que falavam da sua história: "O conto de fadas de Chinyery e Emmanuel. Escapando do Boko Haram, encontraram o amor na Itália". O amor, Chinyery, o amor.
 
"Mas ontem... A dor, de novo a dor. Agora, eu quero levar Emmanuel para a Nigéria. Ele deve dormir lá" (Chinyery pediu para lavar todo o corpo de Emmanuel e, depois, para beber aquela água).

E você?

Eu quero voltar para a Itália para fazer o que tínhamos decidido juntos: eu sei que os italianos não são assim, esta é a nossa casa, mas eu espero que essas pessoas tenham algum tipo de punição pelo que fizeram Não pode ficar tudo impune. Não é possível.

* * *

Chega o padre Vinicio: "A Universidade de Ancona ofereceu uma bolsa de estudos para que ela continue os estudos de medicina".

"Mas eu preciso do Emmanuel. Onde está o Emmanuel? Não éramos marido e mulher, mas muito mais: existe algo que não possa ser separado?", pergunta. E chora. Cambaleia. Pelo braço, acompanham-na ao seu quarto. Aquela voz se levanta. Chinyery recomeçou a cantar.

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