“Podemos aprendeu dos processos latino-americanos”

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Por: Jonas | 22 Junho 2016

A menos de uma semana das eleições, as últimas pesquisas demonstram a ascensão da aliança entre Podemos e Esquerda Unida, consolidada em segundo lugar, apenas três pontos atrás do Partido Popular de Rajoy. Caso se confirme nas urnas, o deslocamento do PSOE significaria uma verdadeira reconfiguração da esquerda espanhola. O psicanalista e cientista político Jorge Alemán (foto), até há poucos meses adido cultural da embaixada argentina na Espanha, acompanhou o surgimento e evolução dessa organização e agora a analisa como expressão da mudança na cultura política espanhola.

 
Fonte: http://goo.gl/1OQtrv  

A entrevista é de Ignacio Kostzer, publicada por Página/12, 21-06-2016. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O que representa para a política espanhola a emergência do Podemos e como vê a conjuntura frente às eleições do dia 26 de junho?

Podemos é um fenômeno político extraordinário, no sentido de que partindo do nada conseguiu forjar uma práxis teórica e militante que deu lugar a uma transformação da cultura política espanhola. Neste país, mudou a sensibilidade política, mudaram as leituras, mudou a bibliografia e isso Esquerda Unida nunca teria conseguido. Por sua vez, Podemos desmascarou a apropriação cínica dos valores progressistas por parte do Partido Socialista. Neste sentido, para além de qualquer resultado eleitoral, o trabalho que se fez é importantíssimo. Nos 40 anos em que vivo aqui, é a primeira vez que assisto a debates que nunca haviam ocorrido.

É a primeira vez que se coloca em questão todo um aparato intelectual midiático constituído por letrados que jamais se assomaram a qualquer tipo de leitura teórica, que se movem pelos preconceitos ideológicos absolutamente abrigados naqueles que vivem, e que jamais alguém colocou em questão. Nesse sentido, o fenômeno Podemos, com o retorno de Gramsci, com as leituras de Laclau, com a abertura ao próprio Lacan e à psicanálise, configurou um novo tipo de constelação da experiência política, uma nova maneira de pensar a política.

Depois, parece-me que é um ato de justiça histórica se incorporar à esquerda, que neste país foi a única que se comprometeu seriamente na resistência à ditadura franquista. E ainda que por seu próprio marco teórico nunca poderia ter gerado um fenômeno de massas como o Podemos, serve para reconhecer que sempre teve uma coerência ideológica e política.

Alguns pensam que nesta amarração Podemos arrisca sua identidade, no entanto, eu vejo que há muito entusiasmo. Em termos kantianos, o afeto do entusiasmo é um sinal relevante para caracterizar um fenômeno coletivo. Para Kant, os afetos sempre eram negativos, eram patológicos, no entanto, dava ao entusiasmo um valor distinto. Assim, deduziu que a Revolução Francesa tinha um valor diferente. E eu vejo que com a frente Unidos Podemos há muito entusiasmo.

Insisto em que isto vai além do desfecho eleitoral e do fator quantitativo. Sem ter contado com corporações midiáticas por trás; com um financiamento muito limitado; sem meios próprios, tendo que atuar no regime de enunciação que os meios massivos já construíram previamente; sem dúvidas, estamos diante de um fato muito interessante.

Talvez este processo conduza a uma reinvenção da social-democracia, que nos leva ao eterno problema do que é uma transformação política popular e soberana, dentro de um espaço democrático. Aí, é muito difícil não fazer considerações sobre a social-democracia, não em um sentido histórico do que foi, mas, ao contrário, no aspecto das transformações sociais no âmbito da democracia.

As principais referências políticas e intelectuais do Podemos seguiram muito de perto os processos de mudança latino-americanas do início do século. Segundo eles próprios, aprenderam dos debates em torno da relação entre o social e o político, os processos constituintes, a questão nacional-popular, etc. Neste contexto crítico de balanços e reagrupamentos das forças populares latino-americanas, que lições Podemos pode oferecer?

Primeiro, é preciso destacar que os movimentos nacional-populares da América Latina são uma má palavra na Europa. É o que os aparelhos midiáticos implantaram, a tal ponto que Podemos teve que ser muito cauteloso com aquelas implicações com a América Latina. Inclusive, a atual campanha tem a Venezuela como elemento central, o que verdadeiramente é delirante. O próprio Partido Socialista centrou sua campanha no tema Venezuela, ao passo que o momento de retrocesso dos processos de mudança demandou uma dose de astúcia e cautela.

Eu acredito que até agora poderíamos dizer que Podemos aprendeu dos processos latino-americanos. Por outro lado, caso o Podemos chegasse algum dia ao governo, as estruturas europeias são tão inertes, as tradições institucionais tão inflexíveis, que estaríamos frente a um fenômeno realmente muito curioso. Estaríamos diante de uma formação política que define a si mesma através de um projeto transformador, em um continente que há algum tempo demonstra – e de todas as formas possíveis – que é impossível a invenção de uma forma política nova.

Se somamos as corporações, a nova alavancagem do neoliberalismo que colonizou os partidos conservadores (coisa que nem sempre foi assim), mais a estruturação institucional de certas formas associativas do catolicismo que estão presentes de modo transversal, mais as distintas elites corporativas que há na Europa, sem dúvidas, seria uma aprendizagem ver como é possível se mover em um âmbito institucional que conta com séculos de inércia, de imobilismo.

Há outros aspectos a respeito dos quais se pode aprender muito do Podemos, como o âmbito comunicacional, a relação com os cidadãos através das redes sociais, que é muito original. Particularmente, na Argentina, dado o interesse que existe pelas redes sociais, se poderia tomar nota disto. Embora ainda não vimos o que seria no governo, outro aspecto interessante para analisar é o cuidado que o Podemos possui na hora de construir alianças e articulações políticas. Como vimos nos processos latino-americanos, é tão difícil para um projeto popular, nacional e transformador se sustentar, que muitas vezes precisa buscar pactos, sócios e estabelecer conexões que depois se voltam contra. Este último [ponto], caso se demonstre que o Podemos pode ser tão radical em sua aposta, assim como foram os projetos nacional-populares da América Latina, nos últimos anos.

Citou Laclau, onde vê a influência de suas ideias no Podemos?

Minha ideia absolutamente pessoal é que sem a tese de Laclau Podemos teria sido inconcebível. Na medida em que o enfoque de Esquerda Unida partia das forças materiais de ordem estritamente econômica, na estrutura econômica como a determinação em última instância e, por conseguinte, de que o sujeito histórico tinha que proceder necessariamente desse âmbito, jamais se poderia gerar um fenômeno como o Podemos. Isto é possível verificar nos últimos 40 anos de história espanhola. A convocação a partir desse núcleo ideológico nunca teria conseguido ter tal repercussão como a que vemos, hoje em dia, com o Podemos.

Por outro lado, um desencadeamento do Podemos foi compreender que havia uma crise orgânica. Não digo crise do capitalismo, já que ele mesmo se nutre da crise e, em última instância, o que houve foi uma mudança de modelo na acumulação do capital. Mas, ao contrário, no sentido gramsciano, podemos dizer que a Espanha se assomou a uma crise orgânica, a uma crise de legitimidade com relação à representação política. Podemos foi quem melhor a soube interpretar, e em parte porque havia lido Laclau, pôde compreender que havia demandas insatisfeitas não absorvidas pelo tecido institucional.

Em seus inícios, enquanto tradução política do 15M, Podemos pôde ver que era possível articular uma cadeia equivalencial de demandas diferentes e heterogêneas entre si, mas não através de uma estrutura política já constituída. É possível dizer que captaram melhor o momento político como instituinte do social, ao passo que a visão clássica da esquerda é que na própria sociedade já está o germe da transformação. É nesse sentido que penso que Laclau e Chantal Mouffe, no início do Podemos, foram determinantes para compreender a forma como se deve instituir o político.

Falou sobre o contexto europeu. Há pouco, Zizëk expunha que frente à crise do neoliberalismo o que emerge é o capitalismo com valores asiáticos. Ou seja, um capitalismo com regimes políticos autoritários. A partir deste ponto de vista, Podemos seria uma exceção. Qual lhe parece que é a tendência geral em nível europeu?

Sim, concordo, mas o capitalismo com valores asiáticos não deixa de ser uma modalidade de neoliberalismo. O capitalismo asiático não tem uma burguesia clássica, é corporativo e não tem o modelo do profissional assalariado pertencente à burguesia, ao contrário, é constituído através de uma forma oligárquica, corporativa e financeira. Mas, na realidade, o que está ocorrendo é que a alternativa a essa pressão que o capitalismo asiático e, por outro lado, o capitalismo americano (na terminologia de Heidegger a pinça formada por Estados Unidos e Rússia, que agora bem poderia ser Estados Unidos e China) exercem sobre a Europa é a extrema-direita.

O que se está procurando articular – com um suposto discurso antineoliberal – é a extrema-direita que apela aos valores antieuropeus, questionando essa União Europeia que se constituiu com bases mercantis e não políticas, abrindo um mero horizonte de mercado. Frente ao constrangimento provocado pela social-democracia, por exemplo, com o tema Venezuela, o que emerge é a ultradireita. Há partidos nazistas que estão se estabelecendo como verdadeiras alternativas. Algo similar está ocorrendo nos Estados Unidos com Donald Trump. Depois, será necessário ver como se combina isso com um projeto econômico nas modulações do neoliberalismo, mas um traço característico destes fenômenos é o retorno aos valores identitários do local.

É por este motivo que eu não aceito que haja um populismo de esquerda e outro de direita. Para mim, a articulação hegemônica que se dá em um projeto populista só pode se dar no marco de um projeto de esquerda. Os denominados populismos de direita que emergem por todas as partes como supostas alternativas ao neoliberalismo não se constroem na lógica hegemônica da articulação de cadeias equivalenciais, mas, pelo contrário, são puramente identitários. São absolutamente homogêneos e estão configurados com a pretensão de se totalizar, deixando de fora o elemento que ameaça essa identidade, ou seja, estrangeiros, imigrantes, refugiados, judeus, etc.

Parece-me uma confusão, e os próprios seguidores de Laclau a fazem, falar de populismo de esquerda e populismo de direita. Do meu ponto de vista, não é a mesma lógica de articulação a que se produz. O chamado populismo de direita se rege pela ideia identitária de se unificar eliminando qualquer diferença, homogeneizando-se. Para isto, precisa de um exterior que ameace essa identidade, evidentemente falamos dos estrangeiros e os imigrantes. No populismo de esquerda, o próprio Laclau se encarrega de demonstrar que as diferentes demandas – nem sequer na extensão da cadeia equivalencial – se absorvem, e que as diferenças sempre se mantêm. Por isso, é tão instável, contingente e frágil, em definitivo.

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